Caros amigos, como sabem,  o tempo tem sido escasso para o prazer da escrita. Então, passar por aqui para refletir e compartilhar temas de saúde tem se tornado quase um sacrifício. Mas nesta manhã de domingo ensolarado, estive revendo alguns textos, páginas visitadas ao longo desses dois meses e encontrei um post escrito por Stephen Diamond, psicólogo forense americano, que possui uma série de mini artigos chamados Segredos da Psicoterapia, e que foram publicados na versão online da revista Psycology Today. Claro que o tema é bastante simpático, mas este post em especial traz alento, pois nos ajuda a meditar sobre a forma como vivemos nossas vidas. Todo dia é dia de aprendizado. A alma, como as crianças e os adolescentes, às vezes reclama da disciplina, mas é preciso continuar com o nosso imprescindível crescer. Compartilho, então, a tradução livre do artigo intitulado Mudança e Aceitação, esperando que ao menos uma faísca de esperança surja no coração de cada leitor. Para viver melhor, para aprender a ver as coisas sob as lentes da sabedoria e para começar o ano de 2012 mais leve!

“Comecemos com uma simples associação de palavras. Quando você pensa em psicoterapia, qual é a primeira palavra que lhe vem à mente para definir o que ela representa? Pense alguns segundos. Pronto? Para muitos, minha opinião é de que a única e, quem sabe, uma das primeiras palavras foi MUDANÇA. Mas e seu eu falasse a você que psicoterapia tem mais a ver com aceitação do que com mudança?

Qando Sigmund Freud fez aquela mal compreendida declaração de que o objetivo da psicanálise é transformar a miséria neurótica em infelicidade comum, ele estava falando de mudança. Mas como mesmo uma modesta mudança pode acontecer em uma terapia? Muitas das que ocorrem são consequência de um paralelo e gradual processo de aceitação; aceitação da vida como ela realmente é, em oposição àquilo que nós gostaríamos que fosse.

Aceitação de um trauma de infância e sua influência inconsciente no presente. Aceitação de nós mesmos por aquilo que somos, mais do que aquilo que não somos… E até Freud reconheceu profunda e pessoalmente a necessidade de coragem para aceitar nosso sofrimento físico e emocional, e o alto preço que pagamos tentando evitar ou negar esse trágico aspecto da vida.

O conceito de aceitação é especialmente proeminente nas filosofias orientais e também no cristianismo, e outros sistemas religiosos. Em nenhuma parte, por exemplo, na literatura religiosa, este princípio espiritual da aceitação do sofrimento é representado mais dramaticamente do que no arquétipo da imagem da Crucificação. Aceitação é a chave para a iluminação espiritual, como ilustrado repetidamente em textos tradicionais do Velho Testamento, no Bhagavad Gita, nos nobres ensinamentos de Buda e no Tao Te King.

Inspirado implicitamente nessa sabedoria do oriente, o psicólogo clínico Dr. Marsha Linehan (da Universidade de Washington), incorporou o paradoxo ou dialética da mudança versus a aceitação na sua popular Dialectial Behaviour Therapy (DBT). DBT é uma bem estruturada forma de terapia Cognitivo Comportamental, com um componente espiritual e filosófico. Especializado no tratamento de borderliners, Linehan reconhece a necessidade de trabalhar com esses pacientes desafiantes para ensiná-los o que ele chama de aceitação radical – além da necessidade de mudar sua cognição distorcida e seus comportamentos auto destrutivos. A aceitação radical é o abraço tolerante do como e quem estão aqui e agora, justaposto à consciência da necessidade de mudança e crescimento.

