Caros, não deu para ler e não compartilhar. O melhor do conhecimento é que podemos ter acesso a textos que não falam a nossa língua, mas traduzem exatamente nossa consciência. Abaixo a versão livre de Susanna Tamaro, célebre escritora italiana, tirado do Corriere della Sera de hoje. Dedico à minha filha Marília e à Nina. E também à Pão, à Maíra, às minhas eternas sobrinhas, agora jovens senhoras,  e a todas as meninas que adotei como filhas e que me adotaram como mãe; às jovens que não conheço, mas que desejo que possam ser mais felizes.

O feminismo não liberou as mulheres

“Pertenço à geração que combateu, nos anos da primeira juventude, a batalha para a liberação sexual e para a legalização do aborto. A geração que nos chás vespertinos, entre o perfume de patchouli e um cigarro, aprendia o método Karman, isto é, como fazer um aborto doméstico com a ajuda de um grupo de amigas.

Era uma geração que organizava voos coletivos a Londres para acompanhar mulheres que queriam abortar, às vezes num estado avançado de gravidez que mais parecia um parto prematuro. Para quem não vivenciou esse tipo de coisa é difícil  entender a excitação, exaltação, o frenesi daqueles anos. A sensação era  como se ver na proa de um navio olhando para um novo horizonte, aberto e iluminado pelo sol do progresso, prenúncio de toda felicidade. Às nossas costas, tínhamos a obscuridade, os tempos da repressão da mulher objeto, manipulada pelos homens e pelos seus desejos, e oprimida pelo poder da igreja que, segundo o slogan da época, via nela somente um instrumento de reprodução. Eram os anos 1970.

Pessoalmente, nunca fui uma ativista, mas minhas amigas mais queridas o eram e, embora entendesse uas razões, não posso negar que sempre me senti incomodada com essa prática que, naqueles anos, tinha se transformado numa espécie de contraceptivo moderno. De alguma forma me sentia tocada pela leveza como tudo acontecia, não porque fosse religiosa (eu não o era), ou por causa de um moralismo imposto do alto, mas simplesmente porque me parecia que a manifestação da vida fosse um fato tão extraordinariamente complexo e misterioso, que merecia, no mínimo, um pouco de temor e respeito.

Como as coisas evoluíram nos últimos quarenta anos? Tenho a impressão de que, ainda agora, o discurso sobre a vida tenha permanecido confinado entre duas barreiras ideológicas contrapostas. A defesa da vida parece ser um apanágio somente da Igreja, dos bispos, daquela parte considerada mais reacionária e retrógrada da sociedade, que continua a querer influenciar a livre escolha dos cidadãos.

Os que são pelo progresso, por outro lado, ainda que reconhecendo a dramaticidade do evento, não podem fazer outra coisa senão agir em contraposição a essa contínua ingerência obscurantista. Naturalmente, um País civilizado deve ter uma lei sobre o aborto, mas essa necessária tutela das mulheres, em um momento de fragilidade, nunca é uma vitória para ninguém.

Os dados sobre a interrupção voluntária da gravidez mostram que os principais grupos que procuram os hospitais são as mulheres estrangeiras, as adolescentes e as jovens. As razões das mulheres estrangeiras são infelizmente fácies de entender: trata-se de precariedade, medo, incerteza – razões que influenciam muito (e mesmo as mães de família italianas) a renunciar a um filho. E com essas razões uma boa política de defesa da vida poderia naturalmente concordar.

Mas e as jovens italianas? Essas filhas e netas das feministas, porque se encontram nessas condições? São meninas nascidas nos anos 1990, crescidas num mundo permissivo, onde não faltou a possibilidade de informação. É possível que não saibam como nascem as crianças? É possível que não tenham percebido que os profiláticos estão à venda em toda parte, incluídos os distribuidores automáticos noturnos? Por quais razões aceitam relações não seguras?

Elas têm consciência da extraordinária ferida para a qual vão de encontro, ou talvez pensam que, no fundo, o aborto seja um meio anticoncepcional, como qualquer outro? Se têm sorte, ok; se não, engravidam e, paciência… Não será nada além de uma chateação a mais. Alguém, por acaso, explicou a elas o que é a vida, o respeito pelo nosso corpo? Alguém disse a elas que é possível dizer não, que a felicidade não passa necessariamente através de todas as possíveis relações sexuais? Quem conhece o mundo dos adolescentes de hoje sabe que a promiscuidade é uma realidade difusa.

