Imaginem um jovem nascido na cidade de Colônia (Alemanha), na década de 1920. Seus interesses são teologia, filosofia e pedagogia. Todo esse senso humanístico o levou para a África do Sul, como missionário católico. Seu objetivo era ensinar crianças e jovens. Durante anos conviveu entre tribos, observando culturas completamente estranhas à sua. Um dia, percebeu que, apesar de ser professor, ele é quem tinha aprendido muito. Sobre a vida e sobre ele mesmo. Largou o sacerdócio, casou-se e desenvolveu uma terapia conhecida como Constelações Familiares (CF). Com mais de 80 anos, Bert Hellinger ainda viaja pelo mundo cumprindo o seu destino – ensinar a lição de que o  amor é o fio que interliga todos os seres humanos numa rede infinita.

A terapia de Hellinger se inspirou no trabalho de Virginia Satir, psicoterapeuta americana conhecida por seu notável trabalho sobre terapias familiares e constelação sistêmica; não tem fundamento teórico, e se baseia na observação prática (fenomenológica) de que toda relação, seja ela pessoal, profissional ou familiar, possui regras ocultas baseadas em valores como respeito, lealdade, gratidão etc. que, se forem quebradas, podem causar o que conhecemos como problemas.

Segundo Hellinger, uma das principais causas da discórdia e da doença se esconde na dinâmica que existe em nossas famílias. E isso não é fácil de ser visualizado. O objetivo de sua terapia é liberar as tensões existentes entre as pessoas e determinadas situações. As CF oferecem uma oportunidade de lidar com elas e seus efeitos, modificando-os. Pode ser praticada em grupo ou individualmente.

Durante as sessões, o paciente é estimulado a tomar contato com a sabedoria e energia ancestrais de toda humanidade. O propósito é permitir a exteriorização dos sentimentos e as soluções de cura e paz, rodeado pela família. Na prática, há um acerto de contas com um pai ou mãe que não foram aquilo que gostaríamos que tivessem sido, por exemplo. O trabalho pressupõe que olhemos para essas pessoas e seus antepassados e sintamos toda a carga do destino vivenciado por eles. O resultado é surpreendente. Somos capazes de ver seres humanos. E então fica mais fácil manifestar nosso respeito, nosso reconhecimento pelo maior bem que nos deram: a vida. Enfim, conseguimos dar a cada um o lugar que a eles pertence em nossa linha hereditária.

Outro exemplo: um problema relacionado à dificuldade de engravidar. O terapeuta pedirá  à paciente que entre em contato com as histórias das mulheres de sua família. É muito provável que alguma delas tenha tido um filho natimorto ou abortos dos quais ninguém sequer lembrava. Se a paciente de alguma maneira tomou conhecimento desses fatos na infância, é possível que tenha a crença de que ter filhos não é seguro. O trabalho terapêutico é então fazê-la tomar contato com esse sentimento, desvencilhando-se da dor ancestral para que ela fique em seu devido lugar: no passado. A lei familiar da lealdade não é infringida porque se deseja ter uma gravidez feliz. O ritual termina com a reverência por aquela vida que trouxe sua contribuição à rede familiar. Esse caso explica o padrão de sofrimento que se repete em muitas famílias.

As conclusões de Hellinger me fazem pensar em Fritjof Capra e na física quântica. Tudo faz parte de tudo. E as famílias são parte de uma coisa maior, ou “uma grande alma” que nos une. Ou seria Jung com seu inconsciente coletivo? Ter consciência desses fenômenos, permite que aqui e agora escolhamos, entre tantas possibilidades, aquela que nos permite acertar o que esteve errado: a dor causada por aqueles bebês pode estar conectada ao que hoje se vê como obstáculo. Através das CF, essa relação vem à luz, e a solução é a liberação desse embaraço familiar.

Mas quem é que se importa hoje com as relações familiares, sociais, interpessoais? O que importa é o mercado e os produtos que levam à satisfação dos prazeres individuais. Parece até que o homem não vale mais como Ser. Terapias como as de Hellinger são um sinal de alerta sobre a importância das relações em nossas vidas, não porque são as únicas fontes seguras de paz e conforto, mas porque elas, na verdade, são um processo que possibilita um aprendizado contínuo. Sobre os outros, sobre nós mesmos e no turbilhão dos inúmeros obstáculos que vão surgindo.  O fato é que a “Experiência de viver requer que desenvolvamos nossa habilidade na administração de conflitos porque estes são inevitáveis”. Hellinger acena com uma saída para solucioná-los.

Para saber mais, faça o teste interativo de Constelações Familiares

Veja o video da BBC: The ghost in your genes