Há exatamente um ano escrevi um post intitulado – A espiritualidade nos ajuda a viver. Parece incrível que passados 365 dias, eu tenha recebido um grande presente das mãos da Profa. Sissy Fontes, coordenadora do pioneiro Curso de Especialização em Teorias e Técnicas para Cuidados Integrativos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp): participar da aula magna do módulo Saúde&Espiritualidade.

Os convidados eram Hélio Penna Guimarães, cardiologista e Stephen Paul Adler, psicanalista senior. O tema central da conversa com Penna foi – como “receitar” ao paciente um remédio para a alma que o ajude a enfrentar a doença? Apesar das mais recentes pesquisas sobre a influência benéfica da religiosidade ou espiritualidade na saúde das pessoas, ainda é difícil para o médico abordar um paciente com esse tipo de proposta. Qual o valor mais importante, a ética ou o direito à saúde do corpo e da alma (indivíduo) diante de nós? Existe uma técnica útil e hábil capaz de evitar a acusação de que esses profissionais estão praticando alguma espécie de proselitismo?

Na segunda parte do encontro, obtive muitas respostas para as minhas inquietações. É que meu processo de aprendizado começa primeiro com o sentir. Eu sinto, depois o mundo concreto se manifesta. Então, a crise atual: o amor é o que realmente importa em nossas vidas? Convencida disso, minha bússola sempre indicou para esse ponto cardeal. E esse tem sido o meu caminho. Mas nos últimos tempos me perdi repetidamente. A ideia de me render aos novos GPSs não me agradava. Entretanto, a velha bússola perdera seu campo magnético.

Chegada a hora de Adler, ele inicia a aula com o tilintar de um sino. É o chamado para o presente, a única coisa com a qual temos que lidar. Na minha cabeça o blem-blem teve tradução simultânea para o latim Hic et nunc, Hic et nunc [Aqui e agora]… Ao longo de duas horas ouvimos suas máximas:

“Tudo se resume nas relações e é através delas que percebemos Deus; a religião é a forma não evoluída para enxergarmos a nós e ao universo; a vida é ter um ao outro; o universo está sempre trabalhando a nosso favor; a vida é perfeita dentro de suas imperfeições; nada acontece para você, mas por você; tudo se resume na nossa capacidade de dar e receber amor; na vida espiritual (que não é religião, necessariamente) só existem alegrias”.

Me emocionei mil vezes. O palestrante também. É que ele, estudioso e tendo vivido mais tempo do que eu, encontrou sua própria sabedoria, reconhecida por ele como uma capacidade humana que se manifesta espontaneamente, sem intervenções racionais. Coincidência ou não, minha leitura do momento é o místico Thomas Merton: “A vida é simples assim. Estamos vivendo num mundo que é absolutamente transparente e divino e ele está brilhando todo o tempo. E isso não é uma boa história ou uma fábula. Isso é a verdade”.

Merton diz que, se fossemos capazes de ver a beleza do coração das pessoas e quem elas realmente são, se fossemos capazes de ver em seus olhos a personificação do divino, (o que é impossível enxergar por meio do conhecimento), provavelmente não existiriam guerras, ódio, ganância e crueldade. O único problema, ele completa, “É que correríamos o risco de cair de joelhos para adorar o outro”. O divino, então, é essa consciência amorosa. Nossa origem e essência. As pessoas são a expressão do amor. Sabe aquela história de que Deus é onipresente? Sim, porque ele está em todas as pessoas.

A medicina é a arte de curar e prevenir doenças. Arte nada mais é do que a representação do significado interno das coisas. Adler disse que os médicos estão ali para (re) tratar os doentes, mas todos os doentes, de alguma forma, também (re) tratam os médicos (tudo se resume nas relações). O  que acontece entre esses dois seres é que eles podem vir a enxergar seus próprios significados internos (!!!!!). “Pois o amor não deve só procurar a verdade na vida daqueles que nos cercam; ele deve encontrá-la aí. Mas quando encontramos a verdade que modela a nossa vida, encontramos mais do que uma ideia. Encontramos uma PESSOA”, diz Merton.

Sinto que, talvez, a prática da arte médica integral não exige protocolos. Parece que dar significado ao outro é uma capacidade inata, uma nossa parte divina que pode ser imediatamente acessada e correspondida quando necessário. Na verdade,essa prática requer apenas a presença amorosa do outro.

Transcrevo novamente o oportuno comentário de um leitor deste Blog, por sua absoluta coerência:

Un viejo doctor decía: Después de treinta años de ejercer la medicina y recetar muchos remedios, puedo decir que la mayoría de las enfermedades ocurren por falta de amor. Y si no resulta?, le preguntaron. Entonces duplique la dosis, respondió.

Para “sentir” mais: Sugiro que ouçam uma música que eu adoro e que, para mim, expressa verdadeiramente a essência de cada um de nós: Come sei veramente, de Giovanni Allevi, jovem pianista italiano. O artista diz que a música expressa a forma como ele acha que Deus nos vê, na essência.