Recebi há pouco uma carta de uma pessoa que sofre com o vitiligo. Ela se dizia desanimada e cética diante dos tantos tratamentos e dos poucos resultados. Esta seria uma última tentativa de compreender como a naturopatia pode agir diante dessa patologia. Eis aqui minhas considerações.

O vitiligo é um distúrbio que acomete a pele, clareando algumas áreas progressivamente. As partes do corpo mais frequentemente afetadas são as mãos, os pés, rosto, pernas, cotovelo e genitais. Entretanto, ele pode se estender com o tempo, seja ampliando suas zonas, seja atacando novas áreas. Não se trata de uma doença contagiosa nem grave. Mas para quem sofre com ela (cerca de uma pessoa em cada dez), as recaídas psicológicas podem ser o fator desencadeante, como em geral acontece em todos os distúrbios crônicos da pele.

Patologia do tipo autoimune, ela se desenvolve a partir de uma predisposição genética. Essa, ao menos, é a hipótese mais aceita. Além disso, é fato que muitas pessoas com a doença apresentem, contemporaneamente, outros distúrbios de natureza autoimune. O resultado é que os melanócitos – as células da pele que produzem e acumulam melanina (o pigmento escuro que dá cor à pele, aos cabelos e pelos) – são agredidos e destruídos pelo sistema imunitário, que não mais o reconhecem como parte do organismo, mas algo estranho do qual se defender.

Por outro lado, parece que o vitiligo tem papel não indiferente à oxidação, principalmente pela presença de um excesso de peróxido de hidrogênio (mais conhecido como água oxigenada) no nível cutâneo. Essa substância pertence às ROS (espécies reativas do oxigênio), especialmente nocivas às estruturas celulares.

Assim, o tratamento naturopático do vitiligo é análogo aos praticados nas outras patologias com características autoimunes, como a psoríase. Embora possa parecer estranho, enquanto a medicina classifica milhares de doenças, prevendo para cada uma delas uma terapia farmacológica específica (e tem como resultado, entre outras coisas, o fato de que basta sofrer de três doenças crônicas diferentes para se ver entupido com uma miríade de medicamentos para o resto da vida, como acontece com muitos idosos), a naturopatia, que não atua sobre a doença, acredita que na base da perda do equilíbrio psicofísico e da saúde interagem um número limitado de fatores. A intervenção sobre eles, sob o ponto de vista causal, dá oportunidade ao organismo para que ele reaja com as próprias potencialidades fisiológicas de auto-regulação e autocura em toda a sua plenitude.

E também para o vitiligo, a naturopatia visa eliminar ou minimizar tudo o que possa alterar o funcionamento normal do sistema imunitário ou, mais corretamente, do sistema bio-psico-neuro-endócrino-imunitário, que é um modo mais atual de se considerar o terreno individual, atuando com um tratamento complexo que contemple as diversas fontes de impacto:

Alimentação: preocupando-se em individuar ou gerenciar prováveis intolerâncias alimentares (o fato de que operações cirúrgicas e traumas de diversos tipos sejam circunstâncias que notadamente podem desencadear o vitiligo é uma outra confirmação da validade da hipótese imunológica; e também aquela oxidativa, porque esses mesmos eventos produzem também estresses oxidativos cutâneos), bem como evitar alimentos e suas formas de consumo que possam dar suporte a inflamações crônicas do corpo, ainda que em baixos níveis;

microrganismos: como aqueles que são abundantes em nosso intestino e que muitas vezes levam a um desequilíbrio da flora intestinal (disbiose);

estresse: que é também reconhecido pela medicina como causa de ativação do vitiligo, bem como mecanismo capaz de sustentá-lo;

excesso de estrógenos: conhecido fator de alteração da resposta imune, confirmação indireta do fato de que as mulheres sejam mais acometidas por doenças autoimunes do que os homens (a proporção é de 9 para 1), sobretudo na idade fértil, isto é, no período em que a produção de estrógenos atinge seus índices máximos;

intolerância alimentar: a correta alimentação (que seja capaz de controlar principalmente os picos de insulina, hormônio que promove inflamações), potencializa o tratamento naturopático do intestino, dos aspectos psico-emotivos e nervosos, reequilíbrio dos estrógenos, consumo de integradores naturais e fitoterápicos de efeito imunomoduladores, que são, ao menos em tese, os passos necessários a serem cumpridos para um percurso de equilíbrio naturopático.;

