De volta ao trabalho, conheci a Dra. Monica Menon, otorrinolaringologista. Numa das tardes chuvosas desta semana, comentávamos sobre a importância do trabalho jornalístico voltado para a saúde. Entre um assunto e outro, falamos sobre o problema da comunicação com os pacientes. Aí ela citou como exemplo a seguinte expressão – o paciente teve uma reação idiossincrática. Quê?, perguntei. Eu sabia o que era idiossincrasia, mas pedi uma tradução consecutiva.  A médica explicou que se tratava de uma reação enzimática a determinadas drogas, que provoca o efeito contrário daquele para o qual o medicamento é indicado.

Dei uma gargalhada. Mas, na verdade, não achei nada engraçado. Era uma reação nervosa. Imediatamente pensei nos perigos da automedicação, no clássico sermão recitado aos filhos sobre os excessos e a impossibilidade de saber como o organismo reage a certas substâncias.

Lembrei do dia em que tomei uma anestesia peridural. O cirurgião se aproximou e disse que iria tomar um café enquanto o anestesista fazia seu trabalho. Concordei, e fiquei ouvindo a conversa dos outros membros da equipe. Depois, comecei a me sentir mal. Os ombros pesavam, a cabeça rodava. Senti como se estivesse numa daquelas cenas de cinema que a imagem se distorce em perspectiva. Tudo foi muito rápido como se um botão de zoom ao contrário fosse acionado. Ainda tive tempo de dizer ao anestesista e à enfermeira que me sentia cansada, muito cansada. Foi uma correria. Minutos depois, tudo voltou ao normal, mas ainda me sentia sem energia. Passado o susto, o médico explicou que eu tivera uma reação à anestesia. “Ao invés de pegar na parte de baixo do corpo, ela fez o caminho contrário”.

Segundo ato: reclamei para uma amiga sobre minha dificuldade para dormir em voos longos e noturnos. Ela disse – não se preocupe. Vou falar com meu pai que é médico e ele indicará um sonífero. Na chegada da viagem você estará novinha em folha! Levei os comprimidos na bolsa, feliz da vida, pensando nas horas de sono pela frente. Ainda durante o jantar tomei um dos remédios receitados. E esperei. Esperei até as luzes se acenderem de novo e o cheiro do café invadir a aeronave. Durante toda a noite eu não consegui dormir. Ao contrário, me sentia animada e disposta.

Provavelmente, disse a Dra. Menon, você tem problemas com drogas que mexem com o sistema nervoso central. E essa é uma informação valiosa para o histórico de todas as consultas que fizer na vida. Mas o que há de errado comigo?, pensei.

A explicação não aliviou minha ansiedade. Tudo é muito incerto. E existem várias hipóteses. Mas a base é que se trata de uma reação imunológica relacionada aos genes do tipo HLA. As evidências levam a crer que a maioria dessas reações são de natureza metabólica. Por isso, as farmacêuticas evitam o uso de drogas capazes de causar esses efeitos indesejáveis.

Um estudo da universidade de Toronto acena com a possibilidade de que existam marcadores biológicos relacionados ao estresse celular, o que poderia antecipar a resposta sobre uma droga ser capaz ou não de causar incidência significante de idiossincrasia. Mas tudo ainda são hipóteses, já que os estudos sistemáticos sobre mudanças de genes induzidas por drogas avança lentamente: faltam modelos animais válidos. A pesquisa conclui alertando para o fato de que reações adversas são mais variadas e complexas do que se pensava no passado, e é improvável que se entenda esse mecanismo a curto prazo.

Temos muito o que aprender com a sabedoria oriental. A natureza é sempre muito maior do que o homem que, mesmo sendo ele mesmo um grandioso universo, ainda não é capaz de entender porque cada um responde de forma única a determinados estímulos. No caso da reação idiossincrática, ela pode ocorrer num momento e, em outro, não, e com o mesmo tipo de medicamento, independentemente da dose ministrada.

Durante todos esses anos, sempre achei que minha forma de reagir ao mundo, às pessoas e às coisas era diferente do padrão. Não que eu fosse melhor ou pior do que os outros. Apenas era diferente. Descobri que isso é  genético. Eu sou idiossincrática.

Para saber mais: Idiosyncratic Drug Reactions, by Jack Uetrech – Leslie Dan Faculty of Pharmacy, University of Toronto.

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