Há muito muito tempo, médicos não vestiam jalecos feito paletós brancos. Suas rotinas não incluíam congressos internacionais, nem intermináveis cursos de aperfeiçoamento. Eles se estabeleciam em suas cidades, geralmente tinham um consultório em sua própria casa e suas receitas nem precisavam ser impressas à laser. Como não podiam contar com os serviços de farmácia, tinham que fabricar seus próprios remédios.

Nostradamus, o mesmo das profecias, médico dedicado e intuitivo, levantava muito cedo e se embrenhava nos bosques em busca da matéria prima de um medicamento que, fosse hoje, lhe teria garantido uma aposentadoria tranqüila: pílulas de rosa. Além de ser um dos primeiros praticantes da assepsia (ele se banhava antes das consultas e fazia com que os doentes fossem lavados, bem como seus leitos), o profeta conhecia as propriedades da rosa selvagem. Confeccionava as pílulas a partir de suas pétalas e também de seus brotos. O remédio deveria ser colocado sob a língua até que ele se dissolvesse por completo.

Especialistas afirmam que a rosa mosqueta, como também é conhecida, é adstringente, antiescorbútica, aromática, calmante, cicatrizante, diurética, emoliente, queratolítica e tônica. Indicada nos casos de queimaduras, regeneração da pele, prevenção de estrias em gestantes, tratamento da pele danificada por radioterapia, sardas, até resfriados e diarréias. Além disso, é rica em vitamina C, cuja concentração é superior àquela contida na laranja, bem como em vitamina P, formada por um grupo de substâncias chamadas bioflavonóides (rutina e a hesperidina), que garantem a absorção do próprio ácido ascórbico.

Nada de pastilhas efervescentes: bolinhas perfumadas de rosas! Em tempos de pestes e más condições de higiene em toda a Europa, as pílulas salvaram muitas vidas, até o ponto de serem consideradas heréticas. Bem no estilo profético, believe me or not, antes mesmo de descobrir essa curiosidade de Nostradamus, me diverti com um post de Dario Bressanini, professor de Termodinâmica Química da Universidade de Como, na Itália. Assim ele explicava a evolução da Medicina:

“‘Tenho dor de ouvido’:

2000 a.C: ‘Tome, chupe esta raiz miraculosa’

ano 1000: ‘Aquela raiz é um veneno. Faça esta oração’

ano 1850: ‘Esta oração é mera superstição. Beba esta poção’

ano 1940: ‘Esta poção é um veneno. Engula esta pílula’

ano 1985: ‘Esta pílula não funciona. Tome este antibiótico’

ano 2000: ‘Este antibiótico não é natural. Tome, chupe esta raiz biodinâmica milagrosa’.” (trad. livre).