Somos constituídos por diversos personagens que se tornaram ativos por conta de importantes experiências passadas ao longo da vida. Se você já observou a personalidade de alguém, ou mesmo a sua, mudar da água para o vinho,e de um minuto para outro, sabe sobre do que estamos abordando. Existem situações onde perdemos totalmente a conexão com o Eu, e nos encontramos literalmente possuídos por aspectos desconhecidos, porém, nossos. Trata-se de identidades provavelmente geradas em momentos difíceis e assustadores do passado, e que permaneceram congeladas no curso das nossas histórias de vida. É como se elas estivessem suspensas, dentro de bolhas. O objetivo é proteger a nossa integridade.

Como consegui,ps lidar com determinadas situações da vida, pedaços nossos ficam retidos em nossa linha do tempo, enquanto o resto de nossa totalidade continua seguindo em frente… Dentro deste contexto, já notou que um evento aparentemente aleatório pode disparar as mais diversas reações em cada pessoa? Já se perguntou sobre quais são os motivos dessas situações ocorrerem praticamente em todos nós?

Interessante notar as mais diversas culturas abordaram este mesmo assunto das mais diversas maneiras. Isso por si só já fala de uma verdade que poderia ser concebida como universal aos seres humanos. Vejam a seguir apenas algumas indicações a respeito: 

– Sabemos que ao redor do mundo existem inúmeras tribos xamânicas (nas regiões brasileiras indígenas, peruanas, nas regiões russas do Altai etc.). Nessas culturas, existe uma modalidade de cura emocional, e mesmo de cura para doenças, costumeiramente chamada de

Resgate de Alma. Nesta, o Xamã entende que um pedaço da alma da pessoa está em aflição, e se encontra escondido em algum local impedindo-a de ter saúde. No procedimento de cura, o Xamã faz uma viagem psíquica ao interior da pessoa, encontra-se com o pedaço da alma escondido, para então negociar sua volta para fazer parte da alma total do indivíduo. A ideia é mostrar sua importância para a completude da vitalidade e alegria. Muitas vezes o resgate é penoso, e o pedaço de alma conta sua história, e também o motivo pelo qual se mantém exilado, assim como o tempo em que se escondeu. Não poucas vezes este pedaço aparece numa vivência de quando a pessoa era criança, mostrando o lugar onde se esconde, na maioria das vezes por medo. Algumas vezes o resgate também se dá por algum episódio recente. Durante o processo, o enfermo permanece deitado ao lado do Xamã e este faz sua viagem de resgate, até que a cura, a libertação e reintegração aconteçam. Quando o acordo de volta da alma é selado, geralmente o Xamã, num ato simbólico (ou não) sopra o pedaço de alma faltante no topo da cabeça e no coração da pessoa. Uma cerimônia sagrada e, na crença xamânica, altamente eficiente.

– Outro modo de reconhecer e resgatar esses nossos aspectos traumatizados passa pela área da psicologia. E, fazendo uma analogia, seria o momento em que aspectos do inconsciente que comandam a cena podem se integrar de modo saudável na vida. O reprocessamento que o EMDR promove também funciona como uma abordagem altamente competente dentro da psicologia, pois ajuda a reprocessar os momentos difíceis pelos quais passamos. Será mais explicitado a seguir. A física quântica aborda também o tema ao pesquisar sobre universos paralelos nos quais poderíamos coexistir, e numa conexão desconhecida, todos os nossos eus, residentes nestes universos, seriam afetados ininterruptamente com a qualidade das vivências experienciadas por cada um em sua lâmina de realidade. Ou seja, cada Eu seria um aspecto total em si e de algum modo estaria influenciando pelos outros Eus. 

A nossa questão refere-se à invasão que esses supostos eus, mediante suas histórias, frequentemente fazem em nossas vidas, muitas vezes ocasionando estragos indesejáveis em condutas reconhecidamente escolhidas e honradas por nós. Ocorre que quando o eu assustado e congelado na bolha se percebe ameaçado, acaba emanando seus conteúdos emocionais para fora da mesma, de modo totalmente desconexo e, pior, sem avisar.

Nesses momentos somos invadidos por reações cegas que ao nos atravessarem exteriorizam-se de forma desmedida. Costumam se apresentar pelos excessos ou mesmo pelo medo, acanhamento ou retração. E a incógnita para nós, leigos do real sentido que nos move, é pensar logo depois e de modo racional o porquê de não conseguirmos frear estes impulsos tão estranhos e paradoxalmente conhecidos.

Nessas ocasiões, dissociados de nós mesmos, aspectos que permanecem paralisados no tempo do sofrimento surgem como fantasmas atuantes no palco de nossas vidas. Nenhum de nós esta livre de ser vítima de si mesmo. Todos passamos experiências de difícil digestão. Por conta disso, paralisamos e congelamos estes Eus em meio às histórias e entendimentos da realidade de modo disfuncional, associando crenças irracionais exatamente pela visão distorcida que situações de trauma promovem.

A pergunta que fica é: como tratar dessas possíveis possessões de nós para nós mesmos quando ficamos totalmente descontrolados? O pior é sabermos que fatalmente essas situações se repetirão em nossas vidas se não tomarmos alguma atitude… E que atitude poderia ser esta, quando inúmeras vezes custamos a acreditar que fomos nós mesmos que agimos de modo violento, agressivo, ou mesmo nos esquivando quando supostamente deveríamos ter agido?

Dificilmente, temos noção exata sobre o que do mundo externo disparará em nós determinadas reações emocionais e irracionais, e quando compreendemos, mesmo assim, há dificuldades em acessar chaves de transformação interior. Na abordagem do EMDR (busque mais explicações em outros artigos meus sobre EMDR), podemos acionar e trabalhar esses Eus negociando com eles, na real possibilidade de libertá-los das situações difíceis. Por intermédio do EMDR, o Eu consciente, numa atenção dual consegue entrar em contato com estas estâncias sofridas, reprocessando conteúdos congelados que ressurgem sem aviso prévio, e em nome da sobrevivência de algum momento antigo…e desconectado com a realidade total do momento presente. Dá o que pensar, não é? 

Uma das nossas metas existenciais refere-se a conquistarmos o status de sermos de verdade senhores de nós mesmos, movidos por uma completude de experiências saudáveis.
Desejo que todos nós possamos usufruir da vida em meio aos seus super coloridos tons. Que possamos sair dos lugares que nos paralisam com a maestria de quem realmente participa. E que possamos nos sentir literalmente VIVOS! Considere o EMDR como um dos caminhos possíveis.

Oriente-se e seja feliz. 2011, escolha ser este, o Ano da sua transformação. Aproveite!

*Guest Blogger: Silvia Malamud, psicóloga, atua em seu consultório em São Paulo. Terapeuta licenciada em EMDR, Brainspotting, Psicoterapia Breve e de Casais. É autora do livro “Projeto Secreto Universos“.

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