Saúde das Mulheres


Ainda me lembro do dia em que recebi a notícia de que minha mãe tinha sido diagnosticada com um câncer de mama. Eu acabara de chegar do trabalho,  e respondi ao telefone no corredor que levava aos quartos do meu apartamento. Não recordo do teor da conversa, apenas resgistrei que senti muito medo. E tanto, que deslizei as costas na parede até encostar os glúteos no chão. Liguei imediatamente para meu marido contanto a novidade e, depois dessa cena, não lembro de mais nada. O “take” seguinte tem como cenário a antesala de um centro cirúrgico. Naquela época eu não era esse doce de pessoa que sou hoje e estava convencida de que podia fazer todas as coisas do meu jeito… Minha irmã estava ali sentada do meu lado, paralisada.

O médico, um oriental, entrou da sala dizendo que tinham retirado tecidos do seio dela, iam fazer uma biópsia e, talvez, outra cirurgia seria feita na sequência, caso constatassem algo mais grave. Eu aproveitei a notícia para desabar toda a raiva que sentia. – Porque não fizeram a biópsia na hora? Outra cirurgia em 24 horas? Vocês sabem o que estão fazendo? Ela é alérgica a medicamentos e, quem sabe o que pode acontecer com uma nova dose de anéstesicos num período tão curto de tempo? Claro, a raiva não era dele. Na verdade eu sentia muito medo. E me ver impotente diante da realidade me deixava furiosa.

Mas o médico sabia o que estava fazendo, e eu estava na tribuna, feito uma “advogada americana” querendo acusar-lhe de mala praxis diante de um tribunal lotado de mulheres. Afinal, quem estava na sua mesa de operação era minha mãe! Apesar disso, o médico não me poupou (e como poderia fazê-lo?). E foi assim que me explicou, com aquele jeito de samurai, que o que estava em jogo ali era muito mais importante do que a minha honra de causídica ou preocupações com anestésicos. Encerrei meu discurso ácido com um – A bem da verdade, data venia,  o senhor está falando (o senhor sabe com quem está falando?) nesse tom porque quem está na sala de recuperação não é a senhora sua, MAS A MINHA MÃE! Nova cena:  o dia seguinte. Resultado da biópsia. Outra cirurgia foi feita. Era um carcinoma in sito, um tipo menos grave de câncer de mama.

Há quase 20 anos, o que salvou minha mãe foram os EXAMES PREVENTIVOS. Como o câncer foi detectado precocemente, não houve necessidade de uma mastectomia total, mas parcial. E, melhor ainda, ela se livrou da quimioterapia. No seu caso, sessões repetidas de radio (não menos traumáticas) foram suficientes, além do remédio que teve que tomar por anos e os controles rigorosamente repetidos.

No pós operatório, quando ela ainda estava sob meus cuidados, eu lhe disse – eu só posso estar aqui como uma filha, dama de companhia ou uma enfermeira, mas quem precisa reagir e superar toda essa experiência é você! Depois de muitos anos ela me disse que essas palavras foram duras demais… Mas eu não entendia que assim eram. E não as entendo assim até hoje. Por mais que seja desejável e necessário o apoio de quem amamos, somos nós quem precisamos dar o primeiro passo em direção àquilo que necessitamos. E ela, de alguma maneira, conseguiu fazê-lo, apesar dos poucos recursos emocionais que lhe restaram em seu percurso de vida tão dramático. Mas pensando bem, quem é que tem culhões suficientes para superar tudo isso numa boa?  É preciso ter coragem, muita coragem para enfrentar nosso maior inimigo, que não é a doença, como tantos históricos de superação nos adverte. Nosso maior inimigo somos nós mesmos.

Ao abrir hoje o NYTimes, vi a foto de muitas pessoas que entenderam exatamente o que isso significa. E é por isso que desejei publicar aqui a foto de tantas outras pessoas que superaram o câncer. De um jeito ou de outro. O objetivo é mostrar que estamos todos no mesmo barco. Eu ainda tenho medo de fazer os testes preventivos, mas sei que preciso fazê-los. Ao olhar para essas fotos, lembrei que a vida, apesar das tantas patologias, é maravilhosa. E cada segundo dela deve mesmo ser celebrado.

