Ontem, na mesa de um restaurante vegetariano com duas pessoas queridas, falávamos da nova paternidade. Essa que vemos crescer todos os dias ao nosso lado. São novos homens que, sem nunca terem vivido uma gestação ou o estado de graça de sentir os primeiros movimentos do bebê em seu corpo, e nem a glória de dar a luz, se transformaram em verdadeiros receptáculos de oxitocina ambulantes.

Geralmente eles são pais separados movidos pelo intenso senso de dever em relação a seus filhos. E essa parece ser a resposta natural à distância física imposta pela decisão do divórcio, motivo de lágrimas e preocupações, além do sentimento de ciúmes diante de um novo “pássaro” à espreita do primeiro ninho. Isso faz deles mais femininos no que diz respeito a algo muito conhecido pelas mulheres. Assim como para nós é imprescindível construir um ninho e mantê-lo quente o bastante para continuar a gerar a vida (em todos os níveis), eles passam a construir os seus para acolher os ovos que permaneceram sob a guarda de suas antigas fêmeas. Aí eles vão cultivando a habilidade de nutrir, acolher, estar presentes como verdadeiros guardiões de ovos. O curioso é que esse cuidado, muitas vezes, beira à obsessão, pois é comum que seja uma maneira de compensar o que eles julgam ser o ponto fraco das mães dessas crianças – elas foram ou são pouco maternais. Então, eles assumem quase todas as obrigações que poderiam ser saudavelmente partilhadas… os ovos não podem quebrar!

É nessa espécie de vigília continuada que eles sonham com o futuro desses filhos, e se regojizam com a obra que foram capazes de gerar e, agora, cuidar. Um de meus mais queridos amigos, hoje sobre o degrau de seus 60 anos, foi personagem de uma grande reportagem da TV Globo. Separado de sua mulher, ele teria batido o record de presença na vida de sua amada filha. Quando a reportagem foi ao ar, recebi um longo telefonema – isso sim é que é ser reconhecido publicamente, ele dizia!

Mas apesar da ciência ter reconhecido que, ainda nos primeiros meses da gestação de suas parceiras, esses homens já passam por transformações hormonais – níveis de testosterona e cortisol – preciso aqui registrar que a paternidade, assim como a maternidade vai muito mais além de sermos capazes de trazer ao mundo uma nova vida, e por meio dela tentar contribuir para que nele habite alguma pessoa de valor. Esse é um de nossos principais deveres morais como pais.

É que, com o correr dos anos, essas criaturas passam a nos surpreender. E nossas certezas vão esmaecendo na mesma medida em que percebemos que temos em casa mestres que nos escolheram como discípulos, sem que tivéssemos consciência disso. E é assim que vamos amadurecendo enquanto eles florescem em primaveras constantes nos limites lineares de nossos ninhos.

A beleza desse florescer é tão arrebatadora que é impossível não parar para reverenciá-la.

Através de meus filhos aprendo todos os dias o que é amar, partilhar. Por meio deles é que vi que não tinha que ser um rocha sólida para que eles pudessem se apoiar. Eu apenas tinha que ser quem eu sou: humana, vivendo os altos e baixos de minha própria existência. E foi com eles que aprendi a chorar. Um dia, uma pequena menina loira, de olhinhos azuis como o céu me disse – mas mamãe, você nunca chora? Quem era essa terapeutazinha de 7 anos capaz de tocar meu coração absoluto e arrogante me dizendo que – okay – você, também, pode chorar (piar)!

E tem sido assim, todos os dias dessa longa caminhada em que, muitas vezes, já os vejo querendo construir seus próprios ninhos, mas carregam no bico gravetos a mais, pois é preciso saber que estarei bem.  Claro, ainda não precisam me dar comida na boca!!!!!!!! Mas é na mesa de nossas refeições que falamos sem medo sobre nossos medos e anseios. Enquanto me maquio diante do espelho da longa pia dupla do banheiro, vejo refletida a imagem de uma jovem que lerá muitos mais livros do que eu, e que já me mostra que será capaz de cuidar de si muito bem em qualquer árvore do mundo. É da pequena boca rosada por um gloss Dior, que agora saem as palavras que acalmam a minha alma sempre tão inquieta… é ela quem me pede calma, coloca suavemente meus pés no chão. É ela quem, diante do meu pesar me diz – vamos tomar um chazinho? Ou na minha alegria imensa, jamais esquece de dizer – você merece!

É assim que o amor transborda. E dirigindo para o trabalho, me emociono com a ideia de que eu poderia morrer se não tivesse esse tipo de amor na vida. E, assim, ligo apressadamente para o celular dela. Ela não responde. Quero dizer-lhe que sou muito grata por poder ser sua mãe. Deixo um recado. No final do dia nos encontramos. Ela então me diz – “só agora vi seu recado. Deixei o celular em casa. Vem aqui. Eu me aproximo e ela me abraça em silêncio. Depois, olhando nos meus olhos me diz: sou eu quem tenho uma sorte imensa de ter uma mãe como você!

Como o sol já se escondera há horas, abri minhas grandes asas para proteger esse amor da brisa fresca da noite. Não seria diferente na casa de tantos pais solteiros nesta sexta-feira, dia em que seus passarinhos ali se recolhem.