Para dar suporte a essa auto aceitação, Linehan integra princípios da meditação e do mindfulness em seu tratamento. Eis aqui os 5 pontos fundamentais da aceitação radical:

1. Aceitação é a consciência daquilo que é.

2. Aceitação é não julgamento, nem considerações do que é bom ou mal.

3. Livrar-se do sofrimento requer mais aceitação do que resistência à realidade.

4. Escolher suportar a dor e o estresse neste momento é aceitação.

5. Aceitar ao invés de evitar a dor emocional na verdade alivia o sofrimento.

A ênfase do especialista é a relação dialética entre a mudança e a aceitação e é um ótimo exemplo do quê precisa acontecer em uma verdadeira e efetiva psicoterapia. Para começar, existem certas coisas na vida que não podem ser mudadas, e algumas delas podem – embora muitas vezes com esforço e suporte. Esse reconhecimento reflete a prece da serenidade utilizada pelos Alcoólatras Anônimos: “Senhor, me dê serenidade para aceitar as coisas que eu não posso mudar; coragem para mudar aquelas que posso, e sabedoria para saber a diferença”. Outra coisa semelhante à abordagem dos AA é aceitar a sua impotência sobre o álcool (ou outras substâncias ou comportamentos de dependência), como pré requisito para a mudança. O problema deve ser inequivocadamente aceito antes que ele possa ser mudado.

Basicamente o que precisa ser mudado é nossa recusa em aceitar nós mesmos e aos outros como eles são agora. Esse é um verdadeiro paradoxo. Quando as pessoas vêm a primeira vez à psicoterapia, elas frequentemente esperam mudar a eles mesmos ou aos outros, e em formas que são simplesmente impossíveis. Mas, por definição, querer mudar algo ou alguma pessoa implica que há algo errado – alguma insuficiência, inadequação, falha, fraqueza, inferioridade, uma imperfeição inerente que pede mudança. Muitos pacientes têm a crença que ninguém pode amá-los, ou que não merecem amor da forma que são.

O que lhes falta é a habilidade de aceitar incondicionalmente eles mesmos, exatamente do jeito que são neste momento, apesar de suas humanas imperfeições. E ao mesmo tempo, algumas mudanças devem claramente ser feitas. Mudanças na percepção do derrotismo, atitudes, velhos mitos sobre si mesmo, estilo de vida, e outros comportamentos destrutivos. Mas o paradoxo é que isso, muitas vezes só é possível por meio da aceitação do que Jung chamou de Sombra.

A aceitação da vida e de seus próprios termos – a inevitabilidade do sofrimento, os caprichos do destino, a trágica qualidade da existência, a realidade do mal, a impermanência, as perdas, as doenças, a solidão, a insegurança, a finitude, o envelhecimento e a morte, é essencial tanto quanto qualquer técnica comportamental ou psicodinâmica, intervenção farmacológica ou reestruturação cognitiva, designada para diretamente mudar ou “consertar”o paciente e seu problema.

Aceitar nossas próprias tendências neuróticas, resistências, mecanismos de defesa, complexos, biologia, temperamentos, tipologia, sentimentos, pensamentos, impulsos, defeitos, idiossincrasias, e nossa capacidade inata para a destruição, juntamente com nossos pontos fortes, talentos e potencialidades criativas – são em si mesmos uma mudança terapêutica para o paciente desanimado, cheio de culpa, hiper moralista, narcisista, reprimido, dissociado ou perfeccionista. Por outro lado, a aceitação de si mesmo, das próprias emoções, pensamentos, comportamentos, problemas, e a responsabilidade por si mesmo, é precisamente o tipo de reorientação psicológica ou espiritual requerida na psicoterapia para que qualquer mudança real e duradoura possa ocorrer. E muito disso leva à aceitação”.

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Os tempos mudam. Fantásticos raciocínios e lógicas impecáveis – quando existem – não são suficientes. É preciso mais. Relações e sintomas psicológicos e psicossomáticos demonstram que outra habilidade faz-se indispensável para o bem viver. Algo que, por falta de hábito, não se ensina e ao qual continua-se não se dando a devida atenção.

