Conferindo as mensagens esta manhã, recebi as mais recentes publicações científicas sobre a saúde da mulher. Uma delas me chamou a atenção, pois vem do Nepal, local que, no meu imaginário, é um cenário de filme: lindas paisagens, pessoas doces e amorosas. O título da pesquisa – Coerção sexual em mulheres casadas. Vou atrás do organizador do trabalho. Trata-se de Ramesh Adhikari, especialista em População e reprodução humana, pelo Institute for Population and Social Research (IPSR), Mahidol University (Tailândia).

Então, o resumo do resumo: “A coerção sexual é um problema de saúde pública importante em razão de sua associação negativa com resultados sociais e de saúde. O artigo examina a prevalência da coerção sexual perpretada por maridos sobre suas esposas no Nepal, além de identificar características associadas a esse fenômeno”. Foram entrevistadas 1536 mulheres e 58% delas vivenciaram algum tipo de coerção sexual por parte de seus maridos

A análise de dados mostrou que escolaridade, poder de decisão sobre a própria saúde, diferenças de idade, consumo de álcool pelo parceiro e controle patriarcal estão associados à experiência. Mulheres letradas possuem 28% menos chance de sofrerem esse tipo de agressão do que as com menor grau de educação. Entre as que têm maior consciência sobre cuidados com a saúde, o índice aumenta para 36%. Por outro lado, mulheres com parceiros cuja diferença de idade era igual ou maior que 5 anos, bem como aquelas incluídas em relações patriarcais, também tinham maior probabilidade de coerção. A conclusão do pesquisador é que é necessária a promoção de programas que foquem a educação do poder feminino para redução do fenômeno, bem como para a proteção de sua saúde e direitos. Campanhas sobre abuso de álcool e conscientização dos maridos sobre o tema também deveriam ser objeto de atenção.

Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas, será mera coincidência. Entretanto, vislumbro aqui uma questão interessante. Se estivéssemos falando de maridos do ocidente, a disponibilidade para o ato sexual, dentro do casamento, constitui um dever conjugal. Trata-se de uma regra regulada pelo direito civil, mas ela está implícita na relação que se instala entre o casal. Não acredito que os números encontrados por Adhikari teriam sido menores dos que se encontrariam por aqui. A pergunta que me veio à cabeça é – por que seria necessária a coerção? Quais seriam os motivos que levariam uma mulher amorosa a se recusar a seu marido que, supostamente, teria sido escolhido entre algumas possibilidades diferentes? Cansaço, desinteresse sexual, alguma patologia física ou psicológica? Não saberia dizer, principalmente porque nem sempre é o amor que une e mantém juntos um homem e uma mulher.

A ideia romântica do  viveram felizes para sempre, na maioria das vezes, será substituída pela necessidade de superar, dia a dia, os desafios do próprio viver, e pelas mudanças que cada um experimentará ao longo do caminho. E então, aqui, entra em cena a importância de construir relações verdadeiras, onde exista legítimo interesse de saber o que há para além de um corpo físico disponível para o ato sexual. Talvez seja esse o segredo que pode manter vivo o desejo pelo outro – saber que ele é um ser complexo que hoje é o melhor amante, amanhã nem tanto; depois de amanhã se revelará desinteressado pelo encontro sexual depois de um a jornada de trabalho na cidade. Para além disso tudo, essa pessoa continuará sendo alguém que merece nosso respeito, pois nossa sexualidade não é responsabilidade do outro, nem mesmo quando esse outro é nosso marido ou mulher.

Seja lá como for, é impossível ter saúde quando nosso corpo e nossa mente são violados.

Para saber mais: Sexual coercion of married women in Nepal