B05568É bem-vinda a notícia da inauguração do Centro de Referência da Saúde do Homem, iniciativa do Governo de São Paulo. A frase – antes tarde do que nunca – é a que me veio à cabeça. Explico. Eu já tinha lido um estudo datado de 2001, subscrito por Ian Banks, porta-voz da Associação Médica Britânica (BMA), médico que é também presidente do Forum Europeu de Saúde Masculina. Voltei ao texto: é mito o fato de que homens não se preocupam com a própria saúde. Na verdade, todo homem se preocupa, apenas se sente desconfortável para falar sobre o assunto ou procurar ajuda. O comportamento tem como resultado prejuízos muitas vezes irreparáveis.

Só para ter uma ideia, a incidência de morte por melanomas (câncer de pele) em homens é 50% maior do que nas mulheres, apesar dos casos, na ala masculina, serem 50% menores.  Como é que é que as coisas funcionam para os homens?

Eles têm dificuldade na hora de expressar seus medos… Diante de um sintoma, tendem  a adiar a visita médica e, dependendo da classe social, a demora aumenta. As possibilidades de reverter esse quadro se resumem em estratégias simples como ter acesso a informações sobre saúde em canais onde não seja necessária identificação. A ação deveria conjugar serviço público, farmacêuticos e conteúdos online. Quanto às escolas de medicina, os currículos deveriam prever disciplinas especialmente pensadas para a formação de profissionais capazes de gerenciar dificuldades na relação médico-paciente.

Pode parecer-lhes absurdo, mas no Reino Unido, outra pesquisa realizada pelo Forum Europeu revelou que 18% dos homens achavam que as clínicas especializadas no aparelho genital e urinário, denominadas GUM (Genital Urinary Medicine), tratavam de problemas dentários; mais de 50% dos entrevistados não sabiam do que tratava esse tipo de especialidade e a maioria ignorava que Doenças Sexualmente Transmissíveis tinham se tornado mais comuns (!!!!).

As crenças dos homens se baseiam no fato de que não se deve procurar um médico por causa de sintomas menores, o que seria sinal de fraqueza (não se diz por aí que para enfrentar os próprios medos e dificuldades é preciso ser muito macho?). Como a maioria dos atendentes e assistentes médicos são mulheres, falar com elas sobre seus problemas é também um fator limitante. Por causa da objetividade típica dos homens, o tempo das consultas tende a ser menor, o que impede maior atenção por parte dos médicos, incluindo dar os conselhos necessários (mas se o fazem, será que eles seguem à risca?). Apenas 29% dos profissionais ensinam o auto-exame dos testículos, enquanto o auto-exame das mamas para mulheres chega ao patamar de 86%.

Os maiores riscos de saúde para os homens são doenças cardíacas, hipertensão, colesterol alto, câncer (cólon e próstata), distúrbios de ansiedade e, mesmo assim, muitos só vão ao médico levados por uma ambulância. Alguns deles morreram sem saber que eram cardíacos ou hipertensos. Uma consulta, mesmo que breve, poderia ter mudado tudo.

Como já aprendi, visualizar o problema é fácil. Partir para a mudança é outra conversa. Mas a iniciativa do Governo de São Paulo já é uma perspectiva.

P.S.: O título do post nos remete às notícias sobre a releitura paulistana da obra O Médico e o Monstro, cujo protagonista é o Sr. Roger Abdelmassih. Se os homens demoram para procurar um médico, as mulheres, em geral, querem logo resolver seus problemas. Quando o assunto é maternidade, superar o próprio corpo se transforma em missão militar.  Então nos colocamos na mão do outro, que como na obra inglesa, tem seus dois lados – o bom e o mal. Um lado, luta para ser brilhante e reconhecido. O outro é capaz de cometer os crimes mais repugnantes. Senhoras, fiquem atentas. Fiquei sabendo que em ambulatórios públicos, exames ginecológicos são feitos sem a presença de uma enfermeira. É preciso mudar isso. A informação é o primeiro passo.

Para saber mais:

http://www.saude.sp.gov.br/content/uetispenis.mmp

http://www.pubmedcentral.nih.gov/articlerender.fcgi?artid=1121551#B1