No caminho para a Unifesp, ontem, minha irmã escolhida, Liliana Centurione, me convidou para conhecer o Dr. Afonso Carlos Neves. Neurologista, ele desenvolve um trabalho chamado Meditação caminhando no Labirinto. Adorei a ideia de participar da vivência, pois esse foi o tema de uma das aulas que eu não pude assirtir no mês de maio.

Labirintos sempre me fascinaram desde a primeira vez que ouvi a história de Teseu e do Minotauro, e de Ariadne, personagens da mitologia grega. O Minotauro, metade homem, metade touro, aliás, inspirou Picasso em muitas de suas obras. Dominique Depuis Labbé, curadora do Museu Picasso, comentando essa preferência, disse que “A finalidade da presença do Minotauro é admitir e fazer admitir que somos duplos: é a inevitável e necessária presença da bestialidade em nós, mesmo se ela nos choca, e a transgressão picassiana consiste em exprimir e em viver, mais ou menos serenamente, aquilo que nos assusta mas que palpita dentro de nós, em particular no domínio sexual“. (Isso também nos leva a Freud e o seu Mal estar na civilização).

Apaixonada por esse artista, muitas vezes me perguntei se Picasso se via como um Minotauro, ou se apenas  nos estimulava a ver as partes do todo que somos nós. Meditando sobre o labirinto, ser aprisionado seria pena ou necessidade?

Caminhar por um labirinto pode ter muitos significados e, para mim, ele representava as emoções, os caminhos que às vezes pensamos ser os melhores e que, inadvertidamente acabam numa passagem sem saída. E então era também o retrato do recomeço. Um Minotauro está sempre à espreita. Por isso, a atenção plena é condição sem a qual não podemos trilhá-lo.

Bem, meus pensamentos repassaram todos esses conceitos antes de tirar os sapatos e iniciar o percurso pela sala ensolarada, e pelos traços do labirinto imenso desenhados sobre o canvas branco. Diante de mim, um quadro com a planta dele. Imagine uma mandala cujo desenho mais parece um cérebro dividido em quatro partes.

Inicio o percurso com apreensão, pois a sensação é que vou me perder. É preciso equilíbrio e concentração. E parece que o objetivo, isto é, o centro do labirinto nunca chega. No fundo, uma música ecoava. E o meu corpo apenas queria seguir adiante, embalada por uma sensação de estar passando por curvas e ondas conhecidas. Me emocionei. Mas o choro não veio. Ao mesmo tempo senti um enorme prazer. Eu era uma rainha cruzando a longa nave de uma igreja antiga, rumo à coroação. Ombros para trás, sem medo do que iria encontrar. Ao chegar no centro, os demais participantes se sentaram. Eu só desejei sentir os pés bem fincados no chão. Nessa altura eu já perdera os propés, as meias queriam sair e eu pensava – quero ficar descalça! E sentia orgulho, como se tivesse cumprido uma missão especial e sagrada. Ao meu lado vi a Liliana, que depois me disse que me esperava. Iniciei meu caminho de volta. Os passos eram certos e seguros, pausados e ritmados.

Na saída, oDr. Neves me esperava com uma folha de papel nas mãos, com a seguinte inscrição:

O labirinto é como a vida: às vezes parece que estamos perto do nosso objetivo e, de repente, o caminho se afasta. Em outro momento, quando o objetivo parece longe, subitamente chegamos a ele… A vida não é feita só de metas; a vida é vivida nos caminhos”.

Ri sozinha. Afinal, eu consegui percorrer e sair do labirinto. Descobri que o Minotauro, na verdade, era apenas uma fantasia. Saber que foi possível passar por esse caminho sem me perder, com equilíbrio e total presença trouxe esperança. O fascínio agora, não é o mito, mas a verdade. E assim,  recomeço a caminhada em direção ao centro, sabendo que sempre posso ir e voltar quando quiser!

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O que é Meditação Caminhando no Labirinto (MCL): A MCL é uma prática complementar, ou ainda uma terapia de apoio instrumentalizada com labirintos. Ela tem sido utilizada nos últimos anos nas mais variadas instituições, em diversos países, como hospitais e universidades, escolas etc. A atividade trabalha o movimento do corpo, a escuta musical e uma prática de interiorização que procura reduzir o estresse, promover o relaxamento e facilitar um contato interior consigo mesmo. Pessoas sadias e doentes têm se beneficiado da prática, das mais variadas formas: atitude mais positiva dos pacientes, maior adesão a tratamentos, melhor compreensão de suas atitudes diante das doenças. A atividade tem como fim despertar partes adormecidas de nosso interior, e que estão relacionadas com a intuição, noções artísticas e relação do corpo com espaço e outras correlatas.

Para saber mais sobre o Dr. Afonso Carlos Neves, visite o Blog Meditar no Labirinto