Esta manhã, conferindo os posts do Facebook, vejo a chamada do Istituto Europeo di Oncologia (IEO) para um artigo numa das revistas que mais aprecio na Itália. Trata-se de um semanário feminino de 302 páginas do jornal La Repubblica, denominado La Repubblica D (delle Donne [das mulheres]). O nome, por si, já é bastante simpático. O conteúdo, de peso. É lá que li a matéria intitulada Il cancro é sentimentale [O câncer é sentimental].

Após esses anos de jornalismo especializado em saúde e medicina, eu já conversei com muitos oncologistas. Um deles me disse textualmente, enquanto eu tentava explicar-lhe do que se tratava a medicina integrativa: “eu sou muito aberto às práticas complementares, mas antes de tudo sou um cientista. O câncer está relacionado a uma modificação genética. E custo a crer que ele seja influenciado por sentimentos.” Tentei argumentar com postura de piquete. Sem sucesso.

Mas hoje fui apresentada a Christian Boukaram, oncologista canadense e autor do livro Le pouvoir  anticancer des emotions [O poder anticâncer das emoções, sem trad. para o português], que não teve prurido em declarar que quando iniciou seu trabalho, ele tinha a mesma opinião de meu interlocutor: “não existe nenhuma relação entre mente e saúde. É uma questão de DNA e basta!” Tudo isso para, depois, concluir – “Eu estava errado. Falta uma peça nesse quebra cabeça e ela diz respeito à esfera psíquica.” Ah, então, pensamentos, emoções, tipo de personalidade, estilo de vida e ego são mesmo importantes no aparecimento e na gravidade da doença? Sei…

A tese de Boukaram tem sido objeto de inúmeras pesquisas. Testes em animais com tumores  medicados com adrenalina, o hormônio do estresse, aumentaram em 30 vezes a agressividade da doença e o aparecimento de metástase. E como adoro estudos que são publicados no Pubmed, conferi as conclusões de uma investigação de Stanford (EUA), sob a direção do psiquiatra David Spiegel – veiculada na revista Psychoncology: Mind matters in cancer survival [A mente é relevante na sobrevivência do câncer].

A experiência clínica da mastologista do IEO, Giovanna Gatti, engrossa o caldo: a maioria das mulheres afetadas por um câncer de mama, e não há explicação para isso, nos meses anteriores ao diagnóstico relatam ter passado por um trauma, um grande dissabor. “A consequência são estados depressivos mais ou menos reconhecidos.”

 Isso seria apenas uma coincidência?

Outro oncologista do IEO, Aron Goldhirsch confirma esse quadro, mas entende ser impossível estabelecer este nexo causal. “O câncer e a depressão são duas doenças muito difusas.”, fala.

Por instantes achei que estava lendo uma frase do físico Amit Goswami – “quando a pessoa sabe que tem um tumor, a consciência de ter uma doença é um dos piores gatilhos para reconquistar a saúde”, declarou Gatti. O físico indiano radicado nos EUA sugere que os médicos do futuro dirão: “Agora que você tem a doença pode dar a ela um significado positivo em vez de negativo… A doença é uma oportunidade de autoconhecimento. Sua mente, energias vitais e representações físicas poderão, finalmente, atuar em perfeita harmonia, levando-o à cura”.

Para Boukaram “O câncer não é uma falência, e nem mesmo a morte o é. Trata-se de uma dificuldade, e pode ser uma ocasião para trabalhar a reconexão com o seu centro”. “A influência da mente é difícil de ser mensurada cientificamente, e porque falamos de uma coisa subjetiva. Mas encontrar um sentido para a própria vida e para a doença ajuda muitíssimo.”

Apesar do ceticismo, Goldhirsch declara, “As terapias mais avançadas e eficazes são só uma parte do tratamento. A chamada “compliance”, isto é, a adesão e colaboração do paciente são necessárias e pressupõem a presença de emoções positivas e de uma razão para viver”.

