Toda celebridade conhece a dor e a delícia de ser famoso. Quando este alguém é Reynaldo Gianecchini, a coisa pode ser pior. Jovem, bonito, bem sucedido, ele foi alçado ao patamar dos pobres mortais para quem a vida acontece sem pedir licença. Ter um diagnóstico de linfoma, um câncer onde células normais se transformam em células malignas e passam a crescer desordenadamente por todo o corpo, é incurável, mas o tratamento (dependendo do tipo de linfoma) pode levar ao controle dos sintomas e, portanto, da doença por vários anos, não é fácil para ninguém.

E o que um paciente com esse diagnóstico deseja além de encontrar uma esperança de cura? Penso que se espera poder ter o apoio dos parentes, amigos, pessoas capazes de se solidarizar com o mistério que representa a doença na vida das pessoas. Considerando a questão a partir da medicina integrativa, esta seria a oportunidade de refletir o que é possível ser feito para mudar as formas de viver, já que a doença está aí – e portanto, deu-se espaço para que ela se instalasse. A busca pela espiritualidade é o pretexto para refletir sobre o sentido da vida e da morte. E ela tem sido grande aliada da medicina, apesar do ceticismo reinante.

O fato é que os cientistas já comprovaram que quanto maior o nível de religiosidade, menor a atividade do córtex cingular anterior, vinculado ao controle inconsciente do perigo e dos problemas. O achado foi batizado de Marcador Neural de Convicções Religiosas. Tendo sido aluna do médico Mario Peres, pesquisador sênior do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa do Hospital Albert Einstein, pude aprender que existem muitos estudos epidemiológicos que evidenciam os benefícios da fé, da espiritualidade ou religiosidade para doenças mentais, menor prevalência de depressão, abuso de drogas e suicídio, melhor qualidade de vida, maior capacidade de lidar com a doença, menor mortalidade e tempo de internação, e ainda melhora da função imunológica.

Chamem isso de autoengano, placebo, o que quiserem. Mas esses resultados não são diferentes dos encontrados um dia pelo psiquiatra e neurologista Viktor Frankl, e que ele relata no famoso livro – Um sentido para a vida: “a sobrevivência depende da capacidade de orientar a própria vida em direção a um ‘para que coisa’ ou um ‘para quem’. Em outros termos, a existência depende da capacidade de transcender o próprio eu… o ser humano deve sempre estar endereçado, deve sempre apontar para qualquer coisa ou qualquer um diverso dele próprio, ou seja, para um sentido a realizar ou para outro ser humano a encontrar, para uma causa à qual consagrar-se ou para uma pessoa a quem amar. Somente na medida em que consegue viver esta autotranscendência da existência humana, alguém é autenticamente homem e autenticamente si próprio…”.

Apoiar-se na espiritualidade pode, então, ser mesmo um caminho ao esquecimento de si mesmo para alcançar a cura ou, ao menos, suportar a dor da completa impotência diante da magnanimidade da natureza. O que me deixa perplexa é que, para quem é famoso, todo esse processo de autoconhecimento, autotranscendência é objeto de notícia de revista de grande circulação nacional. Isso significa que é impossível vivenciar essa experiência com a privacidade desejável. Durante muito tempo, um de nossos presidentes, foi a inspiração para a caricatura do mau humor e do desejo de distanciar-se do povo e da mídia por causa de sua declaração – Quero que me esqueçam!

Olhando com a distância do tempo, acho que essa também é a vontade de Gianecchini, ou de qualquer outra pessoa na mesma circunstância. Tudo o que ele precisa agora é de tempo, silêncio e cuidados. E que esse caminho lhe traga o bem maior – um sentido para a sua própria doença e sua vida.

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