Então, em nome das estimadass 12 milhões de pessoas que superaram dias de câncer, só nos Estados Unidos, convido-os a enviarem suas fotos para que eu possa publicá-las aqui. Basta enviar uma mensagem neste blog com o endereço email para que eu retorne solicitando a foto.

Começo eu, com a foto de minha amada mãe, a quem dedico este post!

E que todos tenham vida em abundância! Sempre!

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Quais são as principais dificuldades emocionais relacionadas ao câncer de mama entre as mulheres? Responder a essa pergunta era a missão do oncologista  M. William Audeh, diretor médico do Samuel Oschin Cancer Center de Los Angeles, Califórnia (EUA), no encontro anual da American Psychiatric Association (APA), ocorrido em maio no Havaí.

Conferencista de uma sessão intitulada Avanços sobre o câncer e suas implicações, Audeh, que também dirige um programa de redução de risco para essa patologia, destacou a importância da existência de grupos de apoio para essas pacientes, para que elas possam expressar seus medos. “O único cuidado é que a integração deve acontecer entre mulheres com o mesmo tipo de prognóstico”, afirma. A boa notícia é que, “Com os avanços das pesquisas genéticas, há cada vez mais esperança para essa doença”, completa o médico. Confira a entrevista exclusiva que o oncologista concedeu ao UOL Ciência e Saúde, diretamente do hospital onde trabalha, em Los Angeles:

O que causa maior estresse entre as pacientes de câncer de mama, o medo da morte ou a perda do símbolo da maternidade,  da feminilidade e sedução?
William Audeh – É a perda do controle sobre as coisas que têm valor na vida. O câncer causa esse sentimento para muitas pessoas porque é misterioso, embora o conhecimento sobre ele seja vasto. Problemas relativos à sexualidade, fertilidade, feminilidade e aparência sempre aparecem, mas eles variam em sua importância, de acordo com cada mulher. A aparência é causa de grande estresse, porque isso afeta como ela se relaciona com as outras pessoas, independente do gênero.

Após um diagnóstico de câncer, que tipo de ajuda é ideal para lidar com os problemas emocionais e físicos consequentes à doença?
Audeh –  Acredito que um bom relacionamento com o oncologista é o mais importante, em razão das decisões que deverão ser tomadas em conjunto, sem que se perca o controle sobre a própria vida. Penso que os amigos e a família, muitas vezes, acabam sendo a causa de maior estresse, pois trazem informações erradas, ou pressionam a mulher para que ela faça coisas que não deseja fazer.

No Brasil há um mito sobre o abandono das mulheres após o diagnóstico do câncer de mama. Isso acontece nos EUA?
Audeh – Eu não vejo isso acontecer com muita frequência. E se acontece, é sinal de que se trata de um relacionamento frágil e pouco saudável. Mas todo tipo de estresse, como questões financeiras ou a saúde podem ser a gota d’água. Entretanto, não é comum que haja mudança na sexualidade, ou que a perda da mama influencie quem realmente ama sua parceira.

Como a família e os amigos podem ajudar?
Audeh – Podem ajudar apoiando e dando liberdade. Como disse,  a maioria dessas pessoas aumenta o estresse, quando deveriam apenas ser solidários e incentivar, sem trazer novas informações como, por exemplo, novidades médicas, ou experiência de outras pessoas que podem ser diversas daquela vivida pela paciente em tratamento. Amor e apoio são as melhores coisas.

Qual é a sua opinião sobre a reposição hormonal, ela é correta para todas? A relação com o câncer de mama é real?
Audeh –  É claro o aumento do risco para o câncer se a reposição hormonal é feita por mais de 2 anos. Trata-se de uma estratégia que suaviza a transição natural para a menopausa, mas não é um tratamento ou qualquer outra coisa. A menopausa não é uma doença. Algumas mulheres sentem que a reposição mantém sua juventude, mas ela não é diferente do tabagismo quando se pensa nos riscos a longo prazo. É possível que o estrógeno sozinho seja mais seguro do que estrógeno e a progesterona. Porém, para as mulheres que se submeteram a uma histerectomia somente o estrógeno deve ser utilizado.

