532920868_7f818f72f3Cena 1 Uma jovem assiste a um documentário sobre  o quanto, em dinheiro, as afro-americanas gastam para comprar perucas feitas com cabelos de indianas. Estas, religiosas, oferecem as madeixas virgens como prenda em troca de bençãos divinas e se recusam a acreditar que fazem parte de um negócio altamente rentoso, mas do qual jamais usufruem. Foi assim que deparando-se com uma discussão sobre a identidade feminina da mulher negra, a jovem disse: acho que é por isso que não me vejo morando no Brasil no futuro. Enquanto nos EUA se discutem valores como esses, nós aqui ainda estamos pensando se as crianças devem ter acesso à educação, à comida e a uma vida digna onde mendicar pelas ruas não seja a única opção.

Cena 2 – Uma jovem médica confessa ter passado por uma forte crise de ideais quando, trabalhando na periferia de São Paulo se deparou com os seguintes desafios: instruindo uma paciente sobre como devia manter a casa mais limpa por causa da renite, recebeu como resposta que ela o fazia, mas o chão de sua casa era feito de terra-batida. Após ter feito o diagnóstico  e indicado o tratamento em outro caso, a resposta da doente foi – não posso comprar o remédio, ele não consta da lista daqueles disponíveis na rede pública para doação. Outra dificuldade encontrada foi a comunicação com os pacientes. Durante a anamnese uma resposta podia ser completamente estranha à pergunta formulada, prejudicando o resultado do trabalho. A pergunta que não encontrava resposta era – como, então, realizar o ideal da medicina, após tantos anos de estudos, quando os destinatários desse conhecimento não possuem as condições mínimas de educação, saneamento básico, cidadania?

Cena 3 Segundo levantamento realizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) a expectativa de vida na África é de 30 anos. Na Nigéria, especificamente, esse tempo sobe para 47,1. É que lá, as camas de hospital mantém-se elevadas por cadeiras, pacientes com doenças cardíacas contam com os práticos em vudus, os exames de raio-x são visualizados em janelas, equipamentos doados aos hospitais explodem por problemas de instalação e falta de técnicos e, assim, alguns dos habitantes locais sobrevivem à malária e à AIDS.

Enquanto escrevo sinto uma perplexidade tremenda, pois constato que Caetano Veloso estava enganado: não é o Haiti que é aqui, é a Nigéria. A diferença, talvez, esteja no fato de que alguns loucos como o Dr. Seyi Oyesola, anestesista nigeriano com formação nos EUA, tendo tido acesso à educação, pôde compreender que algo tinha que ser feito. Como situações adversas tendem a apressar a manifestação do melhor que temos em nós, ele empreendeu uma batalha que o levou a inventar um hospital móvel (hospital in a box) que permite acesso à saúde com maior segurança, mesmo em locais remotos. Isso possibilita o atendimento de emergências, cirurgias gerais, olhos, odontologia etc., com a certeza de que nada vai explodir ou terá que parar por falta de energia.

A fala de Oyesola é que isso só tem sentido porque é uma ponta de esperança para que se continue ensinando, educando, dando ferramentas para que esse trabalho continue sendo feito, já que

o melhor hospital não é aquele que tem os melhores equipamentos, processos ou a melhor equipe médica. Ao contrário, é aquele que está mais apto à solução do problema que se apresenta”.


E é assim que ele encerra seu discurso, explicando que seu sonho se fundamenta em quatros palavras – Problemas – Soluções – Pessoas – Sacrifícios.

Não podemos pensar que a solução para os problemas do povo brasileiro são os modelos de excelência americanos. Mas o fato é que manter a chama acesa do ideal democrático que um dia levou à escolha de uma carreira na Saúde é algo que exige muito, muito sacrifício pessoal e, principalmente da sociedade como um todo. Mas quem será o nosso Oyesola que encontrará um meio de aproveitar as riquezas do Brasil, idealizando um modelo de medicina que se adapte à nossa realidade (e lembrem-se que São Paulo não é o Brasil!).

Bem, isso é lá outro sonho.

Para saber mais, veja o vídeo do Dr. Oyesola no TED:

Dr. Seyi Oyesola tours a hospital in Nigeria