Esses dias tive que fazer nova visita a um livro que possuo desde o início da década de 1990. Trata-se do Dicionário de Sentenças Latinas e Gregas, de Renzo Tosi. Ele me foi muito útil nos tempos em que escrevia textos jurídicos. Revendo seu índice, encontrei lá pela página 300, o subtítulo O mundo e a vida física. Logo abaixo, a chamada para os verbetes sobre Saúde e doença. Fui direto ao capítulo e tive uma grata surpresa. A maioria deles nos remete a Hipócrates, bem como aos valores que deveriam nortear a arte de curar as doenças.

Que a medicina é meio, e não fim já sabemos. E médicos, segundo entendimentos que contam nada mais nada menos do que dois milênios, devem verga-se à realidade de que são homens treinados para tratar doentes. Entretanto, na prática quotidiana, são exortados a fazê-lo com humildade. Acima deles pende uma espada que se chama natureza. Cada corpo humano é único e irrepetível.

Uma das sentenças chama a atenção por sua atualidade: Um médico nada é senão o consolo da alma. Como? Então já se sabia que na raiz das doenças há algum mal estar da alma? Freud  teria plagiado os gregos?  Alexandre Slullitel me adverte que, naqueles tempos, o conceito de alma, como hoje conhecemos, não era conhecido. Mas, então, sigo na leitura. “Essa gnoma pode ser vinculada ao topos da grande importância da moral nas doenças: em Provérbios, do Antigo Testamento (17,22), encontra-se – ‘Uma alma alegre torna a vida florida, um espírito triste resseca os ossos’; em São Jerônimo (Comentários a Isaías, 1, 1,5 [PL 24, 29b], lê-se que, ‘a serenidade da alma às vezes mitiga a dor do corpo’; sendo bem conhecido o preceito da Escola Salermitana (1,8s), que declara: ‘se te faltam médicos, sejam teus remédios a serenidade, o repouso e uma dieta moderada’. Nas tradições proverbiais modernas existem várias máximas semelhantes a essa. Em italiano, encontra-se A alegria é de cada mal o remédio universal…”

Engraçado, pensei. Assisti a uma aula onde um médico declarou que todos os sistemas públicos de saúde do mundo estão preocupados com a crescente obesidade da população. Entretanto, a maior epidemia entre todas é a depressão (leia-se falta de alegria). As terapias medicamentosas, as práticas da psicologia são muitas, mas o que estaria mantendo esse mal no patamar das epidemias?

No próximo verbete, dei um leve sorriso de satisfação. A força saneadora da natureza. “Essa expressão é comumente usada para indicar que muitas vezes a cura só é possível graças à capacidade natural de reação… Esse conceito, porém, já se encontra em Hipócrates (por exemplo, De fracturis, 1,2); ainda goza de certa fama o medieval Medicus curat, natura sanat, “o médico cuida, a natureza cura”…

Se é assim, toda evolução da ciência nas práticas médicas de nada valeria não fosse a disponibilidade da própria natureza humana. Procuramos um médico porque precisamos de cuidados. Mas a cura, salvo melhor juízo, depende mesmo muito de nós. 300 a.C., o pai da medicina acenava com uma ideia que hoje tem sido relegada ao segundo escalão, fora que está do reconhecimento científico. A responsabilidade pela nossa saúde é nossa. Conscientes disso, podemos usar a natureza a nosso favor. Não pude deixar de relacionar essas conclusões à fala do físico Amit Goswami, que levanta a bandeira da Medicina quântica: a doença é uma oportunidade que nos leva à mudança. E como isso seria possível? Por meio da conscientização. A partir do momento em que mente, energias vitais e representações físicas se harmonizam, a natureza se encarrega do resto e nos leva à cura. Do corpo e da alma.

Claro que não se trata de uma receita de bolo. Mudar o que precisa e deve ser mudado em nossas vidas requer coragem, tempo, dedicação, disciplina. Porém, já ouvi médicos contarem histórias de pacientes com o mesmo quadro clínico que se curam, e outros que não se curam, nada obstante terem se submetido às mesmas terapias. Por que isso acontece? Talvez porque essas pessoas não mudam seus padrões internos. Talvez não desejam superar a doença. E acredito que esse fato, muitas vezes, faz parte de mecanismos inconscientes que podem ser comparados ao masoquismo, pois o doente crê que é preciso sofrer por algum motivo. A doença pode ser alguma dívida a ser paga.

Seja lá o que for, um médico precisa lembrar que, diante do universo sagrado que o corpo e a doença de um paciente representam, seu papel é de mero intermediador. Talvez esses profissionais sejam timoneiros vestidos de branco que facilitam a travessia entre uma margem e outra. Um antes e um depois.  Quem sabe sejam novos Moisés que abrem mares para que seja possível alcançar a terra prometida: a consciência de quem somos e a verdadeira saúde, ou apenas uma vida digna de ser vivida.

P.S> Colaborou  Alexandre Slullitel,  anestesiologista e intensivista , Diretor científico da Sociedade de Anestesiologia do Estado de São Paulo (SAESP),  cujas referências de leitura indico abaixo:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Alma

http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/conteudo.phtml?tl=1&id=995433&tit=Luc-Ferry-a-filosofia-e-a-salvacao

http://giulianofilosofo.blogspot.com/2009/09/corpo-e-alma-no-estoicismo.html

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-73722005000300015&script=sci_arttext