Perceber que escolher a área da saúde é assinar um contrato de serviço à humanidade, não é tarefa fácil. Compreender que o Outro à sua frente é quem determina as escolhas é ainda mais difícil. Entender que atuar preocupado em manter a dignidade do outro, a partir do reconhecimento de sua própria fragilidade, implica em exercitar a espiritualidade e a sensibilidade.

No entanto, a vida e a experiência nos ensinam que não é tão difícil assim reconhecer a fragilidade humana bilateral – terapeuta/clientela: os frutos são doces quando se percebe que somos tão frágeis quanto aquele que está ali ao nosso lado ou à frente. O filósofo Lévinas nos alerta que é no face-a-face humano que se irrompe todo o sentido. Diante do rosto do Outro, o sujeito se descobre responsável. Assim é a relação com o outro – nos traz senso de responsabilidade, de respeito à dignidade e identidade que este encerra.

O profissional da saúde necessita compreender que a fragilidade humana não é unilateral. Ele é tão frágil em sua humanidade quanto aquele que está ao seu lado (sua equipe) e à sua frente (o paciente/família/comunidade). Esse é um ponto fundamental para a reflexão diária sobre a atuação daquele que escolhe esta área, para que a relação dual seja sinérgica e terapêutica bilateralmente, em prol da humanização do cuidado e do cuidar com qualidade.

Desde as primeiras aulas nos cursos da área da saúde somos bombardeados com informações que passam a mensagem de que temos que tomar decisões pelo paciente. Tais atitudes acadêmicas acabam acarretando uma onipotência que cega e ensurdece. Assim, perde-se a capacidade de enxergar e ouvir o que aquele ser humano à nossa frente tem a nos comunicar.

Essa onipotência, que parece nos fortalecer, acaba por fragilizar ainda mais a situação do outro (paciente/família/comunidade), infantilizando-o, tornando-o incapaz aos olhos do profissional, gerando negação da nossa própria fragilidade, que pode ser traduzida como frieza e anestesia emocionais, causando a coisificação do outro, e atitudes desumanas para com ele. Essa onipotência do pensamento decorre da incapacidade de reconhecer o outro, caracterizando a permanência no estado narcísico, impossibilitando o desenvolvimento de uma relação humanizada. O Outro passa a ser visto como uma espécie inferior, incapaz de possuir identidade própria, autonomia e dignidade.

E quem é esse que denominamos “o Próximo”? O Próximo, não é somente aquele que necessita de ajuda, independentemente da posição social. Estar frágil pode ser uma condição que atinge qualquer ser humano. Portanto, quem escolhe cuidar, age favorecendo uma pessoa que não conhece, mas que é conhecida pela sua natureza – a natureza humana. Cuidar, portanto, é intrínseco ao seu fazer e, assim, a relação para com os seres humanos de quem cuidamos é de igualdade. Há apenas uma diferença quanto aos papéis a serem desempenhados: o de profissional e o de leigo, mas como seres humanos, somos iguais. Este é um fato que não deve ser negado nem esquecido para que seja possível crescer como humano, partindo do reconhecimento de nossa própria fragilidade tornando-nos assim, cuidadores do outro e de nós mesmos.

A unilateralidade, quando se fala em qualidade de vida, seria injusta! Tanto aquele que recebe quanto aquele que oferece um serviço, necessitam de qualidade de vida para que essa troca seja prazerosa e eficiente.

Minha família é a humanidade e o mundo é meu país. Auto-aceitação e auto-conhecimento.

Quando o ser humano explora sua própria fragilidade, acaba descobrindo os tesouros internos que possui. Sim, todo ser humano os possui e, em grande parte, eles se desenvolvem no contato com os outros seres humanos. Aprendi muito com meus colegas e com os pacientes. Uma das descobertas que fiz como enfermeira: pessoas que cuidei e que faleceram me concederam o privilégio de conhecê-las: mesmo que tenham ido embora, eu pude aprender sobre mim mesma e sobre os seres humanos, trocando sentimentos e momentos ímpares com eles.

