78480125Há muito tempo sabemos que experiências vividas na infância repercutem na vida adulta. Grosso modo somos como mata-borrões: absorvemos tudo. É assim que construímos dia-a-dia quem seremos no futuro. Ao longo da caminhada, nosso corpo humano se vale da própria complexidade e perfeição para se auto-regenerar e desenvolver mecanismos para a superação dos eventos dolorosos, como que garantindo a própria sobrevivência.

Mesmo podendo contar com essa capacidade na solução de problemas, o fato é que sempre temos que prestar contas à alma lá mais adiante. Não obstante a mente seja poderosa, muitas vezes é incapaz de gerenciar todas as ameaças sofridas. É aí que ela dispara o alarme, compensando a carga com alguma doença física.

A descoberta mais recente sobre o assunto é que dores crônicas difusas são produto de eventos da infância. O estudo foi publicado na revisa Pain e é o resultado de um trabalho iniciado em 1958 pela British Cohort Study, que observou cerca de dez mil pessoas. Os estudiosos entrevistaram os pais das crianças, registrando todas as situações críticas vividas por elas: recuperação de acidentes e cirurgias, morte ou alcoolismo da mãe ou do pai, divórcio, dificuldades econômicas, ou períodos de internação em institutos (corretivos ou clínicos). Ao completarem 45 anos, aquelas crianças foram avaliadas com o fim de identificar a subsistência de dores crônicas generalizadas, desvinculadas de algum problema específico.

A conclusão a que chegaram os pesquisadores é que quem sofreu um acidente que necessitou de um período de recuperação tem maiores chances de vivenciar dores crônicas na idade adulta. Para os que tiveram problemas econômicos a situação é semelhante, assim como para aqueles que estiveram em alguma instituição. Porém, o elemento de maior impacto é a morte da mãe, situação que dobra a incidência de dor crônica no futuro.

Conforme os estudiosos, a raiz do problema está no histórico infantil, independentemente da classe social ou do estresse experimentado na vida adulta. Essas conclusões apenas confirmam teses antigas sobre a correlação existente entre fibromialgia e violência e abusos verbais, físicos ou sexuais, cujo percentual é quase 50% superior em relação às pessoas sãs. Pesquisa anterior concluiu que testemunhar violência nessa fase da vida também aumenta o risco de sofrer de dores crônicas no futuro.

Os autores do estudo inglês declaram que “em geral, como e o que se viveu durante a infância tem maior relevância sobre a saúde dos adultos do que estaríamos dispostos a acreditar. Por isso, tudo o que pode ajudar as crianças a viverem a melhor infância possível em termos mentais e físicos, é muito importante para evitar problemas na vida adulta”.

A imperiosa necessidade de resguardar a infância deveria ser uma prioridade em todos os cantos do mundo. Infelizmente, como sabemos, o tema não parece ser relevante, especialmente em um país como o Brasil. Mas ainda que fosse possível viver na Suécia, onde menores carentes são os que têm, por exemplo, os melhores professores que o governo pode pagar, quem os salvaria da própria vida no privado de seus lares?

Diante do corpo nu de um paciente, médicos sabem muito bem que a vida é aquilo que é. Sabedores disso, precisam lembrar que quando um adulto se queixa de dores crônicas, “vale a pena indagar sobre seu passado. É provável que a causa resida ali. Se assim for, a intervenção de um psicólogo resolverá antes e melhor o distúrbio presente”, concluem os pesquisadores.

English AbstractAdverse events in childhood and chronic widespread pain in adult life