As mulheres estão se submetendo a um excesso de exames?
Audeh – Eu não aceito esse argumento. Quando encontramos um câncer, nós não sabemos se ele será perigoso ou facilmente erradicado. Assim, a abordagem mais sábia é identificá-lo e gerenciá-lo apropriadamente. Pode até ocorrer um excesso de tratamento, mas isso desaparecerá tão logo a tecnologia genômica possa diferenciar cânceres mais graves de cânceres indolentes (de crescimento lento). Entendo que mulheres acima dos 40 anos devam ser examinadas por especialistas e devem fazer mamografias regularmente.  Mulheres com histórico familiar deveriam começar a fazê-lo aos 35 anos. E se for conveniente, devem ainda se submeter à Ressonância Magnética.

Em tempos de tratamento personalizado, como saber qual é a melhor escolha para a paciente?
Audeh – Esse é um problema básico de confiança e comunicação. A mulher precisa ser capaz de fazer as seguintes perguntas ao seu médico: por que essa terapia foi escolhida para mim? Quais são as evidências que a embasam? Quais são as outras opções existentes? Quais são os efeitos colaterais ou danos que esse tratamento pode causar? Quais são os benefícios para mim nesse tratamento, ou o que pode acontecer se eu decidir não fazê-lo? Essas são as perguntas corretas a serem feitas, e todo oncologista deveria ficar feliz em respondê-las.

O que esperar  para o futuro?
Audeh –Maiores índices de cura para cânceres no estágio inicial, maior sobrevivência para aqueles com metástase, bem como qualidade de vida, menos uso de quimioterapia e mais uso da targeted therapy, terapia que visa atuar sobre ou bloquear  as funções de moléculas específicas das células cancerosas. Essa ação visa eliminar o câncer. Trata-se de uma terapia diversa da quimioterapia ou radiação, que indiscriminadamente procura alcançar as células cancerígenas, mas pode também alcançar as outras sãs. A esperança é que ela seja mais efetiva por ser mais específica para cada câncer, e também menos tóxica, pois é direcionada apenas às células cancerosas e não às demais. Além disso, espera-se ser difuso o uso do perfil genético para o câncer para dar suporte às decisões sobre o tratamento.

Para saber mais: Breast cancer: treatment is no longer one size-fits-all

*Matéria originariamente publicada no UOL Ciência e Saúde, em 11/08/2011.

A acupuntura pode ser uma grande aliada no período de gestação, auxiliando o corpo a se adaptar às transformações e contribuindo para uma melhora global no organismo da mulher. A lista dos benefícios da utilização da acupuntura nesta fase é bastante ampla. A prática, reconhecida por suas funções analgésicas e anti-inflamatórias, ajuda a reduzir e até mesmo evitar diversos sintomas decorrentes da gravidez, como náuseas e ansiedade, além de amenizar as dores nas costas, uma das maiores queixas das gestantes.

A aplicação das agulhas estimula as terminações nervosas, que enviam mensagens ao cérebro, liberando substâncias analgésicas e desencadeando reações no organismo, como alívio da dor, relaxamento muscular e estimulação das funções imunológicas, entre outras.

O uso da acupuntura durante a gestação é um tratamento complementar seguro e efetivo para os desconfortos da gravidez. No primeiro trimestre, a indicação é voltada para amenizar enjoos, vômitos e dores de cabeça. No final da gestação, é efetiva contra dores lombares e insônia e ainda pode ser uma grande aliada no tratamento da azia e gastrite, sem que a gestante tenha que fazer uso daos medicamentos convencionais, que podem trazer efeitos colaterais.

E os benefícios podem ir além. Durante as sessões, o bebê também é beneficiado, pois uma gravidez tranquila reflete no desenvolvimento do feto. Na fase do pós-parto, a acupuntura ajuda a reequilibrar as funções do organismo e a produção hormonal. Como atua no sistema nervoso central e periférico, a técnica é recomendada para casos de depressão pós parto, e age regularizando a oferta de neurotransmissores como serotonina e noradrenalina, sem os indesejáveis efeitos colaterais de medicamentos.

