Durante toda a linha do tempo de minha vida profissional, para mim sempre foi muito fácil compartilhar. Eu nunca tive pruridos para ensinar o que sabia, passar informações e até sugerir ferramentas ou qualquer tipo de coisa que pudesse facilitar a vida das pessoas com quem trabalhava. Em troca, geralmente recebia o mesmo tipo de tratamento, mas esse não era o meu objetivo. Fazia e faço isso porque essa é a minha natureza!

Nesse percurso profissional, editei um livro interessante de uma psicoterapeuta italiana*, onde ela reproduzia casos clínicos na forma de pequenos contos. Esse volume reunia distúrbios sexuais que martirizavam seus portadores, mas no final tinham um final feliz. A terapia trazia à tona fatos da infância, ocorrências mais ou menos banais que apenas atormentavam o presente. Uma vez elucidado o problema, a vida seguia seu curso normal. Entre esses casos, um me causou surpresa, pois nunca tinha ouvido falar dele. Tratava-se de um problema conhecido como Ejaculação retardada (ER) ou atrasada. Esse é o termo médico para uma disfunção em que o homem não consegue ejacular na vagina de sua parceira. Se estiver sozinho ou mesmo durante o jogo sexual, ele será capaz de fazê-lo, mas nela não. A situação causa estresse, ansiedade e insegurança. E a coisa pode ser pior se a mulher quiser ter um filho.

Para quem não sabe, a ER é a terceira queixa entre os homens e perdem apenas para a impotência e a ejaculação precoce. Por não ser um problema tão comum como os dois primeiros, existe pouca literatura sobre o assunto. O tratamento não é considerado fácil: somente 58% dos homens consegue obter resultados. No livro, a pessoa é descrita como alguém que sente angústia em se dissipar através de seu esperma. É um tipo de avaro, uma pessoa que retém.

Os estudiosos afirmam que, geralmente, esses homens tiveram uma infância muito restrita, e são muito controlados em sua vida. Admitem ter personalidades controladoras e podem ter dificuldades em demonstrar suas emoções e “desapegar-se”. Outros medos podem estar envolvidos – gravidez e higiene da parceira são alguns dos exemplos. Mas nem sempre as causas são psicológicas: medicações (antidepressivos), abuso de álcool e danos na coluna também podem estar relacionados.

Embora na juventude essa capacidade possa ser uma característica que torna o homem popular, num relacionamento mais maduro pode trazer dificuldades. E elas vão desde a frustração do casal, até o divórcio. O curioso é que muitos só procuram ajuda médica depois desse evento. As parceiras se vão, cansadas que ficam de estar à disposição para buscar uma saída. Ao chegarem aos consultórios dos urologistas, esses senhores têm a triste notícia de que não existe uma pílula colorida à sua espera: eles deverão sentar diante de um terapeuta, falar e ouvir dicas sobre como aprender a deixar ir, relaxar. Isso se chama enfrentamento de si mesmo.

Imagino como pode ser difícil para esses homens dividir, partilhar, compartilhar algo com alguém, mesmo que sejam meras informações profissionais. Conheço homens para os quais  é complicado dizer um simples obrigado, fazer um elogio ou o mais corriqueiro telefonema para saber se alguém do outro lado da linha está bem… Alguns estão tão ocupados com seu próprio trabalho, com seus hobbies ou com mil providências absurdas, que se transformam em pessoas inacessíveis, amorfas, pouco atenciosas. E então seguem a vida. Cegos e solitários, mesmo que tenham ao seu lado uma boa mulher ou uma família da qual se orgulhar.

Quando se dão conta (se têm sorte suficiente para isso), já não se reconhecem no espelho. Os anos se passaram.

*Gianna Schelotto

Para saber mais: Retarded Ejaculation, Michael Perelman e David Rowland, World Journal of Urology.