Um dos momentos mais interessantes do filme Comer, rezar e amar é o relato da protagonista sobre a preocupação de uma colega psicóloga sobre estar preparada ou não para tratar pacientes, depois de um acidente natural. Profissional treinada numa das melhores escolas de Psicologia, angustiava-se com a ideia de não ser capaz de dar suporte a traumas profundos, dores, queixas e perdas irreparáveis. Na prática, verificou que a maioria das consultas tinha como objeto de análise apenas um assunto – relações.

Dito isso, não me surpreendi com os resultados de uma pesquisa realizada na Suíça por estudiosos da Universidade de Berna e do Swisspep, Instituto para a Qualidade e Pesquisa em Cuidados da Saúde. Avaliadas as diferenças da qualidade das relações na medicina convencional e complementar, concluiu-se que os pacientes que utilizaram serviços de atendimento primário, nos ambulatórios formados por terapeutas complementares, apresentaram maior satisfação quanto à relação médico/paciente.

Segundo os especialistas, o motivo da disparidade é a efetiva comunicação que se opera entre os protagonistas. Escutar o paciente, dividir com ele as melhores formas de tratamento, e ainda ponderar sobre o prognóstico da doença desempenham papel crucial no gerenciamento das expectativas positivas do doente.

No encerramento do estudo, os pesquisadores ressaltam que os resultados encontrados mostram que deve haver esforço na promoção de formação de profissionais, habilitando-os à comunicação. Uma ressalva me chamou a atenção: a providência só deveria ser colocada em prática, caso se entendesse ser desejável que os níveis de satisfação, entre os usuários do serviços médicos convencionais, viessem a ser equiparados aos da medicina complementar…

Hummmm, então tudo mesmo se resume nas relações? Quantas vezes ouvimos médicos dizer que seus pacientes, não importa a especialidade, fazem de seus consultórios verdadeiros divãs? Quantas vezes nos apresentamos numa consulta médica do convênio mais caro do mercado, e o médico sequer levanta a cabeça para nos cumprimentar? Como  sentir que estamos iniciando uma relação de confiança?

Nos ambientes médicos, relacionar-se se resume em apenas uma palavra: cuidar. E seus significados mais simples repetem a definição dos dicionários: reparar, prestar atenção em, atentar, preocupar-se, interessar-se, tratar, olhar… É essa pequena lista de atitudes que se espera e se busca quando o corpo e alma estão fragilizados e amedrontados. Parece que é senso comum o fato de que ser médico de verdade vai muito além das habilidades técnicas para o manuseio de um bisturi.

Eu finalizava a leitura da pesquisa suíça, e lembrei do filme que assisti no domingo: The doctor (Um golpe do destino). Assistam se puderem. Baseado na autobiografia do médico Edward Rosembaum, autor do livro A taste of my own Medicine – when doctors becomes the patient [O gosto do próprio remédio – quando médicos se tornam pacientes]. Imaginem: médico cirurgião cardiotorácico, poderoso e impessoal em todas as suas relações. Um dia é surpreendido por um câncer de laringe. E a sua história recomeça ali.

Talvez a solução para a questão aberta pelos pesquisadores suíços seja uma só. A melhor forma de capacitar médicos para a habilidade de se comunicar é fazê-los vivenciar as práticas às quais são submetidos os pacientes em hospitais públicos (ou privados). Desprovidos de seus crachás e aventais, como muito bem retratato no filme, saberão o que é vestir-se somente com uma camisola que revela os fundilhos para desconhecidos.

Para saber mais: Differences in the quality os interpersonal care in complementary and conventional medicine, por André Busato e Beat Künzi

Confira o trailer do filme: The doctor

Med Students trade places with eldery patients