Quais são as principais dificuldades emocionais relacionadas ao câncer de mama entre as mulheres? Responder a essa pergunta era a missão do oncologista  M. William Audeh, diretor médico do Samuel Oschin Cancer Center de Los Angeles, Califórnia (EUA), no encontro anual da American Psychiatric Association (APA), ocorrido em maio no Havaí.

Conferencista de uma sessão intitulada Avanços sobre o câncer e suas implicações, Audeh, que também dirige um programa de redução de risco para essa patologia, destacou a importância da existência de grupos de apoio para essas pacientes, para que elas possam expressar seus medos. “O único cuidado é que a integração deve acontecer entre mulheres com o mesmo tipo de prognóstico”, afirma. A boa notícia é que, “Com os avanços das pesquisas genéticas, há cada vez mais esperança para essa doença”, completa o médico. Confira a entrevista exclusiva que o oncologista concedeu ao UOL Ciência e Saúde, diretamente do hospital onde trabalha, em Los Angeles:

O que causa maior estresse entre as pacientes de câncer de mama, o medo da morte ou a perda do símbolo da maternidade,  da feminilidade e sedução?
William Audeh – É a perda do controle sobre as coisas que têm valor na vida. O câncer causa esse sentimento para muitas pessoas porque é misterioso, embora o conhecimento sobre ele seja vasto. Problemas relativos à sexualidade, fertilidade, feminilidade e aparência sempre aparecem, mas eles variam em sua importância, de acordo com cada mulher. A aparência é causa de grande estresse, porque isso afeta como ela se relaciona com as outras pessoas, independente do gênero.

Após um diagnóstico de câncer, que tipo de ajuda é ideal para lidar com os problemas emocionais e físicos consequentes à doença?
Audeh –  Acredito que um bom relacionamento com o oncologista é o mais importante, em razão das decisões que deverão ser tomadas em conjunto, sem que se perca o controle sobre a própria vida. Penso que os amigos e a família, muitas vezes, acabam sendo a causa de maior estresse, pois trazem informações erradas, ou pressionam a mulher para que ela faça coisas que não deseja fazer.

No Brasil há um mito sobre o abandono das mulheres após o diagnóstico do câncer de mama. Isso acontece nos EUA?
Audeh – Eu não vejo isso acontecer com muita frequência. E se acontece, é sinal de que se trata de um relacionamento frágil e pouco saudável. Mas todo tipo de estresse, como questões financeiras ou a saúde podem ser a gota d’água. Entretanto, não é comum que haja mudança na sexualidade, ou que a perda da mama influencie quem realmente ama sua parceira.

Como a família e os amigos podem ajudar?
Audeh – Podem ajudar apoiando e dando liberdade. Como disse,  a maioria dessas pessoas aumenta o estresse, quando deveriam apenas ser solidários e incentivar, sem trazer novas informações como, por exemplo, novidades médicas, ou experiência de outras pessoas que podem ser diversas daquela vivida pela paciente em tratamento. Amor e apoio são as melhores coisas.

Qual é a sua opinião sobre a reposição hormonal, ela é correta para todas? A relação com o câncer de mama é real?
Audeh –  É claro o aumento do risco para o câncer se a reposição hormonal é feita por mais de 2 anos. Trata-se de uma estratégia que suaviza a transição natural para a menopausa, mas não é um tratamento ou qualquer outra coisa. A menopausa não é uma doença. Algumas mulheres sentem que a reposição mantém sua juventude, mas ela não é diferente do tabagismo quando se pensa nos riscos a longo prazo. É possível que o estrógeno sozinho seja mais seguro do que estrógeno e a progesterona. Porém, para as mulheres que se submeteram a uma histerectomia somente o estrógeno deve ser utilizado.

As mulheres estão se submetendo a um excesso de exames?
Audeh – Eu não aceito esse argumento. Quando encontramos um câncer, nós não sabemos se ele será perigoso ou facilmente erradicado. Assim, a abordagem mais sábia é identificá-lo e gerenciá-lo apropriadamente. Pode até ocorrer um excesso de tratamento, mas isso desaparecerá tão logo a tecnologia genômica possa diferenciar cânceres mais graves de cânceres indolentes (de crescimento lento). Entendo que mulheres acima dos 40 anos devam ser examinadas por especialistas e devem fazer mamografias regularmente.  Mulheres com histórico familiar deveriam começar a fazê-lo aos 35 anos. E se for conveniente, devem ainda se submeter à Ressonância Magnética.

