Sentada na cadeira do dentista, de boca aberta, ele me pergunta: “Você já esteve no dermatologista?”. Respondo que sim. E ele continua, “Você tem uma pinta na boca. Estou preocupado com isso. Gostaria que fizesse uma avaliação”. Claro que minha cabeça já começou a martelar a ideia de que eu podia ter um melanoma. Ainda adolescente, adorava ficar estirada na areia ou na beira de uma piscina. O objetivo não era ter uma pele dourada. Era ter as bochechas vermelhas.

Naqueles dias, ninguém falava em proteção solar, raios UV, nada. O belo, para mim, era usar um vestido de verão, ostentando as marcas finas do maiô e as maçãs do rosto e o nariz rosados.   Fui ao dermatologista com a impressão de entrar em um matadouro. Ali fiquei sob uma lupa imensa e iluminada. O médico, ao olhar as tantas sardas, logo disse – “Ah, aposto que na sua família existem muitas mulheres de pele clara!”.  É verdade. Mas desde a geração de minha mãe, somos a maioria morenas claras: sob o sol, a pele fica avermelhada, mas depois logo se bronzeia. E então o médico levantou a franja sobre a testa, e me deu nas mãos um espelho – “Veja, você não tem nenhuma marca nesta região. Tudo o que vemos em seu rosto é o resultado de exposição exagerada ao sol. Podemos clarear tudo isso, algumas delas com laser, mas você é uma daquelas que deverá usar protetor solar para o resto da vida e até dentro de casa! Ah e a pinta nos lábios, é outro efeito da sua devoção ao deus Sol, mas não é melanoma”.

Desde esse dia, após ter tranquilizado o dentista de que não morreria em seu consultório como consequência de um câncer de pele, uso mesmo o filtro solar até dentro de casa, e mesmo nos dias de inverno mais intenso. Esse fato ocorreu já há alguns anos, e a notícia da semana sobre o tema é que pesquisadores australianos acabaram de documentar que o uso de protetores solares efetivamente diminui o risco dessa doença.

O Instituto de Pesquisa Médica de Queensland observou por 15 anos o estado de saúde de 1600 habitantes de uma cidade a beira mar. Metade dos participantes da pesquisa usavam o creme todos os dias, e os restantes somente nos dias em que se expunham de forma prolongada ao sol. No final do período de análise, a incidência de câncer de pele no grupo de uso opcional resultou no dobro em relação aos que usavam a proteção diariamente.

Segundo a responsável pelo estudo, a Dra. Adele Green, tais resultados superaram qualquer distorção anteriormente verificada, pois a escolha entre os voluntários foi aleatória. “Muitas vezes, as pessoas predispostas a contrair o melanoma são as de pele clara. Estas, tendem a aplicar maior quantidade de creme e, por isso, era impossível determinar de forma independente a sua eficácia contra o tumor”, concluiu.

No meu caso, que vivo num país tropical, e estou frequentemente exposta ao sol, não me agrada mais ter sardinhas ou um colorido mais expressivo nas faces. Mesmo sem ter certeza da existência do céu e do inferno, na dúvida, comecei a rezar. Parece que já estou ouvindo as harpas dos anjos.

Para saber mais sobre a pesquisa:

Reduced melanoma after regular sunscreen use: randomized trial follow up

 

Confira aqui a pesquisa brasileira sobre  o tema:

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101216/not_imp654263,0.php