56585431Uma questão que sempre me intrigou na sociedade italiana foi a convivência mais ou menos pacífica entre a legalização do aborto e a forte influência do catolicismo nessa comunidade. Confesso que jamais consegui ter uma opinião consolidada sobre o assunto, especialmente porque sempre chego ao clássico impasse: no caso do direito ao aborto, quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?

Atenta a notícias sobre o tema, me recordo de um artigo publicado no jornal La Repubblica, onde uma intelectual, respondendo aos argumentos favoráveis à moratória do aborto, lembrou os números a menos de mulheres que deixaram de abortar após o advento da lei. A possibilidade de fazê-lo de forma legal de alguma forma faz com que as pessoas  pensem duas vezes antes de não usar um contraceptivo. Isso porque o sistema de saúde pública atende a população de forma setorizada e, assim, se alguém for buscar esse serviço na própria cidade de origem, é bem provável que o assunto não se restrinja somente à vida privada de quem dele se beneficia. Além disso, fazê-lo em outro distrito configuraria mais uma dor de cabeça, já que seria preciso se deslocar fisicamente. Para menores de 18 anos, há que se apresentar autorização do representante legal…

A notícia veiculada na TV esta semana é que uma médica, após ter encontrado um bebê recém- nascido abandonado em um container de roupas usadas para doação, em pleno inverno, conseguiu sensibilizar instituições públicas e privadas com o fim de disponibilizar um local seguro para que as mães que não possam ficar com seus bebês, deixe-os em uma espécie de bercinho térmico instalado em determinados hospitais, fazendo-o de forma anônima. O projeto se chama Ninna Ho (Tenho sono).

Nunca conheci uma mulher que tenha abortado por livre e espontânea vontade. Dor, ressentimento, medo, pudor, abandono são apenas alguns dos sentimentos envolvidos que marcam a vida dessas pessoas para sempre. Muitas jamais poderão engravidar novamente, dadas as circunstâncias em que o fato se deu. Não desejo discutir as políticas de informação sobre a contracepção. A única pergunta que me vem é: qual é o valor mais importante nesses casos? O que é mais justo? O que causa menos dor para a mãe e para a criança ao longo de suas vidas?

O sonho é que homens e mulheres pudessem ser mais responsáveis em relação ao grande bem que é a vida (deles e dos outros). A verdade é que uma criança nunca deveria saber que foi abandonada de forma anônima, mesmo que tenha sido em um lugar aconchegante. A realidade é que esse fato, para a mãe e para a criança, jamais poderá ser superado no futuro.