Em tempos de tratamento personalizado, como saber qual é a melhor escolha para a paciente?
Audeh – Esse é um problema básico de confiança e comunicação. A mulher precisa ser capaz de fazer as seguintes perguntas ao seu médico: por que essa terapia foi escolhida para mim? Quais são as evidências que a embasam? Quais são as outras opções existentes? Quais são os efeitos colaterais ou danos que esse tratamento pode causar? Quais são os benefícios para mim nesse tratamento, ou o que pode acontecer se eu decidir não fazê-lo? Essas são as perguntas corretas a serem feitas, e todo oncologista deveria ficar feliz em respondê-las.

O que esperar  para o futuro?
Audeh –Maiores índices de cura para cânceres no estágio inicial, maior sobrevivência para aqueles com metástase, bem como qualidade de vida, menos uso de quimioterapia e mais uso da targeted therapy, terapia que visa atuar sobre ou bloquear  as funções de moléculas específicas das células cancerosas. Essa ação visa eliminar o câncer. Trata-se de uma terapia diversa da quimioterapia ou radiação, que indiscriminadamente procura alcançar as células cancerígenas, mas pode também alcançar as outras sãs. A esperança é que ela seja mais efetiva por ser mais específica para cada câncer, e também menos tóxica, pois é direcionada apenas às células cancerosas e não às demais. Além disso, espera-se ser difuso o uso do perfil genético para o câncer para dar suporte às decisões sobre o tratamento.

Para saber mais: Breast cancer: treatment is no longer one size-fits-all

*Matéria originariamente publicada no UOL Ciência e Saúde, em 11/08/2011.

Toda celebridade conhece a dor e a delícia de ser famoso. Quando este alguém é Reynaldo Gianecchini, a coisa pode ser pior. Jovem, bonito, bem sucedido, ele foi alçado ao patamar dos pobres mortais para quem a vida acontece sem pedir licença. Ter um diagnóstico de linfoma, um câncer onde células normais se transformam em células malignas e passam a crescer desordenadamente por todo o corpo, é incurável, mas o tratamento (dependendo do tipo de linfoma) pode levar ao controle dos sintomas e, portanto, da doença por vários anos, não é fácil para ninguém.

E o que um paciente com esse diagnóstico deseja além de encontrar uma esperança de cura? Penso que se espera poder ter o apoio dos parentes, amigos, pessoas capazes de se solidarizar com o mistério que representa a doença na vida das pessoas. Considerando a questão a partir da medicina integrativa, esta seria a oportunidade de refletir o que é possível ser feito para mudar as formas de viver, já que a doença está aí – e portanto, deu-se espaço para que ela se instalasse. A busca pela espiritualidade é o pretexto para refletir sobre o sentido da vida e da morte. E ela tem sido grande aliada da medicina, apesar do ceticismo reinante.

O fato é que os cientistas já comprovaram que quanto maior o nível de religiosidade, menor a atividade do córtex cingular anterior, vinculado ao controle inconsciente do perigo e dos problemas. O achado foi batizado de Marcador Neural de Convicções Religiosas. Tendo sido aluna do médico Mario Peres, pesquisador sênior do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa do Hospital Albert Einstein, pude aprender que existem muitos estudos epidemiológicos que evidenciam os benefícios da fé, da espiritualidade ou religiosidade para doenças mentais, menor prevalência de depressão, abuso de drogas e suicídio, melhor qualidade de vida, maior capacidade de lidar com a doença, menor mortalidade e tempo de internação, e ainda melhora da função imunológica.

Chamem isso de autoengano, placebo, o que quiserem. Mas esses resultados não são diferentes dos encontrados um dia pelo psiquiatra e neurologista Viktor Frankl, e que ele relata no famoso livro – Um sentido para a vida: “a sobrevivência depende da capacidade de orientar a própria vida em direção a um ‘para que coisa’ ou um ‘para quem’. Em outros termos, a existência depende da capacidade de transcender o próprio eu… o ser humano deve sempre estar endereçado, deve sempre apontar para qualquer coisa ou qualquer um diverso dele próprio, ou seja, para um sentido a realizar ou para outro ser humano a encontrar, para uma causa à qual consagrar-se ou para uma pessoa a quem amar. Somente na medida em que consegue viver esta autotranscendência da existência humana, alguém é autenticamente homem e autenticamente si próprio…”.

