music_therapist_t_shirt-p235007444822898025uye8_400O Blog De caso com a Medicina&Saúde está completando um ano nesta semana. Durante todo esse período, escrever foi um prazer com dia e hora marcados. A cada semana aprendi muito com a ciência e com as pessoas que por aqui passaram. Li confissões, recebi mensagens de incentivo e também verifiquei o quanto se hesita em expor opiniões. Mesmo em posts com recorde de visitação, os comentários foram tímidos. Os mais instigantes foram os relacionados à  mente humana e sentimentos. A observação confirma a máxima – se a mente estiver sã, o corpo será são.

Essas evidências indicam que o mal físico pode ser melhor suportado do que a dor psicológica, a solidão, a falta de sentido, o grande desafio das relações (amorosas ou não). Somam-se a elas o dever de ser jovem para sempre, ser bem sucedido a qualquer custo, ser magro, ser uma celebridade… Anoto que um dos tópicos mais lidos foi sobre dieta para modelos… Talvez, o mal estar da civilização atual seja a angústia de fazer dessas ilusões uma realidade.

A tendência é negar que tudo isso seja um problema de saúde. E seguimos vivendo, anestesiados pela imensa lista de – tenho que fazer isso para me sentir melhor. Na fala de Flávio Gikovate, vamos adiante satisfazendo os prazeres negativos para afastar a dor em busca do equilíbrio. Quando este não chega, as doenças se instalam em alguma parte do corpo.

Foi no espírito dessas reflexões que tomei conhecimento do Simpósio Brasileiro e Encontro Internacional sobre a Dor (SIMBIDOR), e conheci o trabalho da Dra. Eliseth Ribeiro Leão, Assessora de Pesquisa Científica e Coordenadora do Projeto Uma Canção no Cuidar do Hospital Samaritano, cujo interesse é música como técnica analgésica.

Eu já tinha me interessado pelo assunto inspirada por Oliver Sachs e seu livro Alucinações Musicais. Então entrevistei Luisa Lopez, neuropsiquiatra infantil italiana, consultora científica da Fundação Mariani, entidade que financia e promove pesquisas científicas sobre Neurociência e Música na Itália. Fiquei realmente surpresa com o número de estudos sobre musicoterapia. Dra. Eliseth gentilmente cedeu a síntese de sua palestra no congresso, que agora compartilho com vocês, não antes de agradecê-los pela leitura fiel e curiosa desse último ano. Adianto que reservo algumas surpresas a partir da próxima semana.

Recentemente foi noticiado que uma equipe de arqueólogos descobriu uma flauta de osso de pássaro, em uma caverna da Alemanha, entalhada há cerca de 35 mil anos e é o mais antigo instrumento musical artesanal já encontrado, oferecendo a mais nova evidência de que as primeiras populações humanas da Europa tinham uma cultura complexa e criativa.

Em todas as regiões do nosso planeta, há evidências de que a música sempre esteve presente desde que o homem passou a utilizar signos, desenvolvendo sua capacidade simbólica. A música faz parte, portanto, da evolução humana, o que reforça nossa tese de que somos seres, em essência, musicais.

A dor também é outra experiência que acompanha a história da humanidade e uma das razões do surgimento da Medicina advém da necessidade de mitigá-la. O tratamento e controle da dor são feitos por meio de medidas farmacológicas e medidas não farmacológicas, dentre as quais a música configura uma possibilidade.

Uma das primeiras associações entre música e dor é encontrada na Antiguidade, com a descrição de Avicena (980 – 1037), que prescrevia tanto o uso de opiáceos, quanto da música, para o alívio da dor.

Pesquisas indicam que a música alivia a dor aguda e crônica, diminui a solicitação de analgésicos, além de constituir um recurso de baixo custo, oferecendo um parcial senso de controle aos pacientes.

Alguns mecanismos audioanalgésicos são relatados para explicarem essa influência sobre a dor: a produção de endorfinas; a dissociação por meio da distração; o relaxamento muscular; o fenômeno de condicionamento acústico cerebral e a experiência estética/simbólica decorrente das imagens mentais que a música induz.

Vale ressaltar que todos os efeitos observados guardam estreita relação com as emoções suscitadas pela intervenção musical e os mecanismos envolvidos nesse processo.

A teoria da integração sensorial parece estar por trás desses mecanismos. A integração sensorial refere-se ao processo pelo qual o sistema nervoso central organiza a entrada sensorial dos estímulos tátil, proprioceptivo, vestibular, olfatório, gustativo, visual e do sistema auditivo.

A música pode ser considerada como uma matriz dinâmica que se desenrola no tempo, por meio da qual podemos experimentar emoções intensificadas e uma alternância dos nossos estados de consciência, os quais interferem na percepção dolorosa.

A dor, entretanto, não constitui um fenômeno isolado durante uma internação hospitalar. Sabe-se que a hospitalização constitui momento de fragilidade emocional, stress, não só para os pacientes, mas também para os seus acompanhantes. A música nesse contexto, pela rica experiência que produz, não só aliviando a dor, torna-se valioso recurso e pode ser conduzida de diversas formas, em abordagem musicoterápica específica, ou como intervenção complementar de diversos profissionais da saúde.

As possibilidades de lançarmos um olhar sobre a música em busca de melhor compreendermos a sua ação sobre o homem realmente são muitas e explorações futuras merecem ser conduzidas à luz de referenciais teóricos e desenhos metodológicos apropriados, para consolidar assim, o grau de efetividade terapêutica para os pacientes no ambiente intra-hospitalar e em outros contextos clínicos, na qual a dor se faz presente. Todavia, tendo em vista o que já temos de conhecimento disponível que reflete a ação da música sobre o ser humano, particularmente no que tange ao alívio e controle da dor, podemos afirmar que temos em mãos um recurso integrativo, pois atende à proposta de um cuidar bio-psico-espiritual.

Daí sua relevância para manter-se como constante objeto de investigação científica. Integrar tratamentos anti-álgicos, profissionais diversos, saberes e fazeres também é essencial e parece ser o grande desafio da equipe multiprofissional que atua em dor. Mas para isso, temos que ajustar também o nosso olhar e o nosso cuidar em saúde dentro dessa perspectiva.

É necessário que, em algum momento, despertemos e consigamos de fato considerá-la no nosso plano de cuidados. Pensar em qualidade de vida é algo indissociável do tratamento dos quadros álgicos, principalmente crônicos. A interconexão entre Arte, Filosofia e Ciência parece ser uma fonte de enorme fertilidade nesse sentido, a qual os profissionais que cuidam de pacientes com queixas dolorosas necessitam considerar.

Eliseth Ribeiro Leão é doutora em Enfermagem pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo; pós-doutorado pela Universidade Marc Bloch (França); Assessora de Pesquisa Científica e Coordenadora do Projeto Uma Canção no Cuidar do Hospital Samaritano SP.

9º SIMBIDOR – De 30 a 3 de outubro de 2009, Hotel Maksoud Plaza, São Paulo – Brasil.Acompanhe as notícias do Simpósio no Twitter.