Há mais de dez anos, conheci um jovem educado, belo e gentil. Nossa simpatia foi recíproca e imediata. É que ele é nascido em Salvador da Bahia, uma das minhas cidades preferidas neste mundo. E ouvir seu sotaque trouxe e me traz a deliciosa lembrança do por do sol no mar, dos cheiros e temperos do Mercado Modelo, do feijão verde vendido por litro e, claro, das poéticas canções de pescadores de Caymmi.

Após uma tentativa de se instalar na Europa, Eduardo Santiago veio trabalhar em meu condomínio. Nunca aceitei bem essa ideia, pois acreditava que ele merecia um trabalho onde pudesse, efetivamente, utilizar melhor seus dons. Mas o fato é que, tendo estado por perto, pude observar seu desenvolvimento pessoal. Ao longo desses anos, ele se tornou um professor de Educação Física, e ainda comprou sua casa própria! Dias atrás conversávamos sobre seu Trabalho de Conclusão de Curso, e ele me contou que escolhera o Autismo como tema de sua pesquisa.

Essa patologia acomete mais meninos que meninas, entre o primeiro e o terceiro ano de vida, e se caracteriza pela incapacidade de desenvolvimento social, comportamentos compulsivo e ritualista. Não se trata de um retardo mental, mas alguns casos pode manifestar esse sintoma. As causas ainda são desconhecidas, mas pesquisas recentes indicam que fatores genético/etiológicos estão envolvidos, e alterações neurobiológicas são identificadas. Mas esses são estudos preliminares. Inexiste cura para esse mal, porém o controle da doença é possível por meio de tratamento medicamentoso e terapias que estimulam o aprendizado de habilidades para aumentar a qualidade de vida.

Assim, a proposta de Santiago era observar a possibilidade de integrar essas crianças às aulas de educação física. “Embora algumas delas apresentem sério retardo no desenvolvimento da linguagem, outras têm inteligência e fala intactas”, explicou. “O professor, ao assumir o compromisso de ser docente, deve ter consciência de que pode perder oportunidades de ensino, caso se perca ou desconsidere esses contextos”, completou.

Para o novo professor, a Educação Física, como meio pedagógico, pode trazer contribuições significativas à vida das pessoas com Autismo, porque seus conteúdos se dirigem a todo e qualquer corpo, independentemente de seu estado cognitivo. “O que se diferencia são apenas as estratégias metodológicas adotadas”, diz.

“Devemos romper com o tratamento tradicional dos conteúdos, que favorece os alunos que já têm aptidões, e buscar o desenvolvimento da autonomia, da cooperação, da participação social, mesmo entre as crianças autistas. A proposta é garantir a todos a possibilidade de vivenciar jogos, esportes, danças, lutas e ginástica na construção do exercício crítico da cidadania”, fala Santiago.

Na opinião do jovem especialista, a partir do conhecimento da individualidade de cada aluno, suas habilidades e limitações, é possível aplicar exercícios adaptados. “O resultado são aulas produtivas e prazerosas”, conclui.

Meu caro Santiago talvez não saiba, mas sua atitude está repetindo um modelo idealizado por um dos mais respeitados filósofos da Roma antiga: Sêneca. Para esse pensador, a educação ideal deve educar para a vida, preparando os alunos para o justo, o bom e o belo. O que seria essa intenção de ensinar a alunos autistas habilidades como controle do corpo e sociabilidade, inerentes às atividades físicas de grupo? Trata-se de um desejo de prepará-las à fruição plena do maior bem que possuem neste mundo: o tempo!

Parabéns, querido Eduardo!

Eduardo Santiago, é professor de Educação Física e personal trainer. Contatos: edusantyago@hotmail.com

 

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