Ora, o que é isso senão um convite ao autocuidado, um dos pilares da medicina integrativa?

Num evento sobre o avanço dos pacientes geriátricos no Brasil, o geriatra Roberto Miranda, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) contou que as faculdades médicas já estão entendendo esse tipo de abordagem e estão se movimentando para que os alunos introjetem o significado de uma medicina preventiva e multidisciplinar. “Meditação, ioga, homeopatia reforçam o sistema imunitário e são utilizados em vários centros”, relatam todos os especialistas.

Do outro lado dos debates, ficamos nós. Completamente vulneráveis.

Cientes disso, busquemos colocar em prática a tal da compliance, aderindo, a nosso favor, à busca de sentido, ou mais sentidos, para nos tornarmos protagonistas equilibrados desta tão preciosa vida.

Ontem, na mesa de um restaurante vegetariano com duas pessoas queridas, falávamos da nova paternidade. Essa que vemos crescer todos os dias ao nosso lado. São novos homens que, sem nunca terem vivido uma gestação ou o estado de graça de sentir os primeiros movimentos do bebê em seu corpo, e nem a glória de dar a luz, se transformaram em verdadeiros receptáculos de oxitocina ambulantes.

Geralmente eles são pais separados movidos pelo intenso senso de dever em relação a seus filhos. E essa parece ser a resposta natural à distância física imposta pela decisão do divórcio, motivo de lágrimas e preocupações, além do sentimento de ciúmes diante de um novo “pássaro” à espreita do primeiro ninho. Isso faz deles mais femininos no que diz respeito a algo muito conhecido pelas mulheres. Assim como para nós é imprescindível construir um ninho e mantê-lo quente o bastante para continuar a gerar a vida (em todos os níveis), eles passam a construir os seus para acolher os ovos que permaneceram sob a guarda de suas antigas fêmeas. Aí eles vão cultivando a habilidade de nutrir, acolher, estar presentes como verdadeiros guardiões de ovos. O curioso é que esse cuidado, muitas vezes, beira à obsessão, pois é comum que seja uma maneira de compensar o que eles julgam ser o ponto fraco das mães dessas crianças – elas foram ou são pouco maternais. Então, eles assumem quase todas as obrigações que poderiam ser saudavelmente partilhadas… os ovos não podem quebrar!

É nessa espécie de vigília continuada que eles sonham com o futuro desses filhos, e se regojizam com a obra que foram capazes de gerar e, agora, cuidar. Um de meus mais queridos amigos, hoje sobre o degrau de seus 60 anos, foi personagem de uma grande reportagem da TV Globo. Separado de sua mulher, ele teria batido o record de presença na vida de sua amada filha. Quando a reportagem foi ao ar, recebi um longo telefonema – isso sim é que é ser reconhecido publicamente, ele dizia!

Mas apesar da ciência ter reconhecido que, ainda nos primeiros meses da gestação de suas parceiras, esses homens já passam por transformações hormonais – níveis de testosterona e cortisol – preciso aqui registrar que a paternidade, assim como a maternidade vai muito mais além de sermos capazes de trazer ao mundo uma nova vida, e por meio dela tentar contribuir para que nele habite alguma pessoa de valor. Esse é um de nossos principais deveres morais como pais.

É que, com o correr dos anos, essas criaturas passam a nos surpreender. E nossas certezas vão esmaecendo na mesma medida em que percebemos que temos em casa mestres que nos escolheram como discípulos, sem que tivéssemos consciência disso. E é assim que vamos amadurecendo enquanto eles florescem em primaveras constantes nos limites lineares de nossos ninhos.

A beleza desse florescer é tão arrebatadora que é impossível não parar para reverenciá-la.

