Esta manhã, conferindo os posts do Facebook, vejo a chamada do Istituto Europeo di Oncologia (IEO) para um artigo numa das revistas que mais aprecio na Itália. Trata-se de um semanário feminino de 302 páginas do jornal La Repubblica, denominado La Repubblica D (delle Donne [das mulheres]). O nome, por si, já é bastante simpático. O conteúdo, de peso. É lá que li a matéria intitulada Il cancro é sentimentale [O câncer é sentimental].

Após esses anos de jornalismo especializado em saúde e medicina, eu já conversei com muitos oncologistas. Um deles me disse textualmente, enquanto eu tentava explicar-lhe do que se tratava a medicina integrativa: “eu sou muito aberto às práticas complementares, mas antes de tudo sou um cientista. O câncer está relacionado a uma modificação genética. E custo a crer que ele seja influenciado por sentimentos.” Tentei argumentar com postura de piquete. Sem sucesso.

Mas hoje fui apresentada a Christian Boukaram, oncologista canadense e autor do livro Le pouvoir  anticancer des emotions [O poder anticâncer das emoções, sem trad. para o português], que não teve prurido em declarar que quando iniciou seu trabalho, ele tinha a mesma opinião de meu interlocutor: “não existe nenhuma relação entre mente e saúde. É uma questão de DNA e basta!” Tudo isso para, depois, concluir – “Eu estava errado. Falta uma peça nesse quebra cabeça e ela diz respeito à esfera psíquica.” Ah, então, pensamentos, emoções, tipo de personalidade, estilo de vida e ego são mesmo importantes no aparecimento e na gravidade da doença? Sei…

A tese de Boukaram tem sido objeto de inúmeras pesquisas. Testes em animais com tumores  medicados com adrenalina, o hormônio do estresse, aumentaram em 30 vezes a agressividade da doença e o aparecimento de metástase. E como adoro estudos que são publicados no Pubmed, conferi as conclusões de uma investigação de Stanford (EUA), sob a direção do psiquiatra David Spiegel – veiculada na revista Psychoncology: Mind matters in cancer survival [A mente é relevante na sobrevivência do câncer].

A experiência clínica da mastologista do IEO, Giovanna Gatti, engrossa o caldo: a maioria das mulheres afetadas por um câncer de mama, e não há explicação para isso, nos meses anteriores ao diagnóstico relatam ter passado por um trauma, um grande dissabor. “A consequência são estados depressivos mais ou menos reconhecidos.”

 Isso seria apenas uma coincidência?

Outro oncologista do IEO, Aron Goldhirsch confirma esse quadro, mas entende ser impossível estabelecer este nexo causal. “O câncer e a depressão são duas doenças muito difusas.”, fala.

Por instantes achei que estava lendo uma frase do físico Amit Goswami – “quando a pessoa sabe que tem um tumor, a consciência de ter uma doença é um dos piores gatilhos para reconquistar a saúde”, declarou Gatti. O físico indiano radicado nos EUA sugere que os médicos do futuro dirão: “Agora que você tem a doença pode dar a ela um significado positivo em vez de negativo… A doença é uma oportunidade de autoconhecimento. Sua mente, energias vitais e representações físicas poderão, finalmente, atuar em perfeita harmonia, levando-o à cura”.

Para Boukaram “O câncer não é uma falência, e nem mesmo a morte o é. Trata-se de uma dificuldade, e pode ser uma ocasião para trabalhar a reconexão com o seu centro”. “A influência da mente é difícil de ser mensurada cientificamente, e porque falamos de uma coisa subjetiva. Mas encontrar um sentido para a própria vida e para a doença ajuda muitíssimo.”

Apesar do ceticismo, Goldhirsch declara, “As terapias mais avançadas e eficazes são só uma parte do tratamento. A chamada “compliance”, isto é, a adesão e colaboração do paciente são necessárias e pressupõem a presença de emoções positivas e de uma razão para viver”.

Ora, o que é isso senão um convite ao autocuidado, um dos pilares da medicina integrativa?

Num evento sobre o avanço dos pacientes geriátricos no Brasil, o geriatra Roberto Miranda, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) contou que as faculdades médicas já estão entendendo esse tipo de abordagem e estão se movimentando para que os alunos introjetem o significado de uma medicina preventiva e multidisciplinar. “Meditação, ioga, homeopatia reforçam o sistema imunitário e são utilizados em vários centros”, relatam todos os especialistas.

Do outro lado dos debates, ficamos nós. Completamente vulneráveis.

Cientes disso, busquemos colocar em prática a tal da compliance, aderindo, a nosso favor, à busca de sentido, ou mais sentidos, para nos tornarmos protagonistas equilibrados desta tão preciosa vida.