foto002Quem teve a oportunidade de conhecer Flávio Gikovate em suas inúmeras palestras e entrevistas, quem leu apenas um de seus muitos livros, e agora mais recentemente, ouviu seu programa de rádio, sabe que ele discorre com muita propriedade sobre um tema que nunca perde a atualidade: o amor. Não pensem numa série repetida de idéias sobre um ideal romântico: seu discurso é o resultado de uma vivência que lhe permitiu conhecer bem de perto o que povoa o coração e a cabeça das pessoas. Falar sobre o amor, para ele, é falar do próprio homem, da vida. Gikovate afirma que sua carreira foi dedicada à luta pela liberdade e pela felicidade, e isso traduz seu indisfarçável desejo de compartilhar sua sede de sentido. O prestigiado psiquiatra, que possui em seu currículo mais de 8.000 pacientes ao longo de 40 anos de trabalho, me concedeu a seguinte entrevista, do Instituto de Psicoterapia de São Paulo.

Goethe possui um aforismo interessante: quando duas pessoas se sentem realmente felizes uma com a outra, de modo geral, cabe a suposição de que estão equivocadas. Provavelmente ele se referia às paixões e não ao sentimento de amor que alguém possa despertar em nós, visto que este último pressupõe a sensação de que, finalmente, encontramos nosso lar: é um sentimento que nasce, cresce, se transforma. É possível equivocar-se quando se ama?

GIKOVATE Acho assim: existem dois modos de amar. Um deles se baseia em encantamento por uma pessoa que é o oposto de nós (tímidosx extrovertidos; agressivosxpanos quentes; egoístasxgenerosos; e assim por diante), o que depende de vários fatores, inclusive de uma precária auto-estima já que o amor deriva da admiração e admirar nosso oposto significa não estar muito bem conosco. O outro modo é por afinidades, que se estabelece de uma forma mais intensa e cheia de medos de todo o tipo, inclusive o medo da plena fusão romântica. Amor de boa qualidade (baseado em afinidades) + medo = paixão. O coração bate de medo. Se o medo se arrefece e as pessoas se acostumam com esta intensidade sentimental, então teremos alianças sólidas, estáveis e que provavelmente durarão toda a vida. Amor é o sentimento que temos por uma pessoa cuja presença nos provoca a adorável sensação de aconchego que perdemos ao nascer.

Fala-se que o ciúme é o tempero do amor. Mas quando esse sentimento é delirante, pode evidenciar um instinto reprimido de infidelidade. O amor pode sobreviver à traição?

GIKOVATETalvez o certo seja pensarmos em dois tipos de ciúmes: os de natureza exclusivamente sexual e aquele de natureza sentimental. O ciúme sentimental pode existir em relação a pessoas sexualmente inofensivas – a mãe pode ter ciúme da relação do pai com sua filha; irmãos têm ciúme da intimidade de cada um deles com os pais; cônjuges podem ter ciúme dos pais do marido ou esposa etc.. O ciúme sexual pode estar relacionado com o risco efetivo de infidelidade, que é maior naquelas pessoas menos confiáveis. Pessoas menos confiáveis são as mais imaturas, as que lidam mal com frustrações e contrariedades. Pessoas menos confiáveis não suportam passar vontade de espécie alguma. Como regra, são pessoas mais egoístas. A infidelidade sexual masculina pode acontecer mesmo em homems mais maduros, desde que eles considerem isso como fato natural, o que depende da cultura. Neste último caso, a infidelidade exclusivamente sexual prejudica pouco a vida sentimental dos casais.

O divórcio é  um dos maiores detonadores de estresse e depressão. Por que é tão difícil mudar o paradigma de que a ruptura significa dor, mágoa, brigas intermináveis, dificuldade de comunicação? Esses sentimentos já não são um reflexo de que a relação nunca esteve fundamentada no mútuo respeito?

GIKOVATEO divórcio é uma questão complexa porque envolve a dor relacionada com a ruptura de um elo quase sempre desejado por apenas um dos dois cônjuges. As rupturas são sempre dolorosas porque elas nos remetem para as originais, especialmente para a relacionada com o trauma do nascimento, no qual a criança e a mãe são forçados romper a simbiose no qual a criança foi gerada. Além disso, existem problemas relacionados com a vaidade, por meio da qual aquele que é abandonado se sente, como regra, trocado por outra pessoa. Estamos diante de algumas das maiores dores a que estamos sujeitos: abandono e humilhação, o que, junto, provoca a sensação terrível de rejeição. Difícil de engolir! Dificílimo de digerir. Só o tempo – longo, medido em anos – pode atenuar uma espécie de gangorra que se forma entre os que se separam: saber que o ex está bem faz mal e saber que ele está mal faz bem.

Pascal diz que todo homem quer ser feliz, inclusive o que vai se enforcar. Se ele se enforca é para escapar da infelicidade. Porque precisamos ter sempre a sensação da felicidade e ela, em geral, se traduz no encontro com o outro?

GIKOVATENossa biologia pede que fujamos da dor e que busquemos o prazer. Isso é natural em todos os animais. Temos que fugir de todo o desequilíbrio sentido como desagradável: quando temos sede buscamos o prazer negativo de saciá-la com a ingestão de água– prazer negativo corresponde ao que nos tira da dor e nos leva ao ponto de equilíbrio, da homeostase; a expressão é de Schopenhauer. Um dos prazeres negativos é o amor, por meio do qual nos livramos da dolorosa sensação de vazio e desamparo que vivenciamos quando estamos sozinhos. Os prazeres positivos, que são os momentos de verdadeira felicidade, são relacionados com aqueles de natureza erótica (não precisam ser antecedidos por nenhuma dor) ou os de caráter intelectual (usufruto das delícias da música, das artes, do cinema, de uma boa conversa etc.) O pleno amor, aquele que costumo chamar de +amor ou + que amor, corresponderia ao fato de encontrarmos um parceiro que nos aconchega, em quem confiamos e que é o nosso maior amigo, com quem gostamos de conversar todo o tipo de intimidades e ainda seja também um parceiro sexual legal. É isso que todos querem e é o que apenas uns 3-4% dos humanos tem coragem de ter como vivência conjugal.

Para saber mais: www.flaviogikovate.com.br

Ouça o programa de rádio (CBN) – No divã do Gikovate, todos os domingos, das 21h00 às 22h00:

http://cbn.globoradio.globo.com/programas/no-diva-do-gikovate/NO-DIVA-DO-GIKOVATE.htm