Através de meus filhos aprendo todos os dias o que é amar, partilhar. Por meio deles é que vi que não tinha que ser um rocha sólida para que eles pudessem se apoiar. Eu apenas tinha que ser quem eu sou: humana, vivendo os altos e baixos de minha própria existência. E foi com eles que aprendi a chorar. Um dia, uma pequena menina loira, de olhinhos azuis como o céu me disse – mas mamãe, você nunca chora? Quem era essa terapeutazinha de 7 anos capaz de tocar meu coração absoluto e arrogante me dizendo que – okay – você, também, pode chorar (piar)!

E tem sido assim, todos os dias dessa longa caminhada em que, muitas vezes, já os vejo querendo construir seus próprios ninhos, mas carregam no bico gravetos a mais, pois é preciso saber que estarei bem.  Claro, ainda não precisam me dar comida na boca!!!!!!!! Mas é na mesa de nossas refeições que falamos sem medo sobre nossos medos e anseios. Enquanto me maquio diante do espelho da longa pia dupla do banheiro, vejo refletida a imagem de uma jovem que lerá muitos mais livros do que eu, e que já me mostra que será capaz de cuidar de si muito bem em qualquer árvore do mundo. É da pequena boca rosada por um gloss Dior, que agora saem as palavras que acalmam a minha alma sempre tão inquieta… é ela quem me pede calma, coloca suavemente meus pés no chão. É ela quem, diante do meu pesar me diz – vamos tomar um chazinho? Ou na minha alegria imensa, jamais esquece de dizer – você merece!

É assim que o amor transborda. E dirigindo para o trabalho, me emociono com a ideia de que eu poderia morrer se não tivesse esse tipo de amor na vida. E, assim, ligo apressadamente para o celular dela. Ela não responde. Quero dizer-lhe que sou muito grata por poder ser sua mãe. Deixo um recado. No final do dia nos encontramos. Ela então me diz – “só agora vi seu recado. Deixei o celular em casa. Vem aqui. Eu me aproximo e ela me abraça em silêncio. Depois, olhando nos meus olhos me diz: sou eu quem tenho uma sorte imensa de ter uma mãe como você!

Como o sol já se escondera há horas, abri minhas grandes asas para proteger esse amor da brisa fresca da noite. Não seria diferente na casa de tantos pais solteiros nesta sexta-feira, dia em que seus passarinhos ali se recolhem.

Há menos de um ano, escrevi este post. Pela atualidade do tema, o repito nesta data.

“Ontem à tarde fui à Sala São Paulo, e passei diante da antiga rodoviária, agora desapropriada para a construção de mais um milionário projeto arquitetônico. Me lembrei do dia em que completei 15 anos, e do presente de aniversário que pedi a meu pai: uma viagem. Sozinha, e de ônibus. Nascida na capital de São Paulo, o meu sonho era conhecer uma certa cidade do interior. Numa manhã fria de julho, ele me acompanhou até o pequeno escritório do Juizado de Menores, e assinou, meio preocupado, uma autorização para que eu partisse para o meu destino. Uma rodoviária nunca é bonita, mas há sempre um certo charme nos rostos daqueles que por ali passam: são as chegadas e partidas, e as histórias e sonhos que cada um traz em suas malas.

Todo esse cenário seria apenas uma lembrança agradável, não fosse o horror que se tornou aquela região. Antes mesmo das 18h00 eu já estava voltando para casa, e o fluxo do tráfego me fez passar por uma rua chamada Helvetia. Curiosamente, esse nome nos remete às origens celtas da Suíça, modelo de qualidade de vida em todo o mundo.

Como estamos no outono, a noite caía e o trânsito já estava lento porque se tratava de uma sexta feira. Os carros ficaram ali enfileirados, mas se pudessem teriam alçado voo, o mais rápido possível.  Vi então o que todo mundo viu e fingiu não ver. Olhei ao redor para observar a reação dos motoristas. Em seus rostos não havia algum sentimento. Todos pareciam anestesiados diante das centenas de pessoas amontoadas. Sujas e maltrapilhas. Pareciam participar de um macabro ritual, pois a maioria estava sentada no chão ou de cócoras. Era impossível ver seus olhos e a cor de suas peles. Eles eram brancos e negros, mas a maioria tinha uma cor acizentada, borralheiros que jamais se tranformarão em príncipes. A pouca luz e a dor da miséria encobria seus rostos. Vi poucas mulheres, mas elas estavam por ali. Todos me pareceram muito jovens. Mas não dava para saber que idade tinham: seus corpos, mentes e almas não são deste mundo,  pois ali é outro mundo: a Cracolândia.

Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate [Percam a esperança, vocês que entram] – Dante me falou à mente. O inferno è aqui?, me perguntei. O que teria feito essa gente para merecer tamanha danação? Talvez essa rua seja um portal que leva ao inferno… Nos breves minutos que fiquei ali parada, blindada por uma fina parede de lata e vidros, testemunhei a vida como ela é,  e que acontecia esquisofrênica do lado de fora. Tive vontade de chorar. E rezei sinceramente.

Na Divina Comédia, Dante, assombrado pela inscrição advertindo que é impossível escapar do inferno, foi consolado por Virgílio que lhe disse que a misericórdia divina desejou garantir aos homens que a justiça pode e deve ser feita com a efetiva punição dos maus. Nesse momento, uma nuvem de vespas, vermes e varejeiras se aproximou de Dante – eram as almas rejeitadas até pelo inferno, almas que não merecem nem punição nem recompensa.

As almas que vi nas calçadas da nossa Suíça eram o retrato desse limbo. Não existe tempo, nem esperança. Há apenas a escuridão. Vidas consumidas por vermes, varejeiras e vespas sob o céu aberto da cidade.

Quem são essas pessoas? Doentes, e não um caso de polícia. Mas suas vidas não têm valor. A vida deles não merece nem punição, nem recompensa.  Li em algum lugar que, se o Estado não tem sensibilidade suficiente para detectar as necessidades de um povo, corre o risco de ver deteriorada ou perdida sua legitimidade.

Finalizo com a reflexão do sociólogo italiano Domenico de Masi que, prevendo há mais de dez anos uma possível inversão de lideranças, afirmou que é a sociedade (jovens, mulheres, artistas, desocupados, imigrantes, aposentados e voluntários) que antecipa valores, necessidades e até instrumentos operativos que dirigentes de todo tipo se obstinam em não compreender e não adotar. (*Il futuro del lavoro, fatica, ozio nella società postindustriale).

 Quando teremos Saúde em abundância nesta cidade?”

 

Caros amigos, como sabem,  o tempo tem sido escasso para o prazer da escrita. Então, passar por aqui para refletir e compartilhar temas de saúde tem se tornado quase um sacrifício. Mas nesta manhã de domingo ensolarado, estive revendo alguns textos, páginas visitadas ao longo desses dois meses e encontrei um post escrito por Stephen Diamond, psicólogo forense americano, que possui uma série de mini artigos chamados Segredos da Psicoterapia, e que foram publicados na versão online da revista Psycology Today. Claro que o tema é bastante simpático, mas este post em especial traz alento, pois nos ajuda a meditar sobre a forma como vivemos nossas vidas. Todo dia é dia de aprendizado. A alma, como as crianças e os adolescentes, às vezes reclama da disciplina, mas é preciso continuar com o nosso imprescindível crescer. Compartilho, então, a tradução livre do artigo intitulado Mudança e Aceitação, esperando que ao menos uma faísca de esperança surja no coração de cada leitor. Para viver melhor, para aprender a ver as coisas sob as lentes da sabedoria e para começar o ano de 2012 mais leve!

“Comecemos com uma simples associação de palavras. Quando você pensa em psicoterapia, qual é a primeira palavra que lhe vem à mente para definir o que ela representa? Pense alguns segundos. Pronto? Para muitos, minha opinião é de que a única e, quem sabe, uma das primeiras palavras foi MUDANÇA. Mas e seu eu falasse a você que psicoterapia tem mais a ver com aceitação do que com mudança?

