mjDurante a infância de meus dois filhos tive poucas emergências médicas. Uma queda do braço do sofá com consequente corte na cabeça, constipação, um box de vidro que se rompeu durante o banho e um grão de pipoca no ouvido. Como se vê, nada tão grave que não se resolvesse com uma rápida visita ao pronto-socorro.

Mas por que estou contando isso? Bem, é que no caso da pipoca, obviamente, o fato não foi percebido de imediato. Após algum tempo, uma febre alta se instalou e eu, sempre preocupada com o termômetro, corri para o hospital. Examina daqui, examina dali, encontrou-se o grãozinho no ouvido. A criança foi imobilizada por um lençol e uma pinça fina resolveu o problema. Enquanto trabalhava, o médico explicou que, quando as crianças sentem dores de ouvido, geralmente colocam alguma coisa no local, pois pensam que essa atitude é capaz de aliviar a dor que sentem.

Esta manhã, uma das manchetes da Folha de São Paulo é que o uso de remédio, especificamente um anestésico, pode ter sido a causa da morte de Michael Jackson. Coincidentemente, dias atrás, eu falava com alguns amigos sobre como é doloroso ter consciência de nossos problemas, limites e dificuldades.

Ver de frente quem somos, como funcionamos e o que devemos fazer para mudar é uma dor sufocante que pesa no meio do peito, e tudo o que desejamos é nos livrar dela o mais rápido possível. Foi então que uma das interlocutoras me disse: “você está enganada Cris. Ter consciência ou não, dói do mesmo jeito”.

A frase ficou martelando em minha cabeça. Para os tipos racionais, entender porque está doendo, talvez não diminua a dor, mas a justifica. Quem não sabe, apenas sente a dor todo o tempo e até pode viciar-se nela. Então, ao invés da pipoquinha, os analgésicos podem ser consumidos de várias formas: muito trabalho, carros, sexo, roupas, viagens, drogas de todo tipo etc.. Tudo serve para anestesiar. E assim, a vida vai passando.

Michael Jackson é uma caricatura desse tipo de dor. Falo isso, obviamente, baseando-me em tudo o que se diz por aí e, assim, pode ser que eu esteja equivocada. Talvez nunca saibamos exatamente o que se passou com ele. Entretanto, partindo do que conhecemos, é fácil compreender porque sua vida se transformou num teatro de horrores.

Negar a própria história (a si mesmo) e tornar-se um novo personagem para admirar diante do espelho parece ser uma solução. Mas as intervenções externas não modificam lembranças e sentimentos. Estes, podem apenas ser enfrentados, aceitos, compreendidos,   perdoados  e, se tivermos muita sorte, seremos capazes de seguir adiante. Na teoria a coisa parece simples. Não é.

Alguém disse que não importa o que fizeram com você no passado. Importa o que você pode fazer com isso AGORA. Humanos que somos, nem sempre conseguimos excelência. Muitos de nós se perdem porque a dor se transforma num câncer silencioso que mata todo o dia um pouco.

A voz de Jackson ecoa com a frase rancorosa extraída de uma sua canção: Before you judge me, try hard to love me [Antes de me julgar, tente realmente me amar]. Infelizmente, apesar de todo talento, dinheiro e fama que possuía, Michael Jackson foi seu maior juiz e nunca conseguiu amar realmente a si mesmo. Os legistas já afirmaram que não foi suicídio. Mas as dores que Michael sentia, somadas às altas doses de anestésicos derivados do ópio que consumia, levam apenas a uma conclusão: o suicídio não precisa ser violento e premeditado. Às vezes ele é  lento e inconsciente.