As sessões de acupuntura devem ser feitas de acordo com a intensidade dos sintomas apresentados. Em geral, variam de uma a duas vezes por semana. É necessário que se explique detalhadamente à paciente cada procedimento que iremos realizar, para que a mesmo se sinta segura quando aplicarmos as agulhas. Por se tratar de um método invasivo, as agulhas devem ser descartáveis e o procedimento deve ser exercido por médico especializado.

É preciso considerar que a acupuntura é um procedimento invasivo e, quando realizada por indivíduos sem a devida qualificação, tem se revelado extremamente danosa. A escolha de um profissional adequado é essencial para que o paciente possa usufruir dos inúmeros benefícios que o método comprovadamente traz, sem sofrer efeitos indesejados.

Guest Blogger: Dr. Dirceu de Lavôr Sales, médico especializado em acupuntura e presidente do Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura, órgão oficial da acupuntura médica do país, reconhecido pelo Conselho Federal de Medicina, Associação Médica Brasileira, Federação Nacional dos Médicos e Comissão Nacional de Residência Médica.

Conferindo as mensagens esta manhã, recebi as mais recentes publicações científicas sobre a saúde da mulher. Uma delas me chamou a atenção, pois vem do Nepal, local que, no meu imaginário, é um cenário de filme: lindas paisagens, pessoas doces e amorosas. O título da pesquisa – Coerção sexual em mulheres casadas. Vou atrás do organizador do trabalho. Trata-se de Ramesh Adhikari, especialista em População e reprodução humana, pelo Institute for Population and Social Research (IPSR), Mahidol University (Tailândia).

Então, o resumo do resumo: “A coerção sexual é um problema de saúde pública importante em razão de sua associação negativa com resultados sociais e de saúde. O artigo examina a prevalência da coerção sexual perpretada por maridos sobre suas esposas no Nepal, além de identificar características associadas a esse fenômeno”. Foram entrevistadas 1536 mulheres e 58% delas vivenciaram algum tipo de coerção sexual por parte de seus maridos

A análise de dados mostrou que escolaridade, poder de decisão sobre a própria saúde, diferenças de idade, consumo de álcool pelo parceiro e controle patriarcal estão associados à experiência. Mulheres letradas possuem 28% menos chance de sofrerem esse tipo de agressão do que as com menor grau de educação. Entre as que têm maior consciência sobre cuidados com a saúde, o índice aumenta para 36%. Por outro lado, mulheres com parceiros cuja diferença de idade era igual ou maior que 5 anos, bem como aquelas incluídas em relações patriarcais, também tinham maior probabilidade de coerção. A conclusão do pesquisador é que é necessária a promoção de programas que foquem a educação do poder feminino para redução do fenômeno, bem como para a proteção de sua saúde e direitos. Campanhas sobre abuso de álcool e conscientização dos maridos sobre o tema também deveriam ser objeto de atenção.

Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas, será mera coincidência. Entretanto, vislumbro aqui uma questão interessante. Se estivéssemos falando de maridos do ocidente, a disponibilidade para o ato sexual, dentro do casamento, constitui um dever conjugal. Trata-se de uma regra regulada pelo direito civil, mas ela está implícita na relação que se instala entre o casal. Não acredito que os números encontrados por Adhikari teriam sido menores dos que se encontrariam por aqui. A pergunta que me veio à cabeça é – por que seria necessária a coerção? Quais seriam os motivos que levariam uma mulher amorosa a se recusar a seu marido que, supostamente, teria sido escolhido entre algumas possibilidades diferentes? Cansaço, desinteresse sexual, alguma patologia física ou psicológica? Não saberia dizer, principalmente porque nem sempre é o amor que une e mantém juntos um homem e uma mulher.

A ideia romântica do  viveram felizes para sempre, na maioria das vezes, será substituída pela necessidade de superar, dia a dia, os desafios do próprio viver, e pelas mudanças que cada um experimentará ao longo do caminho. E então, aqui, entra em cena a importância de construir relações verdadeiras, onde exista legítimo interesse de saber o que há para além de um corpo físico disponível para o ato sexual. Talvez seja esse o segredo que pode manter vivo o desejo pelo outro – saber que ele é um ser complexo que hoje é o melhor amante, amanhã nem tanto; depois de amanhã se revelará desinteressado pelo encontro sexual depois de um a jornada de trabalho na cidade. Para além disso tudo, essa pessoa continuará sendo alguém que merece nosso respeito, pois nossa sexualidade não é responsabilidade do outro, nem mesmo quando esse outro é nosso marido ou mulher.

