Ontem à tarde fui à Sala São Paulo, e passei diante da antiga rodoviária, agora desapropriada para a construção de mais um milionário projeto arquitetônico. Me lembrei do dia em que completei 15 anos, e do presente de aniversário que pedi a meu pai: uma viagem. Sozinha, e de ônibus. Nascida na capital de São Paulo, o meu sonho era conhecer uma certa cidade do interior. Numa manhã fria de julho, ele me acompanhou até o pequeno escritório do Juizado de Menores, e assinou, meio preocupado, uma autorização para que eu partisse para o meu destino. Uma rodoviária nunca é bonita, mas há sempre um certo charme nos rostos daqueles que por ali passam: são as chegadas e partidas, e as histórias e sonhos que cada um traz em suas malas.

Todo esse cenário seria apenas uma lembrança agradável, não fosse o horror que se tornou aquela região. Antes mesmo das 18h00 eu já estava voltando para casa, e o fluxo do tráfego me fez passar por uma rua chamada Helvetia. Curiosamente, esse nome nos remete às origens celtas da Suíça, modelo de qualidade de vida em todo o mundo.

Como estamos no outono, a noite caía e o trânsito já estava lento porque se tratava de uma sexta feira. Os carros ficaram ali enfileirados, mas se pudessem teriam alçado voo, o mais rápido possível.  Vi então o que todo mundo viu e fingiu não ver. Olhei ao redor para observar a reação dos motoristas. Em seus rostos não havia algum sentimento. Todos pareciam anestesiados diante das centenas de pessoas amontoadas. Sujas e maltrapilhas. Pareciam participar de um macabro ritual, pois a maioria estava sentada no chão ou de cócoras. Era impossível ver seus olhos e a cor de suas peles. Eles eram brancos e negros, mas a maioria tinha uma cor acizentada, borralheiros que jamais se tranformarão em príncipes. A pouca luz e a dor da miséria encobria seus rostos. Vi poucas mulheres, mas elas estavam por ali. Todos me pareceram muito jovens. Mas não dava para saber que idade tinham: seus corpos, mentes e almas não são deste mundo,  pois ali é outro mundo: a Cracolândia.

Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate [Percam a esperança, vocês que entram] – Dante me falou à mente. O inferno è aqui?, me perguntei. O que teria feito essa gente para merecer tamanha danação? Talvez essa rua seja um portal que leva ao inferno… Nos breves minutos que fiquei ali parada, blindada por uma fina parede de lata e vidros, testemunhei a vida como ela é,  e que acontecia esquisofrênica do lado de fora. Tive vontade de chorar. E rezei sinceramente.

Na Divina Comédia, Dante, assombrado pela inscrição advertindo que é impossível escapar do inferno, foi consolado por Virgílio que lhe disse que a misericórdia divina desejou garantir aos homens que a justiça pode e deve ser feita com a efetiva punição dos maus. Nesse momento, uma nuvem de vespas, vermes e varejeiras se aproximou de Dante – eram as almas rejeitadas até pelo inferno, almas que não merecem nem punição nem recompensa.

As almas que vi nas calçadas da nossa Suíça eram o retrato desse limbo. Não existe tempo, nem esperança. Há apenas a escuridão. Vidas consumidas por vermes, varejeiras e vespas sob o céu aberto da cidade.

Quem são essas pessoas? Doentes, e não um caso de polícia. Mas suas vidas não têm valor. A vida deles não merece nem punição, nem recompensa.  Li em algum lugar que, se o Estado não tem sensibilidade suficiente para detectar as necessidades de um povo, corre o risco de ver deteriorada ou perdida sua legitimidade.

Finalizo com a reflexão do sociólogo italiano Domenico de Masi que, prevendo há mais de dez anos uma possível inversão de lideranças, afirmou que é a sociedade (jovens, mulheres, artistas, desocupados, imigrantes, aposentados e voluntários) que antecipa valores, necessidades e até instrumentos operativos que dirigentes de todo tipo se obstinam em não compreender e não adotar. (*Il futuro del lavoro, fatica, ozio nella società postindustriale).

 Quando teremos Saúde em abundância neste país?

Para saber mais, leia a notícia do Estado de São Paulo, publicada no primeiro dia de Maio: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110501/not_imp713259,0.php