O calendário da Saúde comemora amanhã, 1o. de dezembro, mais um Dia Mundial de Luta contra a Aids. O tema da campanha deste ano é Viver com Aids é possível, com preconceito não! Fernando Pessoa ecoou em meus ouvidos. Navegar é preciso, viver não é preciso. Na poesia, os grandes navegantes portugueses, que em seu tempo, eram os mais destemidos, renunciavam o modelo de vida comum para se aventurar em mares desconhecidos. Pessoa, então, parafraseando o lema dos marinheiros (inspirados em Pompeu, general romano), evocou sua imperiosa necessidade de criar. Só assim sentia que a vida valia a pena a ser vivida. A lenha desse fogo seria o próprio corpo e a alma.

Então pensei nas pessoas que conheci que já se foram desta vida por causa da Aids. Alguns eram seres brilhantes e, aparentemente,  cheios de amor pela vida. Outros, eram atormentados pela inquietação da vida intensa que viviam ou gostariam de viver.  Nos tempos em que a doença era vista como uma peste medieval, essas pessoas não pensaram no valor de suas vidas. Um lampejo de sabedoria, e elas teriam entendido que, para se tornarem grandes, não eram necessários todos os malabarismos aos quais se submeteram.  O segredo de bem viver é apenas viver. E isso requer muita responsabilidade.  Por nós mesmos, em primeiro lugar. Depois, em relação aos outros.

Os dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), após quase 30 anos, revelam uma queda de 17% nos números de infecções em todo o mundo, contando também 33 milhões de pessoas convivendo com a doença. Porém, em termos de tratamento, pouco se evoluiu. Embora já existam progressos em relação a uma vacina, ela ainda não garante nenhuma proteção. Drogas preventivas têm o inconveniente dos efeitos colaterais.

Quanto à realidade dos jovens nascidos na década de 1980, em plena eclosão da Aids, sexo com proteção é a regra, mas apesar disso,continuam pecando por omissão. Penso que esse comportamento tem mais a ver com a mecânica de ser humano do que com a falta de informação. As circunstâncias da vida mudam, os tempos mudam, seres humanos não. Em meus anos de adolescência eu me perguntava porque jovenzinhas engravidavam se podiam tomar pílula, usar camisinha ou abster-se de relações sexuais. Hoje a pergunta é, porque jovens ainda podem ser contaminados pelo vírus da Aids se a única ação que lhes cabe é se protegerem de uma maneira simples?

A resposta é que antes, como agora, é preciso ter responsabilidade. E isso tem mais a ver com educação moral do que com saúde. E amor próprio. O que vejo é que a medicina está deixando de ser uma ciência isolada, presa na torre de cristal que fez e faz dela tão poderosa na atividade de curar. Hoje, médicos têm se vergado à realidade de que não podem fazer tudo sozinhos, dependentes que são de boas estruturas, dinheiro, educação, comunicação etc..

A saúde é uma garantia constitucional que depende muito da ação isolada de cada um de nós. Pensar sobre quem somos e sobre o que desejamos desta vida seria uma boa contribuição pessoal para que as doenças (incluindo a Aids) encontrassem soluções menos onerosas econômica e afetivamente e, principalmente, menos dependente de políticas públicas e convênios médicos. Entretanto, autoconhecimento não se aprende nas escolas e, na maioria das vezes, não é uma habilidade estimulada dentro de nossas casas.

A lenha do fogo que nos leva a uma vida mais saudável talvez seja mesmo apenas viver, mas com responsabilidade.

Para saber mais: http://www.todoscontraopreconceito.com.br/