Seja lá como for, é impossível ter saúde quando nosso corpo e nossa mente são violados.

Para saber mais: Sexual coercion of married women in Nepal

Quem tem a oportunidade de conhecer Adriana Tanese Nogueira, desde logo percebe quem ela é: uma mulher combativa. Mãe e filha devota, chegou ao Brasil depois de um longo período morando na  Itália com uma ideia fixa:  colocar em prática suas convicções sobre o momento sagrado do parto. Foi aí que teve início o desafio de conscientizar as mulheres brasileiras sobre o poder de decidir como será um dos momentos mais importantes da vida de uma mulher: o nascimento de um filho. Psicanalista, mestre em Ciências da Religião pela Pontifícia Univerdidade Católica de São Paulo, escritora e fundadora da ONG Amigas do Parto,  e residindo atualmente nos Estados Unidos, Adriana concedeu a seguinte entrevista. Confira:

Desde que passou a defender a humanização do parto no Brasil até hoje, o que você acha que mudou na cabeça das mulheres?
Adriana – Comecei a me envolver com a questão da humanização no início de 2001. Falava-se pouquíssmo em humanização a não ser em poucos círculos de profissionais da saúde. Hoje há diversos artigos e matérias na mída sobre o tema. Com certeza alguma coisa mudou, pois surgiu mais uma opção para as grávidas. Essa opção deve servir, entretanto, para questionar o sistema obstétrico, a forma como os partos e as mulheres são atendidos, e como seus bebês são tratados. Ainda estamos longe de implementar uma real humanização, a caminhada só começou.

Você afirma que o parto é um rito de passagem, um momento em que a mulher pode experimentar o sagrado. Porque tantas mulheres têm medo da dor que isso pode causar?
Adriana – Às vezes me pergunto se as mulheres já não sofrem demais a ponto de não aguentarem mais uma dor em suas vidas…. Há vários tipos de dor: a dor da emoção reprimida, a dor da alma oprimida, a dor da frustração, da ansiedade, do desejo irrealizável, do amor inalcançável… A dor do parto não é  a pior entre elas; é uma dor que só está presente durante as contrações, passa completamente entre uma e outra e some logo após o parto. Todo ato heróico inclui alguma dificuldade e dor. As mulheres não estão recebendo informações qualificadas sobre o que é efetivamente a dor do parto e sobre métodos não farmacológicos para o alívio da dor. Soma-se a fome com a vontade de comer e  chega-se à cesárea, com a perda total da sensibilidade na parte inferior do corpo no momento do nascimento.

Em suas viagens participando de congressos sobre a humanização do parto, ainda se discute que inexiste acesso às informações sobre quais são os tipos de parto e quem deve decidir como fazê-lo?
Adriana – Claro, esta é uma realidade generalizada. Não há, em 99% dos casos, discussão aberta e franca sobre como se pode dar à luz, em quais posições, e quais são as vantagens de cada uma. Às mulheres ainda não é concedido o privilégio da escolha informada e consciente.

Qual é papel do homem “grávido”? Ele deve participar da tomada de decisão sobre o parto humanizado? O que se espera dele?
Adriana – Espera-se que o homem seja parceiro de sua companheira grávida. Isso quer dizer que ele caminhe junto com ela e abra caminho para que ela seja ativa durante a gestação e o parto. Um parto humanizado é aquele no qual a mulher é ativa e consciente e o pai de seu filho também pode ser ativo e consciente. Naturalmente a mulher confia nela, e ele deve ser o primeiro a apoiá-la, acreditando em sua capacidade de parir e em sua intuição.

