Hoje li uma frase que já conhecia há muitos anos: “Não há que ser forte. Há que ser flexível”.  Provavelmente, um provérbio oriental, chinês talvez, no estilo do meu mestre Confúcio.  Faz alusão à árvore frondosa que com o vento forte cai, em contraponto ao bambu, aparentemente frágil, mas que se curva para que a tempestade passe.

Conheci ao longo dos anos gente assim. Aparentemente frágeis. Mas por dentro, firmes, obstinadas pela vida. Com o poder da fortaleza, com pleno sentido de “Eu tenho a Força!”. Geralmente, estas pessoas eram as mesmas que viveram as fases mais difíceis ao longo de suas vidas. Mesmo assim…

Mesmo assim, estas pessoas (aparentemente frágeis) cada vez que encontravam obstáculos nos seus cotidianos mostravam-se ainda mais firmes, fortes e prontas para a luta. Por estas e outras, lembro sempre do bom e velho Gonzaguinha e suas frases maravilhosas: “Eu acredito é na rapaziada, que segue em frente e segura o rojão”. Esta “rapaziada” toda guerreira, que luta dia após dia contra os revezes da vida. E ser jovem não é uma questão concreta. Muito menos cronológica.

Hoje em dia o que se vê por aí são jovens desiludidos da vida, tristes porque perderam a/o namorada/o, porque a conexão da internet (ou do celular) não funciona direito, ou ainda reclamam da chuva, do sol, do calor ou do frio. São tantos descontentamentos e reclamações que poderia listar em inúmeras páginas. Tudo, com certeza, porque se criou uma geração aparentemente jovem e “forte”, mas que carrega a velha ênfase de que mais que compreender derrotas e revezes da vida precisa “vencer” sempre. Na verdade, não sabem lidar com as derrotas e que elas têm sua importância, como fonte de aprendizado e sabedoria. São o resultado do ato fisiológico dos que ainda não saíram da caverna, e perseguem, moto-contínuo, a competitividade e o “vencer” como única alternativa para suas sobrevivências.

Gosto dos bons e velhos fortes senhores e senhoras de todas as idades mentais, aqueles que souberam aproveitar a experiência, para reflexo da sabedoria. Os que tiveram a magnitude de olhar a vida de frente, para buscar soluções saudáveis! Os que compreenderam as nuances impostas, as dificuldades e os percalços impostos no caminho. Ou seja, souberam encarar a vida com ela é, deixando as ilusões de lado (acho que alguém, algum dia, já disse esta frase, não é?).

Hoje, depois de uma incrível e incansável luta contra o câncer (ou cânceres, pois foram vários), o Brasil perdeu um ícone, não um semi-Deus ou simplesmente um homem público notável, que até pode ter sido. Mas um homem mostrou, com seu exemplo, como podemos ser perseverantes em todas as nossas lutas cotidianas. Sobretudo contra o câncer, uma doença que por muitos e muitos anos nos deixa perplexos e em constante processo de interrogação mental sobre o que é e como é o processo que chamamos Vida. Não existem bons ou maus nesta história. Neste drama, só a constatação de uma doença que acomete todo tipo de gente: rico, pobre, intelectual, o cidadão sem estudo, a mulher e o homem. Por isto um ícone, strictu sensu, a imagem de quem acredita no reino de todas as possibilidades. Até da cura, até o último minuto.

Claro que devemos fazer aqueles parênteses críticos também. A vida é bela, maravilhosa, aprendemos todos os dias com ela. Sim. Mas algumas questões nos põem a pensar: quanto de perseverança existe no homem faminto, com frio e pobre. Conheci, e você também, meu caro, minha cara, seres humanos que encerraram seus destinos com muita humildade e coragem até o último dia de suas vidas, ainda que tivessem que brigar com estas condições: a fome, o frio e a pobreza.

Sorrir de barriga cheia é fácil. Quero ver você ter forças nas adversidades, durantes as “tempestades” e sem a mínima assistência e condição de tratamento necessário a todos. Lógico, a dor, a fibra, a garra, a esperança e a fé não estão associadas aos benefícios que se possa ter ou não. É questão de fórum íntimo, ou de fortaleza interior, dada aos grandes, não necessariamente aos mais abastados.

Tive este espelho de força, perseverança, fé, fibra, garra, luta em minha família. Aprendi que a grande diferença é não se deixar vencer. Se deixar, será apenas mais um número nas estatísticas, e não um ícone para uma nação ou para quem está à sua volta. Pois vencido, não se conseguirá ser flexível, ou seja, verdadeiramente forte.

 

*Guest Blogger: Ricardo Berlitz é jornalista especializado em Comunicação Corporativa.

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