contato com subtâncias químicas: é necessário evitar, tanto quanto seja possível, o contato com químicas de vários tipos (entre elas as contidas nas tintas para os cabelos) que podem desencadear ou piorar o vitiligo;

controle do peróxido de hidrogênio em excesso: revela-se útil o emprego de minerais e vitaminas antioxidantes. Além da clássica e sempre válida vitamina C (melhor ainda se associada aos bioflavonóides), E e o betacaroteno, é oportuna a suplementação de glutationa, utilizada por uma importante enzima antioxidante do organismo, a glutationa perixodase, para eliminar o peróxido de hidrogênio, que se transforma em oxigênio simples e água (uma outra enzima, a catalase é pouco eficiente para quem sofre com o vitiligo, por isso se verifica o acúmulo de água oxigenada no nível cutâneo). Para funcionar, a glutationa precisa de um mineral específico, o selênio, que é também um ótimo antioxidante.

controle de problemas endocrinológicos: há ainda alguma relação do vitiligo com o mau funcionamento da tireoide. Por isso, devemos considerar o uso do iodo (oligoelemento). Trata-se de um interessante regulador das funções da tireoide, seja na sua tendência ao hipotiroidismo como no hipertiroidismo, e sobre a qual age de modo favorável na adaptação alimentar mencionada.

Existem, enfim, alguns remédios naturais específicos, que podem ser úteis. Porém, penso que um tratamento causalístico que busca o reequilíbrio individual, como acima descrito, seja mais interessante.

Entre esses medicamentos destaco os aminoácidos como a L-tirosina, da qual deriva a melanina, ou mesmo a L-fenilalanina, que o organismo transforma em tirosina, podem facilitar a repigmentação da pele. Algumas vitaminas do complexo-B, em associação à exposição solar se demonstraram eficazes para a melhora do problema: a vitamina B12 ( cianocobalamina), a B9 (ácido fólico) e o PABA (ácido paraminobenzoico ou vitamaina B10, que na realidade é uma não-vitamina.

No rol dos fitoterápicos, a Gingko Biloba é provavelmente a mais interessante – estudos científicos evidenciaram que ela é útil à promoção da repigmentação, que em algumas pessoas foi total, principalmente nas áreas brancas que não eram ainda de grande extensão. A Ginkgo, na verdade, é um potente antioxidante, um notável antiinflamatório e tem uma ação anti-estresse. Outro recente estudo inseriu entre os remédios vegetais úteis para a doença a cúrcuma (Curcuma longa). A confirmação é bem vinda, mas os efeitos antioxidantes e antiinflamatórios dos curcuminoides eram já bem conhecidos e essa especiaria é comumente utilizada em todas as necessidades de contenção do estresse oxidativo e até para melhorar o humor.

A pimenta negra (Piper longum), em especial um seu determinado princípio ativo, a piperina, parece estimular a produção de melanina por via tópica, ajudando a escurecer as áreas sem pigmentação em tempo relativamente breve. Mas, como disse, o vitiligo é bem mais do que um problema cosmético, e a lógica, ao menos na naturopatia, é agir sobre a causa do desequilíbrio.

Tudo isso sem contemplar os tantos remédios vegetais usados em outras culturas tradicionais como a Picrorhiza kurroa, utilizada pelos ayurvedas. No ocidente as propriedades dessa planta só são conhecidas para as hepatites e mais em geral para as doenças do fígado. No caso da picrorhiza, é verossímil que na base de seus possíveis efeitos sobre o vitiligo estejam relacionados às suas notáveis propriedades antioxidantes (protetoras das reservas de glutationa) e antiinflamatórias.

Espero de ter sido capaz de trazer alguma esperança para quem se sente cético diante da própria doença.

GUEST BLOGGER: Luca Avoledo, Doutor em Ciências Naturais, naturopata, iridólogo e especialista em ecologia do corpo, nutrição e saúde natural. Para saber mais:

http://www.studiodinaturopatia.it/prima.html

http://guide.supereva.it/naturopatia

Confira também pesquisa brasileira sobre predisposição genética para o vitiligo:

http://www.nature.com/jid/journal/vaop/ncurrent/abs/jid201034a.html