Com a chegada da festa da padroeira do Brasil, comemorada no próximo dia 12 de outubro, lembrei de minha avó e sua devoção à Nossa Senhora Aparecida. Religiosamente, todos os meses de outubro, que coincidia com seu aniversário, ela se dirigia (sozinha ou acompanhada) à cidade do mesmo nome para agradecer pelo ano vivido e para pedir intercessão pessoal e familiar. Ainda menina a acompanhei em algumas dessas peregrinações. O mar de gente, a assustadora Sala dos Milagres e o calor insuportável são os detalhes que permaneceram na memória. Após sua morte, o camafeu com a imagem da santa foi presenteado a mim. De alguma maneira,  esse se tornou o maior exemplo de como a fé pode mover tantas pessoas, mesmo  que elas precisem se submeter a circunstâncias pouco confortáveis. Nos últimos dias, descobri a Síndrome de Jerusalém (SJ), psicose que acomete turistas na cidade santa, lendo um artigo assinado pela jornalista itinerante Judith Fein, que gentilmente permitiu que eu traduzisse seu texto, o qual reproduzo aqui em parte.

Existem muitas coisas que podem fazer com que você ache que está enlouquecendo quando faz longas viagens: vôos atrasados, bagagens perdidas, acúmulo de refeições sem gosto do avião… Mas para algumas pessoas, viajar pode induzir a uma rara psicose, especialmente se o destino for Jerusalém. Turistas que passaram por esta experiência a chamam de SJ, e foram encontrados vagando no deserto judaico, envoltos nos lençóis do hotel ou acampados em frente à igreja do Santo Sepulcro, realmente convencidos de que eles estariam dando à luz ao menino Jesus… Na tarde de quarta-feira, visitei o Dr. Bar-El, o ‘pai da SJ’, no Kfar Shaul Hospital daquela cidade…

O Dr. Bar-El, grisalho, parecia o Dr. Freud, pelo modo como se recostava à cadeira, fumando seu charuto, com os óculos acomodados na ponta do nariz. Ele não inventou a síndrome, que foi inicialmente identificada por visitantes estrangeiros nos últimos cem anos. Mas ele é quem está promovendo o tratamento e as pesquisas sobre a doença.

Bar-El explica que existem três categorias de turistas que podem ser acometidos pela febre de Jerusalém. A primeira é formada por visitantes individuais e que vão a Israel, mas já estavam mentalmente doentes em seus países de origem. Eles chegam em Jerusalém com idéias psicóticas que sentem dever por em prática na Terra Santa. O segundo grupo – o maior deles – são os peregrinos que chegam com profundas convicções religiosas. Nesses casos, eles pertencem a estranhos grupos religiosos, mais do que às igrejas clássicas. Essas pessoas acreditam que devem fazer coisas específicas para ter revelações sobre eventos maiores como à chegada do Messias, a aparição do anti-Cristo, a guerra do Armagedon, ou a ressurreição de Jesus Cristo.

O terceiro grupo caracteriza a verdadeira SJ e afeta os turistas sãos, sem histórico psiquiátrico ou abuso de drogas. São turistas normais que, repentinamente, desenvolvem o que Bar-El chama específica e imperiosa reação psicótica. Em todos esses casos, o mesmo quadro clínico se apresenta. Ele começa com uma sensação de ansiedade e nervosismo, e então o turista sente uma enorme necessidade de visitar os lugares santos. Primeiro, realiza uma série de rituais de purificação como depilar todo o corpo, cortar as unhas e se banhar repetidamente, antes de se vestir com roupas brancas. Muitas vezes, ele utiliza os lençóis brancos do seu quarto de hotel. Então, começa a chorar ou entoar canções bíblicas ou religiosas em voz muito alta.

