83407885 Quando iniciei este Blog, escolhi o nome De caso com a medicina por causa de Mário de Andrade e seu livro Namoros com a medicina. Ele dizia que passou a se interessar por esta ciência porque ela resolveu um problema existencial de sua infância: quando lhe perguntavam o que iria ser quando crescesse, ele respondia que seria médico. As pessoas se sentiam completamente satisfeitas com a resposta e o deixavam em paz, sem outras perguntas. Ser médico era a mais honrosa profissão que alguém poderia aspirar.

Mas a medicina parece ter perdido parte de seus atrativos e hoje, seis em cada dez médicos jamais recomendariam aos jovens que iniciassem essa carreira. A conclusão é de uma pesquisa feita pela americana Physicians’ Foundation, que reúne vinte associações com doze mil médicos especializados em medicina geral.

A maior queixa da classe é a sobrecarga de trabalho por falta de profissionais; mais de 90% deles se lamentam do excessivo tempo dedicado às práticas burocráticas, o que resulta num menor tempo dedicado ao paciente. Por essa razão, um em cada cinco médicos desejaria diminuir o número de seus pacientes; um entre quatro gostaria de trabalhar meio período, e um entre dez está pensando em deixar a profissão.

Nos EUA, assim como no Brasil, a dificuldade de acesso aos sistemas de saúde para pessoas de baixa renda é notória. Lá, o assunto foi objeto de um polêmico filme de Michael Moore, e como a América é o país de todas as possibilidades, existem organizações médicas de luxo, que garantem maior atenção e cuidados para pacientes que podem pagar por isso. A pergunta que se faz é: esse tipo de trabalho garante mais qualidade de vida profissional? Nadando contra a corrente, vozes vindas de Harvard dizem que descartar pacientes menos abonados fere os princípios da ética médica.

Na Itália, França e Inglaterra, vige o princípio da equidade para o serviço sanitário. Todos os cidadãos têm acesso à saúde, até mesmo os clandestinos. Entretanto, uma lei italiana impôs aos médicos que eles notificassem a polícia de imigração quando atendessem estes últimos. Os médicos veementemente rechaçaram a ordem, apesar do forte movimento contra esses imigrantes. Como nada é perfeito, a paridade não é o suficiente para mudar a forma como os profissionais da medicina se relacionam com seus pacientes. Muitas vezes um titular sequer faz a anamnese (coleta de informações sobre a vida e as queixas do paciente), delegando-a a estagiários ou assistentes. O aparato tecnológico facilita o diagnóstico, mas prejudica a empatia que espera aconteça entre o doente e seu especialista. Afinal, o que algumas pessoas precisam realmente é apenas serem ouvidas!

Penso que nem tudo está perdido. Li uma frase de um médico inglês, o Prof. Duncan Geddes, do Royal Brompton Hospital de Londres, que diz: enquanto os efeitos colaterais de uma remédio são transitórios, uma consulta mal conduzida pode causar danos permanentes.

Para saber mais: Physicians’ Foundation – http://www.physiciansfoundations.org/news/news_show.htm?doc_id=728872