Se se gostam, passam a noite juntos e, daqui a uma semana, agradará um outro. Os corpos são intercambiáveis, assim como os prazeres. Como quando eram crianças colecionavam cada novo modelo de Barbie, agora do mesmo modo, colecionam, estimuladas pelo vazio que as circunda, parceiros diferentes. Naturalmente nem todas as mocinhas são assim, por sorte, mas não se pode negar que esse seja um fenômeno em crescimento constante.

Serão mais felizes, me pergunto, serão mais livres as jovens de hoje em relação a 40 anos atrás? Não me parece. As grandes batalhas para a liberação feminina parecem que infelizmente levaram as mulheres a ser apenas objetos de uma forma diferente. Não é preciso ser sociólogo nem fino pensador para entender que em nossos dias todas as mensagens relacionadas às meninas se concentram exclusivamente em seu seus corpos, e sobre a forma como podem se oferecer aos outros.

Vemos meninas de 5 anos vestidas como mocinhas e já aos 8 anos vivem num estado de semi-anorexia, aterrorizadas com o fato de não comer algo que possa ser um atentado à sua linha. É preciso ser magra, consciente de que a coisa que temos a oferecer, o que nos fará felizes ou infelizes, é somente o nosso corpo.

O florescer da cirurgia plástica não é nada além da triste confirmação dessa realidade. Parece que muitas jovens, para o seu aniversário de 18 anos, pedem retoques estéticos como presente. Um seio mais volumoso, um nariz menos proeminente, lábios mais sensuais, consertos nas orelhas de abano. O resultado dessa cirurgia de massa está já sob os nossos olhos – estamos circundados de Barbies perfeitas, todas iguais, e todas perfeitamente satisfeitas dessa igualdade, todas aparentemente disponíveis para os desejos masculinos. Parece que ninguém nunca disse a essas adolescentes que a coisa mais importante não pode ser vista com os olhos e que o amor não nasce da medida do corpo, mas de algo difícil de exprimir e que diz respeito sobretudo ao olhar.

Passamos da falsa imagem da mulher-anjo, que se realiza somente com a maternidade, à mística da promiscuidade, que estimula as meninas a acreditar que a sedução e a oferta do próprio corpo sejam as únicas vias para a realização. Quanto mais você faz sexo, mais esperta é, e mais admirada pelo grupo.

Diante da omissão da família, da igreja, da escola, a realidade educativa é dominada pela mídia e a mídia possui apenas uma lei: homologar. Mas esse lado aparentemente assim compreensível, assim frívolo – querer ser bonita ou mesmo querer mitigar os sinais do tempo – o que esconde? O corpo é a expressão da nossa unicidade e é a história das gerações das quais somos provenientes.

Aquele nariz assim importante, os dentes tortos vem de um bisavô, de uma trisavó, pessoas que tinham uma origem, uma história que, com sua origem e história, contribuíram para construir a nossa. Tornar anônimo um semblante quer dizer cancelar a ideia de que ser o ser humano é uma criatura que se exprime no tempo e que o sentido da vida é ter consciência disso. A pessoa é a unicidade de sua aparência.

A homologação imposta pela sociedade consumista – e infelizmente, mais vulgarmente machista – cancelou um pacto entre as gerações, aquela ligação que desde sempre permitiu à sociedade humana definir-se como tal. Nós somos a soma de todos os nossos antepassados, mas ao mesmo tempo somos algo de extraordinariamente novo e irrepetível. Apagar um semblante quer dizer apagar a memória. Cancelar a memória quer dizer cancelar a complexidade do ser humano.

Consumir os corpos, humilhar a força criativa da vida por causa da superficialidade e da inexperiência que dizer ser estranho à ideia da existência como caminho, quer dizer viver em um eterno presente, constantemente refém do domínio dos próprios caprichos e do desejo dos outros. Sem o sentido de tempo, não temos nem passado, nem futuro. O único horizonte que se coloca diante dos nossos olhos é aquele de um espelho no qual nos refletimos infinitas vezes, como nos labirintos de um parque de diversões.

Prosseguimos sem sentido de um lado, e de outro, vendo sempre e apenas nós mesmos, mais magros, mais gordos, mais altos, mais baixos. No início, esse giro nos faz rir, mas com o tempo, nasce a angústia. Onde estará a saída, a quem pedir ajuda? Batemos no espelho e ninguém nos responde. Somos mil, mas estamos sós”.

Referência: Il femminismo non ha liberato le donne