Empoleirados nos suportes do pensamento racional, olhamos lá do alto com desdém ou com compaixão para as esquisitas manifestações daquela dimensão do Ser considerada inferior e chamada de emoções. Incluo, nesse contexto, também os sentimentos. Utilizando o arsenal de ferramentas disponíveis, consideramos as formas convolutas, coloridas e variadas das emoções que fluem, num trânsito constante entre o mundo de dentro e o de fora, e as interpretamos do nosso jeito. A mentalidade na qual crescemos oferece uma série de respostas para cada uma das figuras que enxergamos. Basta abrir uma gaveta lá no alto do nosso poleiro de acordo com afinidades aproximadas, e eis que temos uma explicação. Logo, fecha-se a gaveta, retira-se o foco do que está em baixo, e cuida-se do que importa, ou melhor, volta-se a seguir o trilho de sempre.

Este comportamento pode ser comparado a um estudioso que aborda a natureza do ponto de vista da geometria, dispondo apenas de umas poucas formas:  quadrado, retângulo e círculo. Suas lentes psicológicas permitem enxergar somente o que couber nessas formas por aproximação. O resto é descartado por desinteresse, e por absoluta falta de condições (conceitos) para ser compreeendido. De fato, não se pode ver o que os olhos não têm formação para ver, assim como não é possível agarrar algo sem coordenação motora adequada.

Entretanto, as experiências psicológica e somática demonstram que essa dimensão do Ser tem um papel estratégico em nosso bem estar, no sentido da nossa vida, nas relações que temos, na felicidade e frustração que acarretamos para nós mesmos e para os outros. Manter a visão aproximada de algo tão decisivo é,  no mínimo, irresponsável.

A dificuldade em lidar com emoções e sentimentos depende de dois motivos que se interlaçam e influenciam reciprocamente. Por um lado, falta educação emocional e sentimental, as quais entretanto não podem se desenvolver se se continua no poleiro, olhando de cima com ar de superioridade. A humildade é uma exigência, pois é preciso descer  para o plano da emoção/sentimento para olhá-los de perto e aprender suas linguagens.  Essa atitude requer disposição de espírito, abertura e superação de preconceitos.

Por outro lado, não somos meramente esse ego bem intencionado com dificuldade para sacar-se. Por trás dessa primeira camada da psique, existe o simples e bruto interesse que visa manter as coisas como estão, porque emoções e sentimentos desestabilizam. Relacionar-se com elas significa passar de uma posição estática frente a si mesmos e à vida para outra dinâmica, que é flexível e disposta à mudança.

É aí que se revela a verdade. Em que medida falta informação, e em qual medida falta vontade? Quem tem medo das emoções e sentimentos? Aqueles que não querem/não podem questionar-se, saindo da zona de conforto. E essas pessoas caminham pela vida como retardadas emocionais, apesar de poderem possuir uma aguçada inteligência lógica.

Por retardo emocional entende-se então a inabilidade de lidar com e compreender as próprias emoções e sentimentos. Essa deficiência nasce da falta de hábito e de familiaridade culturais, mas é fossilizada pelo medo frente ao desconhecido. Consequência dessa ignorância é a cegueira pelo que está nas entrelinhas em toda relação, e a surdez diante do que, por exemplo, os outros sentem mesmo quando estão chorando na nossa frente. Escolhas mal feitas e caminhos errados também fazem parte do mesmo problema.

Que eu saiba, o único modo efetivo para desenvolver este aprendizado e sair do handicap emocional e sentimental é através daquele tipo de psicoterapia que é como um laboratório vivente. Uma análise desse tipo faz-se sem dogmas e teorias prontas, mas de maneira empirista e experimental, discernindo e distinguindo, observando de perto e analisando, pondo pergunta e buscando-se respostas novas, porque cada pessoa é nova e cada momento é único.

GUEST BLOGGER: Adriana Tanese Nogueira, psicoterapeuta com formação na Itália, idealizadora do Blog Psicologia Dialética e da ONG Amigas do Parto, e autora de vários livros, atualmente reside nos Estados Unidos.

Para saber mais: http://www.psicologiadialetica.com/

http://www.amigasdoparto.org.br/2007/index.php?option=com_content&task=view&id=1284&Itemid=1