Houve um tempo em que o volume de minhas atividades diárias me consumia. Eu levantava às 6h00, levava as crianças à escola, fazia hidroginástica, trabalhava o dia inteiro e, duas vezes por semana, assistia às aulas da pós-graduação. Além disso, tinha que pensar na administração doméstica que incluía idealizar cardápios para a semana, para o lanche dos meninos, manter a casa funcionando à distância, atender às demandas de última hora que, quase sempre, eram os vários aniversários dos amigos da escola na hora do almoço ou nos finais do dia, sem falar do serviço de motorista que devia ser pontual na porta da natação e do balé. Não bastassem todas essas providências, eu ainda tinha que estar apresentável todos os dias, o que significava idas ao cabelereiro e algumas horas de shopping para atualização do mostruário de sapatos que se tornou meu closet. Quando olho para trás, me pergunto de onde vinha tanta energia para cumprir todas essas tarefas.

Embora saiba que não há nada de heróico nisso, pois essa é a rotina da maioria das mulheres com filhos, existe um detalhe que gostaria de ressaltar: mesmo diante da vida selvagem que levava, nunca renunciei às refeições em família. A mesa do café da manhã estava sempre pronta na véspera e, como almoçava fora de casa, o jantar era sagrado. Todos os dias, fazíamos a primeira e a última refeição juntos. Às quintas-feiras, era dia de recreio: íamos explorar os restaurantes do bairro. Como sabem, a maternidade potencializa algumas funções cerebrais e, então, eu simplesmente sentia que essa rotina representava conforto, segurança, quem sabe uma certeza de que, acontecesse o que acontecesse, estaríamos todos unidos à mesa naqueles horários e falaríamos dos pontos altos e baixos da jornada. Meus filhos ainda me recriminam por ter sido meio nazista nesse aspecto, vetando-lhes os desejados jantares diante da TV.

Mas, como sabem, a vingança é um prato que se come frio. E então a edição de fevereiro do Journal of Child Psychology and Psychiatry publicou um recente estudo sobre a importância das refeições em família, especialmente para crianças que sofrem de asma… Pesquisadores da Universidade de Illinois (EUA) concluíram que a interação familiar reforça o senso de segurança e diminui a ansiedade de separação. Baixos níveis de ansiedade é igual à melhora das funções pulmonares.

Meus filhos não tinham asma, porém o estudo enfatiza a ideia de que a família tem um papel crucial na administração das emoções das crianças, fato que se consuma com a oferta de um um ambiente que provê apoio e organização. “Crianças precisam de regularidade e previsibilidade. E quando as famílias têm dificuldade para manter rotinas, na maioria das vezes, há um custo físico e psicológico para as crianças. E se a ansiedade de separação não for tratada, ela pode se transformar em distúrbio do pânico na idade adulta”, afirma Barbara H. Fiese, diretora do Family Resilience Center, da mesma Academia.

O significado prático dessas atividades regulares  é que  as crianças  passam a ter consciência de como seus pais e irmãos reagem, o que permite a construção da certeza de que alguém estará disponível para elas, condição imprescindível para aquelas que se sentem vulneráveis. E não é só. Essas reuniões diárias provem confiança, são uma oportunidade de monitoramento das atividades dos pequenos, além de permitirem a observação da evolução de doenças crônicas e seus sintomas, bem como seu tratamento. Para crianças com asma, há ainda a possibilidade de que passem a encarar seu problema de saúde como menos ameaçador, os laços familiares se fortalecem e esses estados têm como resultado o aprimoramento da saúde.

Não adianta fugir nem mentir: todas as informações que chegam a mim nos últimos meses reforçam a ideia de que o melhor remédio para as doenças é a presença sincera e amorosa dos outros.

Para saber mais: http://www.aces.uiuc.edu/news/stories/news5082.html