Qando Sigmund Freud fez aquela mal compreendida declaração de que o objetivo da psicanálise é transformar a miséria neurótica em infelicidade comum, ele estava falando de mudança. Mas como mesmo uma modesta mudança pode acontecer em uma terapia? Muitas das que ocorrem são consequência de um paralelo e gradual processo de aceitação; aceitação da vida como ela realmente é, em oposição àquilo que nós gostaríamos que fosse.

Aceitação de um trauma de infância e sua influência inconsciente no presente. Aceitação de nós mesmos por aquilo que somos, mais do que aquilo que não somos… E até Freud reconheceu profunda e pessoalmente a necessidade de coragem para aceitar nosso sofrimento físico e emocional, e o alto preço que pagamos tentando evitar ou negar esse trágico aspecto da vida.

O conceito de aceitação é especialmente proeminente nas filosofias orientais e também no cristianismo, e outros sistemas religiosos. Em nenhuma parte, por exemplo, na literatura religiosa, este princípio espiritual da aceitação do sofrimento é representado mais dramaticamente do que no arquétipo da imagem da Crucificação. Aceitação é a chave para a iluminação espiritual, como ilustrado repetidamente em textos tradicionais do Velho Testamento, no Bhagavad Gita, nos nobres ensinamentos de Buda e no Tao Te King.

Inspirado implicitamente nessa sabedoria do oriente, o psicólogo clínico Dr. Marsha Linehan (da Universidade de Washington), incorporou o paradoxo ou dialética da mudança versus a aceitação na sua popular Dialectial Behaviour Therapy (DBT). DBT é uma bem estruturada forma de terapia Cognitivo Comportamental, com um componente espiritual e filosófico. Especializado no tratamento de borderliners, Linehan reconhece a necessidade de trabalhar com esses pacientes desafiantes para ensiná-los o que ele chama de aceitação radical – além da necessidade de mudar sua cognição distorcida e seus comportamentos auto destrutivos. A aceitação radical é o abraço tolerante do como e quem estão aqui e agora, justaposto à consciência da necessidade de mudança e crescimento.

Para dar suporte a essa auto aceitação, Linehan integra princípios da meditação e do mindfulness em seu tratamento. Eis aqui os 5 pontos fundamentais da aceitação radical:

1. Aceitação é a consciência daquilo que é.

2. Aceitação é não julgamento, nem considerações do que é bom ou mal.

3. Livrar-se do sofrimento requer mais aceitação do que resistência à realidade.

4. Escolher suportar a dor e o estresse neste momento é aceitação.

5. Aceitar ao invés de evitar a dor emocional na verdade alivia o sofrimento.

A ênfase do especialista é a relação dialética entre a mudança e a aceitação e é um ótimo exemplo do quê precisa acontecer em uma verdadeira e efetiva psicoterapia. Para começar, existem certas coisas na vida que não podem ser mudadas, e algumas delas podem – embora muitas vezes com esforço e suporte. Esse reconhecimento reflete a prece da serenidade utilizada pelos Alcoólatras Anônimos: “Senhor, me dê serenidade para aceitar as coisas que eu não posso mudar; coragem para mudar aquelas que posso, e sabedoria para saber a diferença”. Outra coisa semelhante à abordagem dos AA é aceitar a sua impotência sobre o álcool (ou outras substâncias ou comportamentos de dependência), como pré requisito para a mudança. O problema deve ser inequivocadamente aceito antes que ele possa ser mudado.

Basicamente o que precisa ser mudado é nossa recusa em aceitar nós mesmos e aos outros como eles são agora. Esse é um verdadeiro paradoxo. Quando as pessoas vêm a primeira vez à psicoterapia, elas frequentemente esperam mudar a eles mesmos ou aos outros, e em formas que são simplesmente impossíveis. Mas, por definição, querer mudar algo ou alguma pessoa implica que há algo errado – alguma insuficiência, inadequação, falha, fraqueza, inferioridade, uma imperfeição inerente que pede mudança. Muitos pacientes têm a crença que ninguém pode amá-los, ou que não merecem amor da forma que são.

