Outro dia comentava que me sinto fora deste mundo. Parece que estou nadando sempre contra a maré. Os braços doem de vez em quando, pois alguns valores para mim são irrenunciáveis. Talvez tenha sido por isso que não me surpreendeu uma notícia veiculada esta semana pelo respeitado British Medical Journal: um geriatra, Shane O’Hanlon, do Mercy University Hospital, na Irlanda, decidiu que, por um ano, não receberia em seu consultório representantes das indústrias farmacêuticas.

Numa carta aberta, ele conta que estava tomando um café descafeinado quando teve uma luz: seria duvidosa a ética das empresas que, para promover seus produtos, faziam uma verdadeira corte para os médicos? Viagens, encontros em hotéis luxuosos, pequenos mimos seriam capazes de influenciar a tomada de decisão sobre a melhor medicação indicada para cada paciente?

A estratégia do geriatra teve início com a recusa das visitas dos representantes. Estes, mostravam-se perplexos diante de seu comportamento. Uns insistiam meses depois. Outros, não ligavam mais. Ele ainda frequentou algumas palestras educativas, o que permitia novas tentativas de aproximação, sempre negadas. Pouco tempo depois, nos corredores do hospital, ao verem seu nome no jaleco, aqueles profissionais passaram a evitá-lo. Pouco a pouco, O’Hanlon deixou de ir aos eventos.

É claro que seus colegas começaram a perceber sua atitude. E isso foi o início dos questionamentos. Alguns pararam para pensar. Os demais, jamais se sentiram incomodados por sua decisão pessoal. Passado um ano, o médico foi suficientemente sincero para dizer que sentia falta das benesses, mas não se arrependia. A conclusão a que chegou é que é quase impossível ficar longe da propaganda dos medicamentos. Porém, ele se sentia mais livre e independente para fazer suas próprias escolhas.

Reproduzo aqui suas palavras finais:

Tornar-se mais consciente da influência das companhias farmacêuticas pode ajudar as pessoas a decidirem por si mesmas sobre como desejam estar envolvidas nisso. Não desejo impor minha opinião, mas estimular um debate. Porém, minha visão atual é a de que, no futuro, esse tipo de relação com a indústria será vista como injustificável”.

O’Hanlon não conta se voltou a receber os representantes. Talvez não. Mas o direito de discutir questões como essas, reconheçamos, é incontestável. No mínimo, nos leva àquela pergunta básica sobre justiça: diante do direito à vida de uma pessoa, qual direito deve prevalecer? A livre escolha do médico, sem a influência das indústrias farmacêuticas, ou o direito da livre concorrência e, portanto, promoção de produtos?

A resposta não requer prática lógica. O melhor medicamento é aquele que aproveita ao maior número de pessoas possível em sua relação custo-benefício. Antes, a transparência, a verdade, a livre escolha, o direito à vida do paciente. Depois, todo o resto.

Dirão que o Dr. O’Hanlon é louco. Acho que eu também sou. Mas não acredito em riqueza obtida às custas de valores contrários ao bem comum, pois ela tem prazo de validade na história da vida. Como disse, não me sinto deste mundo. O’Hanlon, só por ter pensado nisso, também não é.

Para saber mais: My year without drug reps

Relações Contaminadas, por Claudia Colucci