Quem tem a oportunidade de conhecer Adriana Tanese Nogueira, desde logo percebe quem ela é: uma mulher combativa. Mãe e filha devota, chegou ao Brasil depois de um longo período morando na  Itália com uma ideia fixa:  colocar em prática suas convicções sobre o momento sagrado do parto. Foi aí que teve início o desafio de conscientizar as mulheres brasileiras sobre o poder de decidir como será um dos momentos mais importantes da vida de uma mulher: o nascimento de um filho. Psicanalista, mestre em Ciências da Religião pela Pontifícia Univerdidade Católica de São Paulo, escritora e fundadora da ONG Amigas do Parto,  e residindo atualmente nos Estados Unidos, Adriana concedeu a seguinte entrevista. Confira:

Desde que passou a defender a humanização do parto no Brasil até hoje, o que você acha que mudou na cabeça das mulheres?
Adriana – Comecei a me envolver com a questão da humanização no início de 2001. Falava-se pouquíssmo em humanização a não ser em poucos círculos de profissionais da saúde. Hoje há diversos artigos e matérias na mída sobre o tema. Com certeza alguma coisa mudou, pois surgiu mais uma opção para as grávidas. Essa opção deve servir, entretanto, para questionar o sistema obstétrico, a forma como os partos e as mulheres são atendidos, e como seus bebês são tratados. Ainda estamos longe de implementar uma real humanização, a caminhada só começou.

Você afirma que o parto é um rito de passagem, um momento em que a mulher pode experimentar o sagrado. Porque tantas mulheres têm medo da dor que isso pode causar?
Adriana – Às vezes me pergunto se as mulheres já não sofrem demais a ponto de não aguentarem mais uma dor em suas vidas…. Há vários tipos de dor: a dor da emoção reprimida, a dor da alma oprimida, a dor da frustração, da ansiedade, do desejo irrealizável, do amor inalcançável… A dor do parto não é  a pior entre elas; é uma dor que só está presente durante as contrações, passa completamente entre uma e outra e some logo após o parto. Todo ato heróico inclui alguma dificuldade e dor. As mulheres não estão recebendo informações qualificadas sobre o que é efetivamente a dor do parto e sobre métodos não farmacológicos para o alívio da dor. Soma-se a fome com a vontade de comer e  chega-se à cesárea, com a perda total da sensibilidade na parte inferior do corpo no momento do nascimento.

Em suas viagens participando de congressos sobre a humanização do parto, ainda se discute que inexiste acesso às informações sobre quais são os tipos de parto e quem deve decidir como fazê-lo?
Adriana – Claro, esta é uma realidade generalizada. Não há, em 99% dos casos, discussão aberta e franca sobre como se pode dar à luz, em quais posições, e quais são as vantagens de cada uma. Às mulheres ainda não é concedido o privilégio da escolha informada e consciente.

Qual é papel do homem “grávido”? Ele deve participar da tomada de decisão sobre o parto humanizado? O que se espera dele?
Adriana – Espera-se que o homem seja parceiro de sua companheira grávida. Isso quer dizer que ele caminhe junto com ela e abra caminho para que ela seja ativa durante a gestação e o parto. Um parto humanizado é aquele no qual a mulher é ativa e consciente e o pai de seu filho também pode ser ativo e consciente. Naturalmente a mulher confia nela, e ele deve ser o primeiro a apoiá-la, acreditando em sua capacidade de parir e em sua intuição.

Existe algum país onde o parto humanizado seja a regra e não a exceção?
Adriana – Existem países na Europa nos quais o parto é realizado em condições ideias ou próximas do ideal, são eles a Holanda e os demais países da Europa do norte. Parteiras profissionais fazem o pré-natal e realizam os partos no domicílio da parturiente ou em casas de parto. Dão acompanhamento no pós-parto também. Esses países têm um índice de morbo-mortalidade materno-infantil muito baixo, o que desmente todos os mitos e tabus que rondam o parto no Brasil e que levam tantas mulheres à mesa de cirurgia, ora para abrir suas barrigas e extrair assim seus bebês, ora para abrir suas pernas e cortar desnecessariamente suas vulvas…  Curiosamente, países como a Holanda, por exemplo, têm uma tradição centenária de livre pensamento, cidadania e direitos civis e de gênero. Será uma coincidência?

Para saber mais: http://www.amigasdoparto.org.br/2007/index.php?option=com_content&task=view&id=1093&Itemid=228