Da janela de meu quarto ainda posso avistar as janelas da casa de um caro amigo, irmão escolhido que acabou de deixar o Brasil. Nesta semana nos despedimos, desejando um ao outro toda a sorte do mundo. Choramos juntos quando nos abraçamos diante do carro, lotado de malas, que o esperava com o motor ligado. A emoção não era mera expressão do pesar pela distância geográfica que ora se instala. Ela representava o adeus aos velhos sonhos, a identidade de outrora, pessoas e situações que agora são meras lembranças. Fácil sentir empatia. Coloquei em sua mão uma relíquia de Santa Rita de Cássia, antiga companheira, e sinceramente desejei-lhe felicidades. No dia seguinte, recebi um email: “Chorei todo o percurso até o aeroporto, e por quase todo o voo. Enfim, estou em terra firme. É hora de recomeçar”.

Como todos os dias aprendo mais sobre a teoria da sincronicidade, não foi surpresa que nesses dias eu tenha tido o privilégio de entrevistar John Cacioppo, professor da Universidade de Chicago. Ele estuda isolamento social e cognição. Conheci seu trabalho por meio de Louise Hawkley, neurocientista da mesma academia, quando escrevi no passado sobre amizade e saúde. Naquela ocasião, ela recomendou um dos livros dele: Loneliness – human nature and the need for social connection. Entre outras coisas, a obra sugere uma estratégia para romper com a solidão. Cacioppo usou um acrônimo simpático para dar sua receita: EASE [fácil]: E, de Expose [expor-se]; A, de Action Plan [plano de ação]; S, de Selection [seleção] e E, de Expect the best [esperar o melhor]. Interessante.

Em nossa conversa, ele explicou que sentir solidão é uma reação biológica. Trata-se de um sinal que nos ajuda a corrigir algo que necessitamos para a nossa sobrevivência: relações de qualidade. Segundo Cacioppo, sentir-se só pode ser comparado à fome, sede ou dor. “É um sintoma de que algo está em desequilíbrio e precisa ser corrigido. Não sobrevivemos bem sozinhos, precisamos de conexão”.

Já sabemos que somos capazes de identificar sinais emitidos pelos cérebros dos outros. Quanto mais uma pessoa é sincera e expressiva em seus sentimentos, maior será a possibilidade do outro entender como ela se sente. Isso gera simpatia, empatia, e também prova que precisamos dos outros para nos sentirmos parte do todo. A correspondência desse comportamento nos ajuda a viver. Melhor e mais felizes.

Ok. Entendi. Mas se estar conectado com os outros é uma necessidade natural, que conta com a ajuda dos neurônios para se concretizar, por que existem tantas pessoas procurando o suprimento dessa carência, sem nunca encontrá-la? Existiria algo nesse processo que bloqueia a sincronia entre as pessoas? Bem, talvez seja uma blindagem energética. Nããããã… Estou viajando! O que poderia ser? Escrevi a Cacioppo. Ele me mandou um LOL – “Estamos trabalhando para encontrar a resposta à sua pergunta, Cristina. Mantenha-se conectada”.

Pensei em meu irmão, speaking words of wisdom para me consolar. Antes, quando abria a janela do quarto, sabia que ali, do outro lado da rua, vivia alguém que sabia exatamente como me sentia. Nos dias mais difíceis, nunca estive realmente só. Sabia que tinha com quem contar. Hoje, ele é a prova real de que a conexão é possível. E se é verdade que vibramos numa mesma frequência, imitando os movimentos dos outros e da natureza, ela permanece.

Seja lá onde estivermos, ao primeiro acorde de Let it Be, teremos essa certeza.