85146867Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) a dor é responsável por 80% das consultas médicas, sendo que o tipo crônico afeta 30% da população mundial. Embora não escolha sexo, idade, nem classe social, alguns tipos de dor crônica são mais predominantes em determinados grupos de pessoas. As dores de cabeça acometem mais as mulheres que os homens na proporção de 3:1, enquanto a fibromialgia tem uma porcentagem maior, sendo 10 casos em mulheres para cada homem. Além destas, outras doenças mais recorrentes no público feminino são as artrites e as dores pélvicas.

Estatisticamente a maior prevalência da dor crônica em mulheres se dá na faixa entre 40 e 50 anos de idade, em que, além de maior acometimento de doenças características da faixa etária e problemas hormonais, encontram-se fatores como infelicidade na vida profissional e pessoal, com falta de perspectivas positivas.

Em 2008 demos início pelo Centro de Dor do Hospital 9 de Julho, em São Paulo, a uma campanha intitulada Dor: Eu Sou Sexo Forte!, alinhada com o tema da IASP – International Association for the Study of Pain [Associação Internacional para o Estudo da dor] (EUA), em que desenvolvemos ações focadas no público feminino portador de dor crônica.

Uma das atividades aplicadas (Mulheres que Doem Demais) teve o objetivo de oferecer apoio psicológico em reuniões mensais a grupos de no máximo 15 mulheres, que discutiam sobre as interferências da dor em diversos segmentos de suas vidas.

A pesquisa contou com a participação de 173 mulheres e possibilitou o mapeamento dos principais fatores influenciadores da qualidade de vida destas mulheres, relacionados ao seu trabalho, família e vida social.

Para 60% das mulheres o fator de maior relevância no contexto da dor é o apoio familiar. Elas referiram falta de atenção e valorização de seus problemas, com 49,09% citando essa carência especialmente nos momentos de crise, em que consideram que as pessoas deveriam tratá-las com mais carinho.

Já 35,04% relatou ter diminuído a quantidade de tempo que dedicava ao trabalho, nas últimas quatro semanas, devido à saúde física, assim como 42,34% informou ter realizado menos tarefas no mesmo período. 28,47% afirmou estar limitado para o trabalho, devido a problemas emocionais. E 24,82% relatou desânimo ou esgotamento na maior parte do tempo.

No período de coleta de dados para a pesquisa, as mulheres também informaram limitações para realizar tarefas simples do cotidiano, como limpar a casa ou mesmo caminhar, subir escadas, com 89,19% referindo ter diminuído o trabalho ou atividade regular diária em função da dor.

Os dados refletem a própria adesão das mulheres aos tratamentos propostos, já que elas não se sentem dispostas. Neste contexto, a depressão soma-se ao quadro, gerando um ciclo de piora física e emocional. Prova disso é que 74,55% afirmou que a depressão aumenta a sua dor.

Outro dado da pesquisa que chama a atenção é que 50,91% das mulheres do grupo respondeu que a prática de exercícios físicos diminui a intensidade da dor que sentem. Isso mostra que estar ativa, tanto física como mentalmente, ajuda a promover o bem estar, fazendo com que mesmo a dor – mesmo não extinta, fique em segundo plano em suas vidas.

Como conclusão, aferimos que a ansiedade e a angustia das portadoras de dor crônica, somados ao ritmo de vida das pessoas que as cercam, acaba por exacerbar os sintomas de sofrimento da mulher pela falta de tempo que dispõem juntas.

E como recomendação, o que procuramos passar é que, embora o apoio da família e das demais pessoas ao redor seja importante e necessário, a mulher precisa aprender a identificar as limitações do outro, buscando nela outras maneiras para amenizar o seu sofrimento.

GUEST BLOGGER: Dra. Dirce Perissinotti, membro do corpo clínico do Centro de Dor e Neurocirurgia Funcional do Hospital 9 de Julho. Doutora e Mestre em Ciências (Neurologia/Fisiopatologia Experimental) pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Títulos de Especialista em Terapia Fenomenológico-Existencial, Gestalt, Hipnose, Neuropsicologia, Bio-Neurofeedback. Atualmente é Membro da Association for Applied Psychophysiology and Biofeedback – AAPB; Membro da Diretoria do SIMBIDOR; Membro da Diretoria Centro de Estudos e Investigação em Neuropsicanálise CEINP – International Neuro-Psychoanalysis Society, Instituto Rukha.

Para saber mais: http://www.centrodedor.com.br/

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