O que lhes falta é a habilidade de aceitar incondicionalmente eles mesmos, exatamente do jeito que são neste momento, apesar de suas humanas imperfeições. E ao mesmo tempo, algumas mudanças devem claramente ser feitas. Mudanças na percepção do derrotismo, atitudes, velhos mitos sobre si mesmo, estilo de vida, e outros comportamentos destrutivos. Mas o paradoxo é que isso, muitas vezes só é possível por meio da aceitação do que Jung chamou de Sombra.

A aceitação da vida e de seus próprios termos – a inevitabilidade do sofrimento, os caprichos do destino, a trágica qualidade da existência, a realidade do mal, a impermanência, as perdas, as doenças, a solidão, a insegurança, a finitude, o envelhecimento e a morte, é essencial tanto quanto qualquer técnica comportamental ou psicodinâmica, intervenção farmacológica ou reestruturação cognitiva, designada para diretamente mudar ou “consertar”o paciente e seu problema.

Aceitar nossas próprias tendências neuróticas, resistências, mecanismos de defesa, complexos, biologia, temperamentos, tipologia, sentimentos, pensamentos, impulsos, defeitos, idiossincrasias, e nossa capacidade inata para a destruição, juntamente com nossos pontos fortes, talentos e potencialidades criativas – são em si mesmos uma mudança terapêutica para o paciente desanimado, cheio de culpa, hiper moralista, narcisista, reprimido, dissociado ou perfeccionista. Por outro lado, a aceitação de si mesmo, das próprias emoções, pensamentos, comportamentos, problemas, e a responsabilidade por si mesmo, é precisamente o tipo de reorientação psicológica ou espiritual requerida na psicoterapia para que qualquer mudança real e duradoura possa ocorrer. E muito disso leva à aceitação”.

Ainda me lembro do dia em que recebi a notícia de que minha mãe tinha sido diagnosticada com um câncer de mama. Eu acabara de chegar do trabalho,  e respondi ao telefone no corredor que levava aos quartos do meu apartamento. Não recordo do teor da conversa, apenas resgistrei que senti muito medo. E tanto, que deslizei as costas na parede até encostar os glúteos no chão. Liguei imediatamente para meu marido contanto a novidade e, depois dessa cena, não lembro de mais nada. O “take” seguinte tem como cenário a antesala de um centro cirúrgico. Naquela época eu não era esse doce de pessoa que sou hoje e estava convencida de que podia fazer todas as coisas do meu jeito… Minha irmã estava ali sentada do meu lado, paralisada.

O médico, um oriental, entrou da sala dizendo que tinham retirado tecidos do seio dela, iam fazer uma biópsia e, talvez, outra cirurgia seria feita na sequência, caso constatassem algo mais grave. Eu aproveitei a notícia para desabar toda a raiva que sentia. – Porque não fizeram a biópsia na hora? Outra cirurgia em 24 horas? Vocês sabem o que estão fazendo? Ela é alérgica a medicamentos e, quem sabe o que pode acontecer com uma nova dose de anéstesicos num período tão curto de tempo? Claro, a raiva não era dele. Na verdade eu sentia muito medo. E me ver impotente diante da realidade me deixava furiosa.

Mas o médico sabia o que estava fazendo, e eu estava na tribuna, feito uma “advogada americana” querendo acusar-lhe de mala praxis diante de um tribunal lotado de mulheres. Afinal, quem estava na sua mesa de operação era minha mãe! Apesar disso, o médico não me poupou (e como poderia fazê-lo?). E foi assim que me explicou, com aquele jeito de samurai, que o que estava em jogo ali era muito mais importante do que a minha honra de causídica ou preocupações com anestésicos. Encerrei meu discurso ácido com um – A bem da verdade, data venia,  o senhor está falando (o senhor sabe com quem está falando?) nesse tom porque quem está na sala de recuperação não é a senhora sua, MAS A MINHA MÃE! Nova cena:  o dia seguinte. Resultado da biópsia. Outra cirurgia foi feita. Era um carcinoma in sito, um tipo menos grave de câncer de mama.

