Durante quase toda minha vida convivi com um software cerebral chamado LUTAR CONTRA. Havia em mim a crença de que a situação, ou pessoa indesejada, tratava-se de um oponente que devia ser combatido. Eu criava os inimigos em minha mente, e eles tinham que ser combatidos e derrotados. Só assim eu seria feliz.

Entretanto, há alguns anos li a seguinte frase: “Quem é batalhador, lutador, guerreiro, está na guerra. E quem está na guerra, não pode estar na paz”. Em geral, as pessoas lutam contra alguém ou algo. E o interessante é que o objeto da luta, quando é confrontado, só tende a crescer. Percebi também que, se dele tentamos fugir, ele ganha maior espaço e força, transformando-se num inimigo perseguidor.

Isso gerou um dilema: luto contra, ou fujo? Haveria uma terceira via? Na verdade, sempre há, mas ela não deve ser chamada de terceira, pois é, sim, a primeira e mais adequada via. Em vez de partir para a luta, fiz algo diferente. Aproximei-me do inimigo, e o observei longa e atentamente. Por que ele estava aqui? Por que não desgrudava de mim? Quem o colocara dentro ou perto de mim?

Após ter respirado profunda e lentamente, me deixei levar, como alguém que desce um rio sem tentar remar contra a maré. A névoa foi se dissipando, as cortinas lentamente se abriram e fui entendendo tudo, compreendendo suave e euforicamente que não havia inimigo algum. A ansiedade que eu sentia, até no sono e nos sonhos, não era minha oponente. A angústia que machucava não estava ali para me punir. Com o passar do tempo, aprofundando cada vez mais, percebi que ambas eram até gente boa. Se eu sentia angústia e ansiedade, essas emoções eram criaturas que eu nutria e estimulava dia após dia. Elas não faziam parte do meu mundo exterior.

Então, o grande insight. A angústia e a ansiedade, de fato, eram minhas amigas! Portanto, não havia razão para lutar ou fugir. Parei para ouvi-las. Escutei-as atentamente. E a angústia me disse: “Eu sou sua memória, seu passado. Nasci quando você se achou inadequado, fracassado ou derrotado. Quando sentiu culpa ou vergonha de atitudes, pensamentos e sentimentos e tentou escondê-los de si e dos outros. Não sou seu juiz, nem seu carrasco. Só quero que saiba que não há do que se envergonhar ou se culpar, pois você fez aquilo que estava ao seu alcance, com os elementos de que dispunha na época. Perdoe-se, e esqueça tudo. Não há pendências, mas se ainda julgar que há, repare-as”.

Em seguida, veio a ansiedade, que foi clara e direta: “Eu sou o seu futuro, suas expectativas, preocupações e ilusões. Mas, de verdade, ainda não cheguei, pois você está no presente. Portanto, ainda não existo. E mais, nunca existirei, porque quando chegar a mim, serei o presente e, bem rápido, serei passado. Só há vida no agora. A vida é uma sequência de agoras. Só isso. Não há com o que se pre…ocupar. Desça o rio sem resistência, sem batalhas. Apenas desça. Confie na incerteza, pois o rio certamente chegará ao mar”.

Há quatro anos, após um grave acidente de trânsito, que me deixou em coma por algum tempo, despertei e compreendi: angústia e ansiedade são, na verdade, avisos, sinais de alerta. Por isso, não são oponentes. Não há porque lutar, muito menos fugir. Para mim, essas emoções apenas sinalizaram o quanto abandonei a mim mesmo. E, o mais importante, tiveram a função de me recolocar no único lugar e momento em que eu posso verdadeiramente Ser: no presente, no agora!

GUEST BLOGGER: Carlos Bayma é médico especializado em Urologia e Psicossomática. Chefe do Setor de Urodinâmica do Hospital Esperança (Recife-PE), é também autodidata em Física Quântica, Metafísica da Saúde, Música e Fotografia. Autor do Projeto CPM40+ e colunista da Revista Mon Quartier, na seção Saúde em Revista.

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