Neste dia comemorativo, o apelo da Organização Mundial de Saúde (OMS) é que se dê maior atenção à resistência aos medicamentos. A campanha esclarece sobre o aumento do fenômeno, que é natural, mas resulta na dificuldade de tratamento de muitas doenças, tornando todo processo mais caro, além de aumentar o risco de morte. A advertência é que, se as ações não forem efetivas , será impossível preservar os avanços médicos para as futuras gerações.

Entre as medidas sugeridas pela organização, destaco o direito de acesso a medicamentos de qualidade garantida, uso regulado e racional, diminuição de infecções por meio de ações preventivas, pesquisa de novas formas de tratamento. Segundo as informações disponibilizadas para os jornalistas, essas seriam as bases de políticas públicas para o combate do problema. Porém, a sociedade tem o seu papel:

“Médicos e farmacêuticos devem prescrever e ministrar apenas drogas que sejam necessárias para tratar o paciente, ao invés de dar-lhes automaticamente a mais nova ou mais conhecida droga. Os pacientes devem parar de pedir aos médicos que lhes receite antibióticos, quando eles podem não ser apropriados. Profissionais da saúde podem ajudar a reduzir rapidamente a disseminação de infecção nas instalações de atendimento médico”. Penso que faltou citar aqui o grande problema da automedicação, velha conhecida.

Já disse neste espaço que não possuo farmácia caseira, e cresci sendo aterrorizada por minha mãe sobre os efeitos colaterais do uso indiscriminado de remédios, mesmo aqueles que, um dia, eram de fácil acesso nas prateleiras das drogarias. Então, para mim, parece mesmo meio estranho que as pessoas tenham coragem de comprar por conta própria um antibiótico e tomá-lo sei lá por quanto tempo. Mas isso tudo é uma bola de neve. Num país como o Brasil, quem não tem dinheiro, resolve seus problemas como pode. Compra-se remédios de camelô, toma-se a pílula que o médico receitou para a vizinha e funcionou. O importante é evitar o uso do serviço médico público. E mesmo quando ele é privado, já sabemos que há um ligeiro upgrade nas instalações locais, mas tudo é feito como numa produção em série. Para além do papel do paciente, há ainda os médicos, que exatamente hoje combinaram de parar por melhores condições de trabalho…

Não lhes parece interessante esse quadro? Bem, não sou analista de riscos, nem prevejo o futuro. O que entendo é que o sistema, como o conhecemos, não está funcionando e não agrada a ninguém. E percebo ainda que há um sincero interesse de que mudanças ocorram. Como e quando elas se concretizarão, ainda não sabemos. Mas talvez uma solução seja se inspirar em sistemas públicos de saúde que funcionam. Quem se importaria de pagar por um “selo” de atendimento numa consulta? Quem não gostaria de ter um clínico geral que realmente o conhecesse e soubesse mais sobre sua vida e seu corpo? Ao contrário disso, nossos médicos, ainda que seja do melhor convênio que possamos pagar, são meros desconhecidos. Os mais gentis lembrarão do nosso nome sem olhar na ficha, mesmo tendo que atender 40 pacientes por dia.

O que precisamos, não é só sermos lembrados sobre o risco do uso inadvertido de antibióticos, que resultará em danos para toda a sociedade. O que precisamos é de relações médico/paciente de qualidade.

Há dez anos, não consigo encontrar um ginecologista com o qual me sinta à vontade. O meu, que conheci aos 22 anos, e fez o parto de meus dois filhos, se aposentou. Enquanto um outro colega indicara uma cirurgia para mim, ele, professor de uma universidade, mas que jamais teve um consultório fora dela, me receitou pílulas para um probleminha no ovário. Para ele, o que eu tinha, era uma espécie de “unha encravada” da ginecologia. E para isso, não era necessária uma intervenção!

No Dia Mundial da Saúde, o meu desejo é que a saúde de todos se beneficie com uma medicina à moda antiga: consciente de seus limites e da natureza, baseada na confiança, no zelo, nas medida certa para cada caso. Se não for pedir demais, desejo menos luxo e mais humanidade.