B0NAAAAinda me lembro da surpresa que me causou a declaração de que na Itália, quando uma pessoa morre, o funeral nunca acontece no mesmo dia ou de um dia para o outro: é necessário esperar até 72 horas após o evento. Em algumas cidades, o defunto ainda fica em casa, e parentes e amigos podem visitá-lo, exatamente como se fazia nos meus tempos de criança. Nas indas e vindas àquele país, tive a oportunidade de participar de um rito desses, mas somente na parte final onde a cerimônia religiosa é feita de corpo presente em uma igreja. O caixão permanece fechado e, na saída, assina-se um livro de presença ou se escreve uma pequena mensagem à família, que será acompanhada até o cemitério para as homenagens finais.

Não ter mais os mortos em casa coloca a morte mais distante de nós. Penso que essa seja a razão por que ela é sempre muito dolorosa e nunca é encarada com resignação. A sensação que tenho é que ninguém está preparado para esse fato novo (muitas vezes imprevisível) que arranca de nossas vidas alguém que amamos. Nossa tendência é crer que todos viverão para sempre.

Sempre achei que parte do desconforto com as doenças estava ligado a essa realidade, pois desejamos nos afastar da morte o quanto podemos. Esse comportamento se reflete também na relação médico-paciente, pois além das imprescindíveis habilidades técnicas, saber comunicar-se é um dom que exige ser cultivado, pois dar más notícias e ao mesmo tempo confortar não é para qualquer um.

Anna Costantini, responsável pelo Serviço de Psiconcologia do Hospital Santo André de Roma, especialista que há 20 anos trabalha para o aprimoramento da relação médico-paciente, diz que diante de um médico, o paciente sempre está transtornado e apavorado e, nesse estado de ânimo, é incapaz de pedir por informações. Eu acrescento que, mesmo que os médicos tenham essa questão muito clara na cabeça e expliquem tudo com muita paciência e solidariedade, é possível que o doente não consiga assimilar nada naquele momento. Negar a própria realidade é sempre mais fácil do que enfrentá-la.

Sensibilidade, bom senso, capacidade de expor em linguagem simples como estão as coisas e como será o tratamento são requisitos imprescindíveis para a boa comunicação nos consultórios. Mas isso, ao que parece, não se aprende nas escolas de medicina (ao menos não como se deveria!). A consequência é o repetir da história de uma participante de um forum onde se debate o assunto:

Quando o diagnóstico do câncer de meu pai se mostrou definitivo, o médico convocou toda a família. Entramos em seu consultório e ele disse – olhem, seu pai tem apenas poucas semanas de vida… desculpe Clara (sua secretária), pode jogar fora os jornais? Foi exatamente assim que o diálogo ocorreu”, conta a leitora.

É claro que, do ponto de vista do médico, a coisa é tão árida quanto um deserto. Ser um oncologista, por exemplo, coloca o profissional todos os dias diante de más notícias. Gerenciar as emoções, não só do paciente mas de seu núcleo familiar é tarefa para especialistas como psicólogos e psiquiatras. Quê fazer, então? “Diálogo sincero e informações graduais, para dar tempo à assimilação, parecem ser o segredo”, ensina Costantini. “Workshops de comunicação podem ajudar médicos oncologistas a melhorar a prática médica nesses casos”, conclui o estudo dirigido pela especialista.

Idealista, adoro pensar que, cada vez mais, as atenções estão se voltando para as pessoas, contrariando tudo o mais que insiste em nos dizer que somos mercadorias com data de validade.

Para saber mais Overcoming Cultural Barriers to Giving Bad News: Feasibility of Training to Promote Truth-Telling to Cancer Patients:

http://www.informaworld.com/smpp/content~db=all~content=a912376511?words=costantini&hash=3234069153