Apoiar-se na espiritualidade pode, então, ser mesmo um caminho ao esquecimento de si mesmo para alcançar a cura ou, ao menos, suportar a dor da completa impotência diante da magnanimidade da natureza. O que me deixa perplexa é que, para quem é famoso, todo esse processo de autoconhecimento, autotranscendência é objeto de notícia de revista de grande circulação nacional. Isso significa que é impossível vivenciar essa experiência com a privacidade desejável. Durante muito tempo, um de nossos presidentes, foi a inspiração para a caricatura do mau humor e do desejo de distanciar-se do povo e da mídia por causa de sua declaração – Quero que me esqueçam!

Olhando com a distância do tempo, acho que essa também é a vontade de Gianecchini, ou de qualquer outra pessoa na mesma circunstância. Tudo o que ele precisa agora é de tempo, silêncio e cuidados. E que esse caminho lhe traga o bem maior – um sentido para a sua própria doença e sua vida.

A Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas (Sobrac) lança a Campanha pulsAção: sentindo o ritmo do seu coração. O objetivo é conscientizar a população sobre a importância do diagnóstico precoce e da adoção de tratamento adequado para a Fibrilação Atrial. De alcance nacional, a Campanha terá ação interativa em São Paulo, no próximo dia 4 de agosto, no vão livre do MASP.

Dentre as atividades do mini-circuito realizado na capital paulista está uma apresentação lúdica na qual um percussionista ilustrará, por meio de um instrumento musical, a diferença entre um ritmo cardíaco normal e o ritmo de um coração com fibrilação atrial.

O público presente também poderá conferir vídeos demonstrativos em notebooks, com explicações e ilustrações do funcionamento do coração com e sem a doença, podendo ainda levar para sua casa folders com todo o material descritivo sobre o tema.

“Pouco se fala da fibrilação atrial, mas a sua divulgação é importante, pois se trata de uma doença muitas vezes silenciosa, que pode gerar sérias consequências, como o AVC e a insuficiência cardíaca”, explica Dr. Guilherme Fenelon, presidente da Sobrac.

A fibrilação atrial é o tipo de arritmia cardíaca sustentada mais comum nas consultas clínicas, e já afeta 2,5% da população¹. É caracterizada pela desorganização da atividade elétrica dos átrios (câmaras superiores do coração), fazendo com que o ritmo atrial se torne rápido e irregular, além dos átrios perderem a sua capacidade de contração.

Os sintomas da doença incluem palpitações, falta de ar, tontura, dor no peito e cansaço, mas pode também ser completamente assintomática. No coração, a fibrilação atrial altera a função cardíaca, favorecendo o desenvolvimento da insuficiência cardíaca e a formação de trombos de sangue dentro do coração, podendo, dessa forma, causar um derrame, também conhecido como acidente vascular cerebral (AVC). As chances de um portador da doença sofrer um AVC são de cinco a sete vezes maiores do que a de uma pessoa que não tem a doença.

Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia, cerca de um em cada 10 mil jovens normais tem fibrilação atrial. Nesses indivíduos, a doença é geralmente intermitente, mas pode se tornar crônica em 25% dos casos. Esta condição pode ser provocada por estresse, álcool e fumo, porém na maioria das vezes não possui uma causa aparente.

O diagnóstico precoce e o controle da fibrilação atrial são de extrema importância para evitar as complicações da doença, que podem levar ao derrame (AVC).

Inicialmente, o tratamento da arritmia é feito com medicamentos antiarrítmicos. Além disso, pacientes com maior risco (idade acima de 75 anos, hipertensos, diabéticos, com insuficiência cardíaca, ou que já tiveram AVC) devem fazer a prevenção do AVC com remédios anticoagulantes.

