Esta semana fui ao cinema ver George Clooney no excelente Up in the air (Amor nas Alturas). Achei que seria uma comediazinha romântica despretensiosa. Mas o jovem diretor Jason Reitman (June, Obrigado por fumar) me surpreendeu. Clooney é um executivo especializado em restruturar empresas e, assim, viaja por todo país para demitir funcionários. Alguns dos atores, na verdade, eram pessoas comuns que tinham acabado de perder o emprego.A maioria delas, profissionais com mais de 20 anos de casa. O resultado foi surpreendente, pois as falas desses empregados não eram decoradas. A câmera de Reitman apenas registrou os verdadeiros sentimentos desses que poderiam ser algum entre nós.  O cineasta já ganhou o Globo de Ouro. E fez por merecer.

“Perder o emprego é como perder a vida”, comentou um dos atores-demitidos à mídia americana.

Eu já tinha me interessado sobre esse tema no passado, porque o trabalho sempre teve uma grande importância para mim. Provavelmente porque aprendi que o trabalho dignifica, ou porque sempre ouvi dizer que o homem é aquilo que faz. Perder o emprego – e, portanto, a própria identidade – é uma das experiências mais traumáticas e estressantes que uma pessoa pode viver.

Há quase dois anos entrevistei um psicólogo americano, James Pennebaker, da Universidade do Texas. Pesquisador, ele se dedica à escrita. Para ele, escrever sobre pensamentos e sensações ligados a uma demissão inesperada, ajuda a superar sentimentos negativos e pode diminuir o tempo de espera para uma recolocação. Ele me explicou que as pessoas tendem a reter ou inibir sensações dolorosas. E a energia dispendida para esse fim enfraquece as defesas imunológicas, as atividades cardíaca e vascular, bem como o funcionamento bioquímico do sistema cerebral e nervoso.

Assim, quando escrevemos sobre situações traumáticas, nosso corpo responde, diminuindo o estresse biológico e psicológico. “O que acontece é que escrever encoraja as pessoas a conhecerem melhor a si mesmas, seus mundos e sentimentos, e isso exerce um forte poder sobre a atitude da pessoa diante da vida e dos próprios problemas”, disse o psicólogo.

Executivos escritores

Entusiasmada com os resultados obtidos por Pennebaker, a proprietária de uma empresa de recolocação, decidiu contratá-lo para ajudar determinado grupo de engenheiros de uma mesma empresa que, com idade média de 50 anos, foram primeiro demitidos;  depois, escoltados às suas mesas por um segurança, que ficou vigiando enquanto eles juntavam seus pertences. Todos foram levados à portaria e obrigados a entregar suas chaves e seus crachás.

Durante o encontro na agência, a maioria se sentia amargurada e hostil diante dos fatos e da proposta de escrever sobre o que lhes acontecera. Mas a perspectiva de aumentar as possibilidades de encontrar um novo emprego foi o suficiente para que aceitassem a participar do processo.

O resultado foi surpreendente: os executivos que escreveram sobre os fatos traumáticos ligados ao trabalho, foram extremamente abertos e honestos em seus relatos. Os temas desenvolvidos descreviam a “humilhação e o ultraje de perder o emprego… os problemas conjugais, doenças e morte, dinheiro e temores em relação ao futuro”, relatou Pennebaker.

Após três meses do estudo realizado, 27% dos participantes do grupo que escreveu conseguiu um novo emprego, enquanto somente 5% dos restantes obteve sucesso. Nos meses seguintes, 53% dos “escritores” já estavam empregados, contra somente 18% dos demais.

Raiva

A que se atribui um resultado tão expressivo? A resposta está na raiva. Durante as primeiras entrevistas na agência, os candidatos não conseguiam disfarçar a raiva que sentiam do ex-empregador. “Chegamos a desconfiar que, quando iam a uma entrevista para conseguir um novo emprego, muitos contavam como haviam sido tratados de forma desleal pelo empregador anterior. E isso, é claro, acabava tirando-os do páreo por um novo emprego”, explicou o especialista.

Quem escreveu sobre seus sentimentos e pensamentos conseguiu lidar melhor com a extrema raiva que sentia e, nas entrevistas, se mostrava menos ofendido. É possível que, para os novos entrevistadores, esses profissionais “deram a impressão de ser candidatos menos hostis e mais promissores”, acrescentou Pennebaker.

Se fosse no Brasil, esse efeito chamaria Noite Ilustrada: Reconhece a queda e não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima!

P.S. (O cinema é o máximo, porque  reproduz na tela a vida de pessoas comuns, gente que poderia ser nosso vizinho, alguém com quem dividimos o banco no Metrô. Jamais saberíamos de suas dificuldades e angústias, amores e ilusões… E ainda serve de inspiração para um post como esse!)

Veja o trailer do filme : http://www.youtube.com/watch?v=e7k6FwXJhNk