Ontem à noite assisti ao concorrido Cisne Negro. Todas as pessoas mais próximas já tinham visto o filme. As reações foram mais ou menos parecidas, e giraram em torno dos adjetivos pesado, violento, forte – uma obra em preto e branco. Nada é suave. Tudo se passa entre um limite e outro. É o tudo, ou o nada.

Achei o filme  intenso.  E é isso que se espera de um bom filme: algo que mexa com as nossas verdades. E bonito, apesar de falar dos porões da alma. Afinal, parafraseando um psicanalista que acabei de entrevistar sobre o filme O Discurso do Rei, todos nós somos cisnes negros. Fiquei na dúvida sobre os méritos de Natalie Portman como possível melhor atriz do ano. O que é bom  é o tema trazido à discussão, não a sua performance, parecida com o que já vi no passado: olhares nervosos, postura tensa, sorriso preso entre os dentes.

O interessante mesmo foi ver mil vezes refletida no espelho (e o filme tem muitos espelhos), a dualidade que existe em cada um de nós. A luz e a sombra. O bem e o mal. O santo e o pecador. O generoso e o invejoso. O perfeito e o defeituoso. O destemido e o fraco.  Eu poderia listar ainda mais mil coisas que retratam os cisnes brancos e pretos que temos dentro de nós.

A personagem  Nina, na verdade, é composta por todas as personagens femininas do filme. E elas  clamam por reconhecimento e integração. A mãe (a bruxa), a colega (a devassa e competitiva), a primeira bailarina (a perfeita) . A única figura masculina do filme, um Vincent Cassel que transita entre um tipo cafajeste e um diretor da companhia de dança, não acrescenta nada às sombras de Nina que precisa tanto encontrar o masculino. Talvez sua fala mais importante tenha sido dizer a ela que seu maior inimigo é ela mesma!

Nina é frágil e nunca tomou contato com suas emoções. Vive ainda num quarto todo rosa,e nada reflete sua idade adulta. Ela ainda está rodeada por ursinhos, bonecas e babados. Um mundo de fantasias e ilusões, de onde é difícil  olhar para a sua própria dor e  fazer curativos. Para superar essa prisão, Nina se afoga no trabalho. E não há vida fora dele. Há somente uma sobrevida que vai pouco a pouco minando o que ela julga ser o melhor de si: ser bailarina. Afinal, ninguém levanta pela manhã e diz – bem, hoje quero sofrer mais um pouquinho, hoje vou me flagelar porque a minha vida é péssima!

No famoso balé, o Cisne morre porque foi traído. No filme acontece o mesmo. A traição é de Nina para com ela mesma e a potencialidade de ter uma vida plena. A metáfora ali utilizada foi belíssima. Para renascer, é preciso enfrentar a tal noite escura da alma. A caveira. Só é possível renascer se morremos – no caso, se acolhemos todas essas sombras como nossas. Na boca de um São Francisco de Assis isso seria – morrer para viver. Não foi por acaso que uma das chagas da personagem tenha sido no plexo solar: o local onde sentimos medo, ansiedade. Afinal, crescer amedronta.

Saúde mental e psicológica são tão importantes quanto saúde física. E, talvez, esta última leve vantagem porque um sintoma nesse nível pode ser driblado facilmente com intervenções químicas. Mas a saúde da alma depende de muitos fatores. E pode ser difícil alcançá-la. Talvez seja um trabalho para a vida, pois o que move esses mecanismos é o inconsciente, que não admite palpações, exames laboratoriais. Para lidar com ele, precisamos mesmo é de coragem e alguma sorte.

Achar a melhor forma de fazer isso é outro desafio.