Pacientes que não respondem ou são intolerantes ao tratamento medicamentoso podem se beneficiar da ablação por cateter, principalmente aqueles mais jovens, com muitos sintomas e sem doença cardíaca significativa. Em pacientes com essas características, a ablação por cateter é considerada um procedimento seguro e eficaz para a correção da fibrilação atrial, reduzindo em 65% o risco de recorrência da fibrilação em comparação aos medicamentos antiarrítmicos pelo período de um ano.

Essa prática consiste na introdução de cateteres pelo sistema circulatório periférico. Os cateteres são guiados até o coração, onde isolam ou eliminam as áreas de tecido atrial responsáveis por gerar uma atividade elétrica irregular. O tipo de cateter para ablação mais comum usa energia de radiofrequência para “cauterizar” o tecido do coração, criando uma cicatriz que impede novas descargas irregulares.

Já existem no Brasil procedimentos de ablação em que o médico consegue ter um mapeamento 3D do sistema elétrico do coração e visualizar os cateteres sem o uso de aparelhos de Raios-X, diminuindo a exposição do paciente e da equipe médica à radiação e aumentando a precisão do procedimento.

A campanha pulsAção: sentindo o ritmo do seu coração tem o apoio da Biosense Webster, líder no segmento de diagnóstico e tratamento das arritmias cardíacas.

Serviço

pulsAção: sentindo o ritmo do seu coração

Data: 4 de agosto

Horário: das 7 às 15 horas

Local: Vão Livre do MASP – Av. Paulista, 1578 – sentido Centro/Bairro

Para saber mais: www.ritmodocoração.com.br

[1] Estudo da SOBRAC (Sociedade Brasileira de Arritmia Cardíaca) e do DECA (Departamento de Estimulação Cardíaca Artificial da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular) de 2009, com base em dados oficiais do Ministério da Saúde, referentes a 2007.

Em dezembro de 1940, foi publicado o Decreto-Lei n.º 2.848, estabelecendo o Código Penal Brasileiro (CPB). O artigo 124 define ser crime provocar aborto em si mesma ou consentir que outrem lho provoque, sob pena de detenção de 1 a 3 anos. O artigo 126, por sua vez, diz que quem provoca aborto, mesmo com o consentimento da gestante, pode ser punido com reclusão de 1 a 4 anos. Na sequência, o artigo 128 estabelece os casos de impossibilidade de punição por aborto praticado por médico: se não houver outro meio de salvar a vida da gestante, ou se a gravidez resulta de estupro, e o aborto for consentido pela gestante ou seu representante legal.

Em 1970, trinta anos após a promulgação da lei penal, foi publicado por Garrett, Robinson e Kossoff o primeiro trabalho científico demonstrando a possibilidade de detecção de malformações fetais por ultrassom. Passados quase meio século dessa descoberta, e mais de setenta anos da publicação daquela legislação, o mundo mudou. Com a melhoria da qualidade de atendimento pré natal no Brasil, a maioria das gestantes faz um ou mais exames de ultrassom durante a gestação, e já na 11ª semana de gestação é possível detectar com precisão se o feto tem anencefalia.

É sabido que no Brasil acontecem mais de 3 milhões de gestações por ano, e estima-se a detecção de oito novos casos desse tipo por dia. A comunicação desse diagnóstico aos pais é um momento dramático, pois o sonho de convívio com um filho acabou naquele momento. Não bastasse isso, esse casal passa a ter consciência do maior risco para eles de passar pela mesma experiência dolorosa novamente, em futuras gestações.

Na década de 1940 não existia o ultrassom gestacional, e a duração do sofrimento dos casais, em casos de anencefalia, era de segundos ou minutos, raramente algumas horas, pois o médico só identificava que o feto tinha anencefalia no momento do parto. O casal era então informado que seu filho nasceu com uma má formação incompatível com a vida, e por isso foi a óbito. Iniciava-se o período de luto imediatamente, e não havia o dilema ético e legal hoje existente.

Como o diagnóstico agora é feito no início da gestação, o casal tem de aguardar de 25 a 29 semanas de gestação para enterrar o filho logo após o nascimento. Claro que muitos casais preferem esperar até o final da gestação para interromper esse período difícil em suas vidas, e a opinião deles deve ser respeitada. Porém, outros casais gostariam de optar pela antecipação imediata do parto, iniciar imediatamente o luto, se recuperar e planejar uma nova gestação.