Existe algum país onde o parto humanizado seja a regra e não a exceção?
Adriana – Existem países na Europa nos quais o parto é realizado em condições ideias ou próximas do ideal, são eles a Holanda e os demais países da Europa do norte. Parteiras profissionais fazem o pré-natal e realizam os partos no domicílio da parturiente ou em casas de parto. Dão acompanhamento no pós-parto também. Esses países têm um índice de morbo-mortalidade materno-infantil muito baixo, o que desmente todos os mitos e tabus que rondam o parto no Brasil e que levam tantas mulheres à mesa de cirurgia, ora para abrir suas barrigas e extrair assim seus bebês, ora para abrir suas pernas e cortar desnecessariamente suas vulvas…  Curiosamente, países como a Holanda, por exemplo, têm uma tradição centenária de livre pensamento, cidadania e direitos civis e de gênero. Será uma coincidência?

Para saber mais: http://www.amigasdoparto.org.br/2007/index.php?option=com_content&task=view&id=1093&Itemid=228

Caros, não deu para ler e não compartilhar. O melhor do conhecimento é que podemos ter acesso a textos que não falam a nossa língua, mas traduzem exatamente nossa consciência. Abaixo a versão livre de Susanna Tamaro, célebre escritora italiana, tirado do Corriere della Sera de hoje. Dedico à minha filha Marília e à Nina. E também à Pão, à Maíra, às minhas eternas sobrinhas, agora jovens senhoras,  e a todas as meninas que adotei como filhas e que me adotaram como mãe; às jovens que não conheço, mas que desejo que possam ser mais felizes.

O feminismo não liberou as mulheres

“Pertenço à geração que combateu, nos anos da primeira juventude, a batalha para a liberação sexual e para a legalização do aborto. A geração que nos chás vespertinos, entre o perfume de patchouli e um cigarro, aprendia o método Karman, isto é, como fazer um aborto doméstico com a ajuda de um grupo de amigas.

Era uma geração que organizava voos coletivos a Londres para acompanhar mulheres que queriam abortar, às vezes num estado avançado de gravidez que mais parecia um parto prematuro. Para quem não vivenciou esse tipo de coisa é difícil  entender a excitação, exaltação, o frenesi daqueles anos. A sensação era  como se ver na proa de um navio olhando para um novo horizonte, aberto e iluminado pelo sol do progresso, prenúncio de toda felicidade. Às nossas costas, tínhamos a obscuridade, os tempos da repressão da mulher objeto, manipulada pelos homens e pelos seus desejos, e oprimida pelo poder da igreja que, segundo o slogan da época, via nela somente um instrumento de reprodução. Eram os anos 1970.

Pessoalmente, nunca fui uma ativista, mas minhas amigas mais queridas o eram e, embora entendesse uas razões, não posso negar que sempre me senti incomodada com essa prática que, naqueles anos, tinha se transformado numa espécie de contraceptivo moderno. De alguma forma me sentia tocada pela leveza como tudo acontecia, não porque fosse religiosa (eu não o era), ou por causa de um moralismo imposto do alto, mas simplesmente porque me parecia que a manifestação da vida fosse um fato tão extraordinariamente complexo e misterioso, que merecia, no mínimo, um pouco de temor e respeito.

Como as coisas evoluíram nos últimos quarenta anos? Tenho a impressão de que, ainda agora, o discurso sobre a vida tenha permanecido confinado entre duas barreiras ideológicas contrapostas. A defesa da vida parece ser um apanágio somente da Igreja, dos bispos, daquela parte considerada mais reacionária e retrógrada da sociedade, que continua a querer influenciar a livre escolha dos cidadãos.

Os que são pelo progresso, por outro lado, ainda que reconhecendo a dramaticidade do evento, não podem fazer outra coisa senão agir em contraposição a essa contínua ingerência obscurantista. Naturalmente, um País civilizado deve ter uma lei sobre o aborto, mas essa necessária tutela das mulheres, em um momento de fragilidade, nunca é uma vitória para ninguém.

Os dados sobre a interrupção voluntária da gravidez mostram que os principais grupos que procuram os hospitais são as mulheres estrangeiras, as adolescentes e as jovens. As razões das mulheres estrangeiras são infelizmente fácies de entender: trata-se de precariedade, medo, incerteza – razões que influenciam muito (e mesmo as mães de família italianas) a renunciar a um filho. E com essas razões uma boa política de defesa da vida poderia naturalmente concordar.

