Já lhes aconteceu de pensar em algo e, de repente, encontrar todas as informações necessárias para a compreensão desse pensamento, antes sem nenhum fundamento teórico? Pois é. Lá no início do ano 2000 eu estava envolvida na produção editorial de uma coleção sobre folclore. E me veio à cabeça como teria se perdido a medicina dos povos indígenas brasileiros. Negociando direitos de um livro de um famoso sociólogo e folclorista brasileiro, Alceu Maynard Araújo, encontrei na biblioteca de um de seus herdeiros um livro chamado Medicina Rústica, do mesmo autor.

Mas o que seria medicina rústica? Folheei as primeiras páginas. Segundo Araújo, trata-se do “resultado de uma série de aculturações da medicina popular de Portugal, indígena e negra”. A leitura da obra, então, trouxe toda uma explicação histórica sobre quais influências poderíamos encontrar nessas ricas culturas medicinais. Antecedentes pré ibéricos, lusos, ameríndios e africanos. Mas, claro, não se poderia esquecer que, nesta última incorporam-se as usanças da África branca: a dos mouros.

É interessante perceber que no percurso histórico da medicina, desde o homem primitivo, o sobrenatural sempre esteve presente. Aqui, nessa mescla cultural, pajés indígenas, feiticeiros negros e bruxos europeus se influenciaram reciprocamente. O folclorista explica que, em razão dessa interação, para nós, brasileiros, é difícil saber o que pertence puramente a cada um desses representantes.

O que permaneceu na cultura médica popular no Brasil foi o curandeiro, o raizeiro, o curador de cobras, os benzedeiros. Numa metrópole como São Paulo ainda é possível encontrar esses personagens. Mas é fascinante imaginar de onde vieram as indicações desses médicos naturais para uma ferida, por exemplo: chupá-la, soprá-la! Além disso, o que justificaria o uso do assopro e do fumigar para outros males? Claro, poderíamos dizer que essas são práticas que funcionam como placebo, mas estão completamente dissociadas dos conceitos da medicina clássica, baseada na observação, análise, dedução e síntese.

Mas no mundo da medicina rústica, ainda mantém-se intacta a convicção primitiva de que a morte e a doença são resultado da manifestação de forças místicas, mágicas, da punição dos deuses ou substâncias estranhas que se introduzem no corpo humano, e que podem levar à morte ou a doença.

Prossigo na leitura e observo que, à época da coleta de dados de Araújo, portanto falamos da década de 1960, a população pesquisada à margem do Rio São Francisco, adotava o toré (religião indígena) como prática religiosa e também medicina mágica. Claro, para quem não tem posses para ter um bom médico, esse tipo de medicina seria a opção.

Assim define o especialista a medicina rústica: “conjunto de técnicas, de fórmulas, de remédios, de práticas, de gestos que o morador da região estudada lança mão para o restabelecimento da saúde ou prevenção de doenças”. A medicina mágica (benzedura, simpatias, profilaxia mágica, catolicismo brasileiro); a medicina religiosa (candomblé); a medicina empírica (fitoterapia, excretoterapia, dieta, balneoterapia, sangria, pirótica e a pingaterapia), são espécies do gênero medicina rústica.

Mas onde eram os consultórios desses médicos? As casas das cidades, da roça e as feiras livres. O diagnóstico era feito geralmente por meio de perguntas que buscam saber como anda o funcionamento dos intestinos, bem como investigam a cor da língua e da urina, se a barriga está empedrada, se há apetite ou não – entre outras coisas. Já o curandeiro e o benzedor seriam os psicólogos que desejam saber tudo. “Curandeiro não cura apenas mazelas do corpo, as da alma também”, conclui o autor.

Passado meio século, parece que os avanços da medicina e da tecnologia ainda não mudaram totalmente esse tipo de prática em algumas regiões do Brasil. A pergunta que ainda me faço é – como se passariam esses conhecimentos? Provavelmente são transmitidos por via oral. Mas há algo de legítimo e apropriado nessas práticas que podem contribuir para o estado de equilíbrio físico, mental e social das pessoas? Não sei. O que se sabe é que, para um grande número de pessoas, essa é a única forma de tratar e prevenir doenças.