Há setenta anos essa segunda opção é considerada um crime pelo Estado brasileiro. Fundamental ressaltar que o que está em julgamento no Superior Tribunal Federal (STF) não é qual das duas atitudes é a mais correta, mas se a segunda opção deve persistir sendo crime após tantos anos da publicação do CPB, ou se o mundo mudou a ponto da lei ter de ser atualizada.

É importante ressaltar que cerca da metade dos fetos com anencefalia morre ainda durante a gestação e praticamente todos os demais vão morrer nas primeiras horas após o parto. A condição é inexoravelmente letal. Seria uma ótima oportunidade, e de grande utilidade aos cidadãos brasileiros, que o STF aproveitasse o momento e julgasse também se já pode ser considerado crime a inoperância do Ministério da Saúde, que em outubro de 2004 instituiu um grupo de trabalho para sistematizar uma proposta de Política Nacional de Atenção à Saúde em Genética Clínica, e implementar em 180 dias sua inserção no SUS. Porém, passados quase sete anos, mantém engavetado o projeto, pronto para ser publicado desde 2009.

Entre outros benefícios educacionais de baixo custo que a implantação do atendimento de genética no SUS traria a 150 milhões de brasileiros que dependem do atendimento público, está a difusão entre as mulheres em período reprodutivo, do conceito médico de que a administração medicamentosa de ácido fólico um a dois meses antes da gestação reduz o risco de anencefalia fetal pela metade. Trata-se da prática de uma medicina profilática, que evitaria que boa parte dos casos de anencefalia chegasse a ocorrer, minimizando o sofrimento e as difíceis decisões que esses casais talvez poderão e precisarão tomar, caso a antecipação do parto em casos de anencefalia fetal seja descriminalizada pelo STF.

Guest Blogger: Dr. Salmo Raskin, diretor da Sociedade Brasileira de Genética Médica.

Do ponto de vista psicológico, clima frio é aquele nos provoca a sensação de frio ou até mesmo desconforto. Do ponto de vista fisiológico, clima frio é aquele que altera nosso sistema de regulação de temperatura. Podemos dizer que esse nosso termostato funciona em “marcha lenta” em ambientes com temperaturas de 25-27oC, não disparando reações de aumento do metabolismo no caso do frio, ou de transpiração, no caso do calor. A inteligência maior dessa regulação encontra-se em um centro profundo do cérebro, o hipotálamo, e é ele que comanda nossas reações de suor, calafrios e constrição ou vasodilatação dos vasos sanguíneos em resposta à temperatura ambiente.

Será que realmente funcionamos em outro ritmo em dias mais frios? A adaptação do nosso corpo ao frio envolve mecanismos neurológicos, que influenciam nosso sistema endocrinológico e vascular, mas é claro que também envolve mecanismos comportamentais, como tirar do armário aquele cobertor que só usamos algumas vezes no ano.

Vários fatores determinam a regulação do frio em um determinado indivíduo: idade, sexo, preparo físico, quantidade de gordura corporal. Até mesmo o tipo de personalidade do indivíduo pode influenciar: extrovertidos reagem mais ao desconforto do frio com maior aumento da pressão arterial e secreção de noradrenalina. Doenças sistêmicas e medicações também podem afetar a resposta individual ao frio.

Do ponto de vista de desempenho físico, o frio prejudica a função muscular em exercícios dinâmicos. Já em exercícios estáticos (isométricos), o frio não influencia tanto, e ao contrário, pode até aumentar a resistência muscular. Um recente estudo revelou associação entre o frio e a capacidade de equilíbrio, possivelmente por reduzir a eficiência de nossas “antenas” que regulam nosso balanço. E o nosso cérebro?

Sabemos que tanto o frio como o calor exagerados podem influenciar negativamente nossas habilidades mentais, e um balanço geral dos estudos existentes sugere que o frio tende a atrapalhar mais. Entretanto, alguns estudos também nos mostram que o frio leve/moderado pode melhorar nosso desempenho intelectual.

