Os tempos mudam. Fantásticos raciocínios e lógicas impecáveis – quando existem – não são suficientes. É preciso mais. Relações e sintomas psicológicos e psicossomáticos demonstram que outra habilidade faz-se indispensável para o bem viver. Algo que, por falta de hábito, não se ensina e ao qual continua-se não se dando a devida atenção.

Empoleirados nos suportes do pensamento racional, olhamos lá do alto com desdém ou com compaixão para as esquisitas manifestações daquela dimensão do Ser considerada inferior e chamada de emoções. Incluo, nesse contexto, também os sentimentos. Utilizando o arsenal de ferramentas disponíveis, consideramos as formas convolutas, coloridas e variadas das emoções que fluem, num trânsito constante entre o mundo de dentro e o de fora, e as interpretamos do nosso jeito. A mentalidade na qual crescemos oferece uma série de respostas para cada uma das figuras que enxergamos. Basta abrir uma gaveta lá no alto do nosso poleiro de acordo com afinidades aproximadas, e eis que temos uma explicação. Logo, fecha-se a gaveta, retira-se o foco do que está em baixo, e cuida-se do que importa, ou melhor, volta-se a seguir o trilho de sempre.

Este comportamento pode ser comparado a um estudioso que aborda a natureza do ponto de vista da geometria, dispondo apenas de umas poucas formas:  quadrado, retângulo e círculo. Suas lentes psicológicas permitem enxergar somente o que couber nessas formas por aproximação. O resto é descartado por desinteresse, e por absoluta falta de condições (conceitos) para ser compreeendido. De fato, não se pode ver o que os olhos não têm formação para ver, assim como não é possível agarrar algo sem coordenação motora adequada.

Entretanto, as experiências psicológica e somática demonstram que essa dimensão do Ser tem um papel estratégico em nosso bem estar, no sentido da nossa vida, nas relações que temos, na felicidade e frustração que acarretamos para nós mesmos e para os outros. Manter a visão aproximada de algo tão decisivo é,  no mínimo, irresponsável.

A dificuldade em lidar com emoções e sentimentos depende de dois motivos que se interlaçam e influenciam reciprocamente. Por um lado, falta educação emocional e sentimental, as quais entretanto não podem se desenvolver se se continua no poleiro, olhando de cima com ar de superioridade. A humildade é uma exigência, pois é preciso descer  para o plano da emoção/sentimento para olhá-los de perto e aprender suas linguagens.  Essa atitude requer disposição de espírito, abertura e superação de preconceitos.

Por outro lado, não somos meramente esse ego bem intencionado com dificuldade para sacar-se. Por trás dessa primeira camada da psique, existe o simples e bruto interesse que visa manter as coisas como estão, porque emoções e sentimentos desestabilizam. Relacionar-se com elas significa passar de uma posição estática frente a si mesmos e à vida para outra dinâmica, que é flexível e disposta à mudança.

É aí que se revela a verdade. Em que medida falta informação, e em qual medida falta vontade? Quem tem medo das emoções e sentimentos? Aqueles que não querem/não podem questionar-se, saindo da zona de conforto. E essas pessoas caminham pela vida como retardadas emocionais, apesar de poderem possuir uma aguçada inteligência lógica.

Por retardo emocional entende-se então a inabilidade de lidar com e compreender as próprias emoções e sentimentos. Essa deficiência nasce da falta de hábito e de familiaridade culturais, mas é fossilizada pelo medo frente ao desconhecido. Consequência dessa ignorância é a cegueira pelo que está nas entrelinhas em toda relação, e a surdez diante do que, por exemplo, os outros sentem mesmo quando estão chorando na nossa frente. Escolhas mal feitas e caminhos errados também fazem parte do mesmo problema.

Que eu saiba, o único modo efetivo para desenvolver este aprendizado e sair do handicap emocional e sentimental é através daquele tipo de psicoterapia que é como um laboratório vivente. Uma análise desse tipo faz-se sem dogmas e teorias prontas, mas de maneira empirista e experimental, discernindo e distinguindo, observando de perto e analisando, pondo pergunta e buscando-se respostas novas, porque cada pessoa é nova e cada momento é único.

GUEST BLOGGER: Adriana Tanese Nogueira, psicoterapeuta com formação na Itália, idealizadora do Blog Psicologia Dialética e da ONG Amigas do Parto, e autora de vários livros, atualmente reside nos Estados Unidos.

Para saber mais: http://www.psicologiadialetica.com/

http://www.amigasdoparto.org.br/2007/index.php?option=com_content&task=view&id=1284&Itemid=1