Assim como fumar saiu de moda, o termo “vício” já não é o mais correto quando se trata de largar o cigarro. É o que defende o professor de tabacologia da Universidade La Sapienza, de Roma, Giacomo Mangiaracina. “O oposto de vício é virtude. Se a questão dependesse de ser virtuoso ou não, o especialista competente para a solução desse mal seria um religioso”, ironiza o médico, autor de “Curare il Fumo” (Edup Editore, ainda sem tradução no Brasil).

Com o surgimento da adictologia, ciência que estuda dependências de todo o tipo, hoje a abordagem com o paciente deve envolver uma análise da relação complexa existente entre a pessoa e determinado tipo de comportamento, ou seja, é preciso verificar porque um indivíduo repete atitudes que sabe serem nocivas para si. Segundo o especialista, o objeto de compulsão não é tão importante. “Uma pessoa pode ser dependente do trabalho, do jogo ou das compras”.

“O problema requer solução guiada por novas competências profissionais e não existe uma receita única para parar de fumar”, diz Mangiaracina. “As pessoas devem ficar atentas com receitas prontas para esse fim”, completa. Para ele, não se trata simplesmente de largar o cigarro, mas realizar uma mudança pessoal mais ampla.

Para o psiquiatra Flávio Gikovate, parar de fumar foi uma das coisas mais difíceis que conseguiu fazer por si mesmo e, por isso, é também sua maior fonte de orgulho, talvez mais importante do que os resultados obtidos pelo reconhecimento profissional. Sua experiência é relatada no livro “Fumar, um adeus possível” (MG Editores).

O psiquiatra conta que estabeleceu uma idade limite para se decidir: 50 anos. Foi mais ou menos nessa época que a batalha começou, não sem a preocupação de que um possível infarto seria mais rápido do que ele. “O desafio aparecia como um terrível obstáculo a vencer. Não tinha vontade de enfrentá-lo, mas a partir do momento que o fiz, tive que continuar. Aí, sim, fui ficando cada vez mais orgulhoso com minhas conquistas”.

Ele montou uma estratégia temporal para se desligar da nicotina: um ano era o seu prazo para consumar o processo. Primeiro vieram os intervalos de 12 horas a cada cigarro; depois a escolha de não fumar no carro, na ruas. O passo seguinte foi a troca periódica da marca do produto. “Contando desde o início do procedimento, penso que a dependência química nos prende por poucas semanas”.

O problema, segundo ele, foi superar a dependência psicológica. Ele experimentou a manifestação daquilo que os viciados chamam de “fissura”. “O mais interessante foi observar que essa sensação se desfazia em poucos instantes e desaparecia. A partir daí, as coisas começam a ficar mais fáceis”, testemunha.

“Só quem passou por todo esse processo sabe o quanto é deprimente a sensação de depender do cigarro: sair correndo do cinema ou de um aeroporto, apenas para inalar uma fumaça sem graça e sem gosto”.

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Confira os dados da Organização Mundial de Saúde nesta data:

– O uso do tabaco é um dos maiores problemas de saúde pública no mundo.

– Se você está pensando que é hora de parar de fumar, você precisa apenas parar, mas precisa de alguma motivação para continuar nessa empreitada. Portanto, reflita sobre os motivos abaixo para manter seu objetivo de uma vez por todas:

* Existem 1.1 bilhão de fumantes no mundo, e se esse volume continuar, a expectativa é que esse número cresça para 1.6 bilhões em 2025.
* O uso do tabaco mata 5.4 milhões de pessoas ao ano – numa proporção de uma pessoa a cada 6 segundos, e um adulto morto em cada dez no mundo.
* Quase metade das crianças de todo o mundo respira ar poluído pela fumaça do tabaco.
* O tabaco mata mais da metade de seus usuários.
* É uma fator de risco para seis das oito maiores causas de morte no mundo.

 

* A matéria original foi publicada no UOL Ciência e Saúde. Os dados da OMS são de maio 2011.