Duas principais teorias explicam o efeito do frio sobre nossas habilidades cognitivas. A primeira é do “efeito distração” que o desconforto associado ao frio pode causar, ao desviar nossa atenção da tarefa que estamos efetuando. A outra teoria defende a ideia de que o frio leve/moderado deixa-nos mais acordados, e o maior estado de vigília permite um melhor desempenho do nosso cérebro. Evidências neurofisiológicas apoiam essa hipótese, ao mostrar que a atividade elétrica cerebral no frio leve/moderado é mais “esperta”.

O frio pode reduzir nosso nível de vigília, nossa concentração e memória de curto prazo, entre outras funções cognitivas, especialmente em temperaturas abaixo de 10º C. No caso de hipotermia, ou seja, em situações de frio extremo em que a temperatura corporal chega a níveis inferiores a 35º C, pode-se observar sintomas de confusão mental e redução da vigília. O efeito do inverno sobre nosso comportamento também pode ter uma parcela de contribuição do fator luminosidade. Em países muito ao sul ou muito ao norte, o inverno vem acompanhado de pouca luz por conta de dias muito curtos, fenômeno que é bem reconhecido como fator que aumenta a frequência de sintomas depressivos nessa estação. E depressão é igual a cérebro menos eficiente. Há evidências também que as concentrações dos hormônios da tiroide estão reduzidas em invernos rigorosos. E hormônios da tiroide são combustíveis importantes para o cérebro.

Até o momento, a melhor dica para nosso cérebro curtir o frio com boa performance é a de nos agasalharmos bem para não ficarmos distraídos com o desconforto do frio. No ambiente de trabalho, o ar condicionado simulando uma câmara frigorífica pode ser um fator de distração. Viver o inverno sem ficarmos lembrando que está frio pode até deixar o cérebro mais ligado. Um cafezinho vai muito bem também!


*GUEST BLOGGER: Dr. Ricardo Teixeira,  neurologista e diretor do Instituto do Cérebro de Brasília (IBC), e professor da pós-graduação em Divulgação Científica e Cultural da Universidade de Campinas (UNICAMP). É também autor do premiado Blog ConsCiência no Dia a Dia.

Há mais de dez anos, conheci um jovem educado, belo e gentil. Nossa simpatia foi recíproca e imediata. É que ele é nascido em Salvador da Bahia, uma das minhas cidades preferidas neste mundo. E ouvir seu sotaque trouxe e me traz a deliciosa lembrança do por do sol no mar, dos cheiros e temperos do Mercado Modelo, do feijão verde vendido por litro e, claro, das poéticas canções de pescadores de Caymmi.

Após uma tentativa de se instalar na Europa, Eduardo Santiago veio trabalhar em meu condomínio. Nunca aceitei bem essa ideia, pois acreditava que ele merecia um trabalho onde pudesse, efetivamente, utilizar melhor seus dons. Mas o fato é que, tendo estado por perto, pude observar seu desenvolvimento pessoal. Ao longo desses anos, ele se tornou um professor de Educação Física, e ainda comprou sua casa própria! Dias atrás conversávamos sobre seu Trabalho de Conclusão de Curso, e ele me contou que escolhera o Autismo como tema de sua pesquisa.

Essa patologia acomete mais meninos que meninas, entre o primeiro e o terceiro ano de vida, e se caracteriza pela incapacidade de desenvolvimento social, comportamentos compulsivo e ritualista. Não se trata de um retardo mental, mas alguns casos pode manifestar esse sintoma. As causas ainda são desconhecidas, mas pesquisas recentes indicam que fatores genético/etiológicos estão envolvidos, e alterações neurobiológicas são identificadas. Mas esses são estudos preliminares. Inexiste cura para esse mal, porém o controle da doença é possível por meio de tratamento medicamentoso e terapias que estimulam o aprendizado de habilidades para aumentar a qualidade de vida.

Assim, a proposta de Santiago era observar a possibilidade de integrar essas crianças às aulas de educação física. “Embora algumas delas apresentem sério retardo no desenvolvimento da linguagem, outras têm inteligência e fala intactas”, explicou. “O professor, ao assumir o compromisso de ser docente, deve ter consciência de que pode perder oportunidades de ensino, caso se perca ou desconsidere esses contextos”, completou.

Para o novo professor, a Educação Física, como meio pedagógico, pode trazer contribuições significativas à vida das pessoas com Autismo, porque seus conteúdos se dirigem a todo e qualquer corpo, independentemente de seu estado cognitivo. “O que se diferencia são apenas as estratégias metodológicas adotadas”, diz.