Mas e as jovens italianas? Essas filhas e netas das feministas, porque se encontram nessas condições? São meninas nascidas nos anos 1990, crescidas num mundo permissivo, onde não faltou a possibilidade de informação. É possível que não saibam como nascem as crianças? É possível que não tenham percebido que os profiláticos estão à venda em toda parte, incluídos os distribuidores automáticos noturnos? Por quais razões aceitam relações não seguras?

Elas têm consciência da extraordinária ferida para a qual vão de encontro, ou talvez pensam que, no fundo, o aborto seja um meio anticoncepcional, como qualquer outro? Se têm sorte, ok; se não, engravidam e, paciência… Não será nada além de uma chateação a mais. Alguém, por acaso, explicou a elas o que é a vida, o respeito pelo nosso corpo? Alguém disse a elas que é possível dizer não, que a felicidade não passa necessariamente através de todas as possíveis relações sexuais? Quem conhece o mundo dos adolescentes de hoje sabe que a promiscuidade é uma realidade difusa.

Se se gostam, passam a noite juntos e, daqui a uma semana, agradará um outro. Os corpos são intercambiáveis, assim como os prazeres. Como quando eram crianças colecionavam cada novo modelo de Barbie, agora do mesmo modo, colecionam, estimuladas pelo vazio que as circunda, parceiros diferentes. Naturalmente nem todas as mocinhas são assim, por sorte, mas não se pode negar que esse seja um fenômeno em crescimento constante.

Serão mais felizes, me pergunto, serão mais livres as jovens de hoje em relação a 40 anos atrás? Não me parece. As grandes batalhas para a liberação feminina parecem que infelizmente levaram as mulheres a ser apenas objetos de uma forma diferente. Não é preciso ser sociólogo nem fino pensador para entender que em nossos dias todas as mensagens relacionadas às meninas se concentram exclusivamente em seu seus corpos, e sobre a forma como podem se oferecer aos outros.

Vemos meninas de 5 anos vestidas como mocinhas e já aos 8 anos vivem num estado de semi-anorexia, aterrorizadas com o fato de não comer algo que possa ser um atentado à sua linha. É preciso ser magra, consciente de que a coisa que temos a oferecer, o que nos fará felizes ou infelizes, é somente o nosso corpo.

O florescer da cirurgia plástica não é nada além da triste confirmação dessa realidade. Parece que muitas jovens, para o seu aniversário de 18 anos, pedem retoques estéticos como presente. Um seio mais volumoso, um nariz menos proeminente, lábios mais sensuais, consertos nas orelhas de abano. O resultado dessa cirurgia de massa está já sob os nossos olhos – estamos circundados de Barbies perfeitas, todas iguais, e todas perfeitamente satisfeitas dessa igualdade, todas aparentemente disponíveis para os desejos masculinos. Parece que ninguém nunca disse a essas adolescentes que a coisa mais importante não pode ser vista com os olhos e que o amor não nasce da medida do corpo, mas de algo difícil de exprimir e que diz respeito sobretudo ao olhar.

Passamos da falsa imagem da mulher-anjo, que se realiza somente com a maternidade, à mística da promiscuidade, que estimula as meninas a acreditar que a sedução e a oferta do próprio corpo sejam as únicas vias para a realização. Quanto mais você faz sexo, mais esperta é, e mais admirada pelo grupo.

Diante da omissão da família, da igreja, da escola, a realidade educativa é dominada pela mídia e a mídia possui apenas uma lei: homologar. Mas esse lado aparentemente assim compreensível, assim frívolo – querer ser bonita ou mesmo querer mitigar os sinais do tempo – o que esconde? O corpo é a expressão da nossa unicidade e é a história das gerações das quais somos provenientes.

Aquele nariz assim importante, os dentes tortos vem de um bisavô, de uma trisavó, pessoas que tinham uma origem, uma história que, com sua origem e história, contribuíram para construir a nossa. Tornar anônimo um semblante quer dizer cancelar a ideia de que ser o ser humano é uma criatura que se exprime no tempo e que o sentido da vida é ter consciência disso. A pessoa é a unicidade de sua aparência.