O próximo passo é uma efetiva visita aos locais santos, geralmente repetindo a vida de Jesus. O turista atormentado começa a proferir sermões – que freqüentemente se trata de um confuso discurso – onde ele exorta a humanidade a mudar seu comportamento, tornando-se mais calmo, puro e menos sofisticado e mundano.

Dr. Freud, oooops, Dr. Bar-El, diz que do ponto de vista psiquiátrico, a coisa mais interessante é que, ao lado dessa curiosa reação psicótica, o paciente não tem alucinações nem ouve vozes, e se lembra de tudo o que acontece… Ele não perde a identidade e os sintomas desaparecem completamente de cinco a sete dias. Algumas vezes, a síndrome pode ocorrer num pacote turístico pelo Mediterrâneo, incluindo Grécia, Egito e Israel. A pessoa pode estar completamente sã na Grécia, desenvolvendo a síndrome em Israel. A crise passa em cinco dias e, então, a pessoa continua com seu grupo rumo ao Egito.

Do ponto de vista religioso, a síndrome parece preferir os protestantes, que somam 97% de todos os casos. Suas práticas religiosas não são muito importantes; o elemento essencial parece ser uma ultra-ortodoxa formação, onde a Bíblia foi o livro predileto para as leituras familiares e para a solução de problemas. Muitos teólogos fascinados pela SJ especulam que católicos possuem intermediários como a Virgem Maria e os santos. Além disso, possuem outros locais geográficos de importância como o Vaticano, presidido pelo papa. Mas para os protestantes, a única personificação bíblica é Jesus Cristo, e a Terra Santa é o único local onde eles podem ir para seguir sua vida. Assim, estão muito concentrados em Jesus e isso os levaria à condição para o advento da estranha e temporária aberração da Terra Santa…

Em um ano, 40 turistas foram hospitalizados por doenças psiquiátricas. A maioria pertencentes aos dois primeiros grupos, com sérios problemas antes da chegada em Israel. Poucos deles, talvez três ou quatro, desenvolveram a SJ. Na virada do milênio, houve um decisivo aumento dos casos…

Bar-El fala sobre um episódio memorável que ensejou a colaboração entre as polícias palestina e israelense. Os palestinos encontraram um homem sem roupas, dinheiro e identidade e, após interrogação, eles perceberam que não se tratava de um risco de segurança. Não tinham idéia do que fazer com ele, então contataram a polícia israelense. Esta, perguntou-lhes: ‘o homem está completamente nu?’ ‘Não, respondeu a guarda palestina’. ‘Ele está usando uma pele de animal’. ‘Oh, disse o oficial israelense’, ‘vocês encontraram um novo João Batista‘. Era o sexto João Batista que a polícia tinha notícias. João Batista usualmente empreendia dias de purificação entre Jerusalém e a Galiléia, antes de chegar ao Rio Jordão para batizar Jesus ou os primeiros cristãos. Parte do caminho era o território palestino. João Batista encabeça a lista da SJ para os homens; as mulheres preferem a Virgem Maria. Para judeus de ambos os sexos, a identificação geral é com o Messias…

Encontramos o Dr. Gregory Katz, um psiquiatra russo que trabalha com pacientes da SJ e ele nos fala sobre o tratamento, que inclui a melatonina para o efeito jet-lag, tranquilizantes leves e drogas antipsicóticas… Dr. Katz diz que eles estão equipados para tratar turistas em línguas diferentes, ainda que ninguém na unidade tenha mestrado em norueguês. Ele explica que a idade das pessoas acometidas pela SJ varia entre 18 a 70 anos, e a média é de 35 anos. A maioria dos pacientes tem educação superior e nem todos estão ligados a instituições religiosas, embora muitos estejam.

Ninguém tem certeza sobre as causas da SJ… Para o momento, não existem respostas claras e a ênfase é para os efetivos diagnóstico e tratamento”.

*Agradecimentos à jornalista Judith Fein, que cedeu o artigo para tradução e publicação em língua portuguesa. Visitem seu site: www.globaladventure.us