A cada cuidado prestado, a cada conforto proporcionado, a cada história de vida que ouvi, cresci como ser humano e percebi que os verdadeiros sábios não estão necessariamente nos bancos das universidades, mas em pessoas que são simplesmente elas mesmas, sem o desgaste físico e emocional causados pela tentativa de fingir ser alguém diferente.

Ao observar o processo saúde-doença, percebi que o sofrimento acaba trazendo à tona o ser humano real e palpável que há dentro de cada um, bem como o quanto todo indivíduo é interessante quando deixa cair suas máscaras!

Resolvi que não quero esperar estar doente ou à beira da morte para descobrir meus valores, meu tesouro interno e ser mais feliz com o que sou. Quando o ser humano descobre o potencial que possui, passa a se sentir melhor em relação ao mundo à volta e a apreciá-lo. Nada como sentir o gosto da comida comendo devagar e com prazer, ou ouvir atentamente a pessoa à sua frente e aprender com ela. Nada como escutar uma música que se gosta, percebendo cada acorde e nuance que faz dela inesquecível!

Há uma expressão norte-americana que considero interessante e que se refere à descoberta de nossa própria fragilidade e do direito de se poder sentir: “have a life”! Viver é um presente. Viver sendo nós mesmos, conscientes de que somos frágeis e temos direito a isso é um grande presente! Descubra-se! Sinta-se! Não tenha medo de seus sentimentos. Explore-os!

Cuidar de si mesmo em relação aos sentimentos está longe da inverdade que por vezes ouço pelos hospitais: “Você tem que ficar frio, não se envolver”. Que pena… pois quem “fica frio e não se envolve” está morto em vida, que é uma sina muito pior que a morte física. É claro que não vamos morrer todo dia pelo outro, ficar sem dormir todas as noites pensando em nossos pacientes e nossa fragilidade do ponto de vista daquilo que consideramos perigoso, danoso ou fraqueza. Porém, somente ao explorarmos nossos sentimentos em relação ao sofrimento do outro e o tratarmos a partir dessa constatação com dignidade, saindo do plantão com a deliciosa consciência do dever cumprido como seres humanos, o restante do dia e da vida será maravilhoso! Você foi e é humano! Que coisa boa! Que realização frente a um mundo tão carente de ações positivas que tanto criticamos e que muitas vezes não atuamos para melhorar.

Quer oportunidade melhor para iniciar essa mudança do que começar por você mesmo, em suas atitudes mais próximas e isentas de máscaras para com seus pacientes e colegas de equipe?

Por fim, não se esqueça que bom humor faz a vida melhor para qualquer pessoa. Pessimismo é algo que nos afunda. Por vezes é necessário até mesmo rir de nós mesmos para que percebamos que ansiedade, tomar atitudes impensadas e intempestivas é mais nocivo que benéfico. Quantas vezes nos precipitamos, e ao repensarmos a situação caímos na risada e dizemos: “Como é que eu pude fazer isso!?” Caso tenhamos a capacidade de rir dessas situações, ainda há esperança de não entrarmos no estresse absoluto, podendo enfrentar com maior desenvoltura situações mais complicadas.

A fragilidade não é fraqueza. É força, pois ela nos torna mais conscientes daquilo que precisamos melhorar em nós mesmos ou evitar fazer ao outro porque sabemos as consequências do que nos traz a dor, o sofrimento, a angústia e assim por diante.

Auto-cuidar-se, reconhecendo sua fragilidade, começa por aí: perceber que você é um ser humano com sentimentos, capaz de enxergar o mundo à sua volta e percebê-lo como um todo e não como algo fragmentado ou voltado a um único foco. Essa é uma visão limitada e deve ser evitada ou poderá incorrer na mesmice e numa vida sem cor, igual, sem emoções, vazia.

Boas descobertas!

Guest Blogger: Profa. Dra. Ana Cristina de Sá é enfermeira especializada em Toque Terapêutico pelo método Krieger/Kunz, psicóloga, pedagoga, Mestre e Doutora em Enfermagem pela Universidade de São Paulo, Professor-Doutor do Centro Universitário São Camilo.

Para saber mais: Toque terapêutico