A homologação imposta pela sociedade consumista – e infelizmente, mais vulgarmente machista – cancelou um pacto entre as gerações, aquela ligação que desde sempre permitiu à sociedade humana definir-se como tal. Nós somos a soma de todos os nossos antepassados, mas ao mesmo tempo somos algo de extraordinariamente novo e irrepetível. Apagar um semblante quer dizer apagar a memória. Cancelar a memória quer dizer cancelar a complexidade do ser humano.

Consumir os corpos, humilhar a força criativa da vida por causa da superficialidade e da inexperiência que dizer ser estranho à ideia da existência como caminho, quer dizer viver em um eterno presente, constantemente refém do domínio dos próprios caprichos e do desejo dos outros. Sem o sentido de tempo, não temos nem passado, nem futuro. O único horizonte que se coloca diante dos nossos olhos é aquele de um espelho no qual nos refletimos infinitas vezes, como nos labirintos de um parque de diversões.

Prosseguimos sem sentido de um lado, e de outro, vendo sempre e apenas nós mesmos, mais magros, mais gordos, mais altos, mais baixos. No início, esse giro nos faz rir, mas com o tempo, nasce a angústia. Onde estará a saída, a quem pedir ajuda? Batemos no espelho e ninguém nos responde. Somos mil, mas estamos sós”.

Referência: Il femminismo non ha liberato le donne

78464424Duas notícias sobre a saúde das mulheres me chamaram a atenção nesta semana. Isso porque elas confirmam cientificamente que o feminino, subjugado por um mundo excessivamente patriarcal e masculino, está mesmo evoluindo e, realmente, pode nos levar a um maior equilíbrio.

A primeira das notícias é sobre o exame Papa-Nicolau. Estudos realizados na Holanda e Dinamarca, publicados pelo British Medical Journal, revelaram que o teste deve ser feito por todas as mulheres acima dos 50 anos, mesmo que até essa idade seus exames tenham tido resultado negativo.

Conforme os pesquisadores, o risco de câncer de útero não desaparece após essa idade, mas muitas mulheres acabam diminuindo a regularidade de suas consultas. Para afastar qualquer possibilidade de negligência, é preciso lembrar às jovens senhoras de que o carcinoma do colo de útero é uma doença ligada à atividade sexual. A advertência dos pesquisadores é que, diferentemente do que acontecia no passado, se uma mulher é sexualmente ativa depois dos 50 anos, corre o mesmo risco que as mulheres mais jovens.

Essa conclusão vem de encontro com uma conversa que tive com  um grupo de mulheres que, tendo atravessado a menopausa, tinham vida sexual  regular e satisfatória. E mais, talvez, a menopausa, no passado, tenha sido uma boa desculpa para se livrar de parceiros não muito agradáveis, aos quais a mulher se mantinha ligada por várias questões, menos por amor…

Segunda notícia: a Organização Não Governamental inglesa, The Cochrane Collaboration, que  divulga informações e estudos científicos sobre saúde, acaba de publicar os resultados de uma pesquisa sobre o trabalho de parto. Segundo os pesquisadores, durante essa fase, é aconselhável que as mães não fiquem deitadas. A posição na vertical ou de joelhos diminui esse trabalho em pelo menos uma hora, e reduz em 17% a necessidade de intervenções médicas.

O estudo confirma ainda que “a posição ereta favorece a descida do bebê por causa da gravidade, promovendo uma dilatação mais natural”. Além disso, “as grandes veias situadas abaixo do útero não são comprimidas, situação que, além de favorecer o fluxo sanguíneo paro o bebê, ainda melhora a eficácia das dilatações”. O conjunto desses elementos reduz a possibilidade de complicações para o bebê e garante para a mãe um efeito analgésico, diminuindo a necessidade do chamado corte de alívio (episiotomia) e o uso da oxitocina (estimulante das contrações). Apesar dessas conclusões, quase sempre as mulheres ficam deitadas. Entretanto, a posição facilita apenas as manobras médicas e obstétricas.

Que bom que agora sabemos disso e podemos argumentar com dados científicos e escolher o que é melhor para nós!

Conheça a Cochrane Collaboration: http://www.cochrane.org/

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