Desculpem, mas quando estamos apaixonados, nos tornamos obsessivos. No meu caso, penso que estou vivendo uma história de amor com Hipócrates, o pai da medicina. E todos os dias me encanto com seu jeito de encarar a arte de curar e prevenir doenças. E adoro o charme das frases latinas que ele usa para sintetizar as conclusões de seus estudos e observações. Falando sobre fraturas, ele diz que, muitas vezes, a cura só é possível, graças à capacidade natural de reação. Esse é o efeito da Vis mediatrix naturae, isto é, a força saneadora da natureza.

Ontem, o Globo Repórter falou sobre meditação, destacando seu papel na redução da ansiedade, do estresse, e de outras doenças como a depressão. Para dar suporte científico à reportagem, mostrou algumas pesquisas em curso nos mais respeitados centros de medicina brasileiros. Estamos falando da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp/EPM), de Brasília e também do Hospital Albert Einstein. O objetivo desses grupos é trazer para o mundo racional (e cético) evidências científicas dos benefícios de um remédio utilizado pela medicina tradicional há mais de sete mil anos: a meditação.

Trata-se de medicamento que não pode ser comprado nem vendido numa farmácia. E mesmo sendo grátis, e dispense o formato de cápsulas, comprimidos ou gotas, muitas vezes a terapia parece ser de difícil adesão. A posologia adequada sugere duas doses diárias. O doente só precisa dispor de tempo para tomar contato consigo mesmo, apropriar-se de seu corpo e mente, tornar-se por alguns instantes senhor de seus pensamentos. O que se espera é que ele desenvolva a capacidade de alcançar um estado de presença absoluta.

Para o médico chinês Yi-Yuan Tang (Universidade de Oregon), os resultados terapêuticos podem ser notáveis, mesmo após prática de curto prazo. Cinco dias de Integrative Body/Mind Training (IBMT) (técnica chinesa nascida na década de 1990, e que permite altos níveis de relaxamento por meio de modificações na postura, respiração balanceada e visualização), potencializam defesas imunitárias, atenuam a depressão, e até dão novo aspecto à pele. Recente pesquisa publicada pela Proceedments of the National Academy of Science of The United States of America, sugeriu que a meditação tem efeitos sobre o córtex cingular anterior, área cerebral envolvida na auto-regulação das respostas da dor e dos estados ansiosos. Esse recurso, então, seria capaz de prevenir e controlar vários transtornos mentais. “Deduzimos que atenção, processos mentais e consciência de si são aspectos que podem ser exercitados como se fossem músculos”, diz o especialista. 

No início de 2010, a Mental Health Foundation (Reino Unido), recomendou a expansão do acesso de terapias baseadas nesse tipo de abordagem para pacientes sob risco de recaída de depressão, o que representa 50% a cada ano. Lá, a Meditação Transcendental era a ferramenta sugerida, pois a lista de evidências de benefícios é longa: baixo custo, aproveitamento de longo prazo, controle de estados crônicos como dor, doenças cardíacas, câncer e até Aids, além do aprimoramento das funções cognitivas: capacidade de atenção, criatividade e bem estar em relação à vida.

Na reportagem da Globo, o médico homeopata Fernando Bignardi, coordenador do Centro de Estudos do Envelhecimento da Unifesp e diretor do Centro de Ecologia Médica Florescer da Mata, usou uma metáfora interessante para explicar as vantagens da meditação. À frente de um estudo que observa os efeitos da técnica em dois grupos de idosos, em diferentes partes da cidade de São Paulo, ele afirma que quando se modifica a nascente de um rio, ele cascateia de modo diferente. Por isso, a partir de uma nova perspectiva da própria vida, postura, vitalidade e imunidade, gradualmente se aprimoram. O efeito cascata é consequência das alterações orgânicas em seus aspectos psicológicos, neurológicos, imunitários e endocrinológicos. Eu, ouso acrescentar que toda experiência conta ainda com o poder da certeza de pertencer a um grupo. Aí, cada um cuida de si, mas também do outro.

Os depoimentos dos idosos participantes do grupo são, no mínimo, comoventes. As lições que eles nos trazem falam da importância de sermos responsáveis pela nossa saúde. Falam do quanto precisamos de uma pausa para ouvirmos, em silêncio, quais são realmente nossas mais íntimas necessidades. Mais do que isso, nos revelam que, se estivermos minimamente disponíveis para o manancial que é a natureza, tudo, mas tudo mesmo, são possibilidades. Ter saúde, então, é apenas o começo de um final feliz.

Hipócrates não é tolo, por isso o admiro. Muito antes da era cristã, ela sabia que é a natureza, e não os médicos, a chave para a saúde. Para alcançar as delícias do bem estar, precisamos,  antes, ter os pés bem fincados na terra.

Veja fragmento da reportagem: Meditação reduz a ansiedade, o estresse e auxilia na cura de doenças

Para saber mais: Short term meditation induces white matter changes in the anterior cingulate

http://www.yi-yuan.net/index.asp