“Devemos romper com o tratamento tradicional dos conteúdos, que favorece os alunos que já têm aptidões, e buscar o desenvolvimento da autonomia, da cooperação, da participação social, mesmo entre as crianças autistas. A proposta é garantir a todos a possibilidade de vivenciar jogos, esportes, danças, lutas e ginástica na construção do exercício crítico da cidadania”, fala Santiago.

Na opinião do jovem especialista, a partir do conhecimento da individualidade de cada aluno, suas habilidades e limitações, é possível aplicar exercícios adaptados. “O resultado são aulas produtivas e prazerosas”, conclui.

Meu caro Santiago talvez não saiba, mas sua atitude está repetindo um modelo idealizado por um dos mais respeitados filósofos da Roma antiga: Sêneca. Para esse pensador, a educação ideal deve educar para a vida, preparando os alunos para o justo, o bom e o belo. O que seria essa intenção de ensinar a alunos autistas habilidades como controle do corpo e sociabilidade, inerentes às atividades físicas de grupo? Trata-se de um desejo de prepará-las à fruição plena do maior bem que possuem neste mundo: o tempo!

Parabéns, querido Eduardo!

Eduardo Santiago, é professor de Educação Física e personal trainer. Contatos: edusantyago@hotmail.com

 

Para saber mais:

 

Na qualidade de diretor da  Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), entendo que é necessário apelar para o Senado Federal, solicitando uma nova audiência pública sobre a proposta da ANVISA para banir do mercado brasileiro os inibidores de apetite.

A razão para isso é o fato de que entendo que a agência reguladora está sendo arbitrária e unilateral, pois insiste em não considerar os apelos de inúmeros médicos e entidades que têm, desde o início das discussões, se manifestado favoráveis à manutenção desses fármacos como opção para o tratamento de pacientes obesos.

Os inibidores de apetite são medicamentos para controle da obesidade que agem no sistema nervoso central: sibutramina, femproporex, dietilpropiona e mazindol. A ANVISA iniciou em fevereiro uma série de audiências para considerar a proibição desses fármacos, com base em um estudo chamado SCOUT que indicava aumento dos riscos em pacientes com histórico de problemas cardíacos.

Entretanto, esse estudo considerou apenas pacientes com esse histórico, sendo, portanto, um estudo parcial.  A verdade é que os médicos já não indicam esses medicamentos para esses pacientes, como bem já advertiu o presidente da ABRAN, o Dr. Durval Ribas Filho. E até mesmo os cardiologistas consideram que os benefícios superam os riscos desses fármacos, desde que utilizados com indicação e acompanhamento médicos.

A própria ANVISA trouxe ao Brasil um dos responsáveis pelo estudo SCOUT, o Dr. Christian Torp-Pedersen, e até ele entende que é preciso manter esses medicamentos no mercado. A obesidade é a doença que mais cresce no mundo, e ainda não existem alternativas mais seguras. No final, não há como discordar do Dr.  Ribas, pois o maior prejudicado nessa história toda continua sendo o paciente obeso.

O painel técnico ocorrido no dia 14 de junho não permitiu a presença da imprensa como anteriormente noticiado.  E a boa fé da classe médica serviu apenas para que a ANVISA transmitisse uma falsa impressão de ter conduzido a discussão de maneira democrática. Entretanto, a agência considerou essa sessão como a última, mas a ABRAN está formalizando pedidos a senadores para que um novo painel público possa acontecer na Casa. E que todos saibam: não mediremos esforços para evitar uma decisão autoritária e antidemocrática. Se a ANVISA prosseguir nesse sentido, não restará outra opção senão usar os meios legais para solução desse problema.

*Guest Blogger: Dr. Paulo Giorelli, diretor da ABRAN, entidade médica científica reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina. Fundada em 1973, dedica-se ao estudo de nutrientes dos alimentos, decisivos na prevenção, no diagnóstico e no tratamento da maior parte das doenças que afetam o ser humano, a maior parte de origem nutricional. Reúne mais de 3.200 médicos nutrólogos associados, que atuam no desenvolvimento e atualização científica em prol do bem estar nutricional, físico, social e mental da população.