Ainda me lembro do dia em que recebi a notícia de que minha mãe tinha sido diagnosticada com um câncer de mama. Eu acabara de chegar do trabalho,  e respondi ao telefone no corredor que levava aos quartos do meu apartamento. Não recordo do teor da conversa, apenas resgistrei que senti muito medo. E tanto, que deslizei as costas na parede até encostar os glúteos no chão. Liguei imediatamente para meu marido contanto a novidade e, depois dessa cena, não lembro de mais nada. O “take” seguinte tem como cenário a antesala de um centro cirúrgico. Naquela época eu não era esse doce de pessoa que sou hoje e estava convencida de que podia fazer todas as coisas do meu jeito… Minha irmã estava ali sentada do meu lado, paralisada.

O médico, um oriental, entrou da sala dizendo que tinham retirado tecidos do seio dela, iam fazer uma biópsia e, talvez, outra cirurgia seria feita na sequência, caso constatassem algo mais grave. Eu aproveitei a notícia para desabar toda a raiva que sentia. – Porque não fizeram a biópsia na hora? Outra cirurgia em 24 horas? Vocês sabem o que estão fazendo? Ela é alérgica a medicamentos e, quem sabe o que pode acontecer com uma nova dose de anéstesicos num período tão curto de tempo? Claro, a raiva não era dele. Na verdade eu sentia muito medo. E me ver impotente diante da realidade me deixava furiosa.

Mas o médico sabia o que estava fazendo, e eu estava na tribuna, feito uma “advogada americana” querendo acusar-lhe de mala praxis diante de um tribunal lotado de mulheres. Afinal, quem estava na sua mesa de operação era minha mãe! Apesar disso, o médico não me poupou (e como poderia fazê-lo?). E foi assim que me explicou, com aquele jeito de samurai, que o que estava em jogo ali era muito mais importante do que a minha honra de causídica ou preocupações com anestésicos. Encerrei meu discurso ácido com um – A bem da verdade, data venia,  o senhor está falando (o senhor sabe com quem está falando?) nesse tom porque quem está na sala de recuperação não é a senhora sua, MAS A MINHA MÃE! Nova cena:  o dia seguinte. Resultado da biópsia. Outra cirurgia foi feita. Era um carcinoma in sito, um tipo menos grave de câncer de mama.

Há quase 20 anos, o que salvou minha mãe foram os EXAMES PREVENTIVOS. Como o câncer foi detectado precocemente, não houve necessidade de uma mastectomia total, mas parcial. E, melhor ainda, ela se livrou da quimioterapia. No seu caso, sessões repetidas de radio (não menos traumáticas) foram suficientes, além do remédio que teve que tomar por anos e os controles rigorosamente repetidos.

No pós operatório, quando ela ainda estava sob meus cuidados, eu lhe disse – eu só posso estar aqui como uma filha, dama de companhia ou uma enfermeira, mas quem precisa reagir e superar toda essa experiência é você! Depois de muitos anos ela me disse que essas palavras foram duras demais… Mas eu não entendia que assim eram. E não as entendo assim até hoje. Por mais que seja desejável e necessário o apoio de quem amamos, somos nós quem precisamos dar o primeiro passo em direção àquilo que necessitamos. E ela, de alguma maneira, conseguiu fazê-lo, apesar dos poucos recursos emocionais que lhe restaram em seu percurso de vida tão dramático. Mas pensando bem, quem é que tem culhões suficientes para superar tudo isso numa boa?  É preciso ter coragem, muita coragem para enfrentar nosso maior inimigo, que não é a doença, como tantos históricos de superação nos adverte. Nosso maior inimigo somos nós mesmos.

Ao abrir hoje o NYTimes, vi a foto de muitas pessoas que entenderam exatamente o que isso significa. E é por isso que desejei publicar aqui a foto de tantas outras pessoas que superaram o câncer. De um jeito ou de outro. O objetivo é mostrar que estamos todos no mesmo barco. Eu ainda tenho medo de fazer os testes preventivos, mas sei que preciso fazê-los. Ao olhar para essas fotos, lembrei que a vida, apesar das tantas patologias, é maravilhosa. E cada segundo dela deve mesmo ser celebrado.

Então, em nome das estimadass 12 milhões de pessoas que superaram dias de câncer, só nos Estados Unidos, convido-os a enviarem suas fotos para que eu possa publicá-las aqui. Basta enviar uma mensagem neste blog com o endereço email para que eu retorne solicitando a foto.

Começo eu, com a foto de minha amada mãe, a quem dedico este post!

E que todos tenham vida em abundância! Sempre!