Há quase 20 anos, o que salvou minha mãe foram os EXAMES PREVENTIVOS. Como o câncer foi detectado precocemente, não houve necessidade de uma mastectomia total, mas parcial. E, melhor ainda, ela se livrou da quimioterapia. No seu caso, sessões repetidas de radio (não menos traumáticas) foram suficientes, além do remédio que teve que tomar por anos e os controles rigorosamente repetidos.

No pós operatório, quando ela ainda estava sob meus cuidados, eu lhe disse – eu só posso estar aqui como uma filha, dama de companhia ou uma enfermeira, mas quem precisa reagir e superar toda essa experiência é você! Depois de muitos anos ela me disse que essas palavras foram duras demais… Mas eu não entendia que assim eram. E não as entendo assim até hoje. Por mais que seja desejável e necessário o apoio de quem amamos, somos nós quem precisamos dar o primeiro passo em direção àquilo que necessitamos. E ela, de alguma maneira, conseguiu fazê-lo, apesar dos poucos recursos emocionais que lhe restaram em seu percurso de vida tão dramático. Mas pensando bem, quem é que tem culhões suficientes para superar tudo isso numa boa?  É preciso ter coragem, muita coragem para enfrentar nosso maior inimigo, que não é a doença, como tantos históricos de superação nos adverte. Nosso maior inimigo somos nós mesmos.

Ao abrir hoje o NYTimes, vi a foto de muitas pessoas que entenderam exatamente o que isso significa. E é por isso que desejei publicar aqui a foto de tantas outras pessoas que superaram o câncer. De um jeito ou de outro. O objetivo é mostrar que estamos todos no mesmo barco. Eu ainda tenho medo de fazer os testes preventivos, mas sei que preciso fazê-los. Ao olhar para essas fotos, lembrei que a vida, apesar das tantas patologias, é maravilhosa. E cada segundo dela deve mesmo ser celebrado.

Então, em nome das estimadass 12 milhões de pessoas que superaram dias de câncer, só nos Estados Unidos, convido-os a enviarem suas fotos para que eu possa publicá-las aqui. Basta enviar uma mensagem neste blog com o endereço email para que eu retorne solicitando a foto.

Começo eu, com a foto de minha amada mãe, a quem dedico este post!

E que todos tenham vida em abundância! Sempre!

Em geral, as crianças recebem quantidades adequadas de ácidos graxos ômega-6, mas se sua alimentação carecer de ácidos graxos ômega-3, isso pode ocasionar problemas de concentração, comportamento, aprendizado e até de saúde.

Considerados ácidos graxos essenciais ao corpo humano, os ácidos graxos ômega-3 e ômega-6 não podem ser sintetizados no corpo, então, precisam ser obtidos através da alimentação. Enquanto os ácidos graxos ômega-6 estão distribuídos uniformemente na maioria dos tecidos, os ácidos graxos ômega-3 concentram-se apenas em alguns tecidos especiais, incluindo o cérebro.

Uma estudo publicado em Junho deste ano (2011) pelas Universidades Laval do Canadá e Wayne State (EUA) sobre a ingestão de ácidos graxos em crianças em idade média de 11 anos, apontou um melhor desempenho a nível neurocomportamental de memória, inteligência e aprendizagem verbal, nas crianças, que receberam o nutriente enquanto feto, através do útero de sua mãe durante o período de pré-natal.

Embora nem todas as crianças que apresentem dificuldade para se concentrar tenham deficiência de ácidos graxos ômega-3, uma deficiência deste nutriente pode estar diretamente relacionada a problemas de atenção e aprendizagem. Ainda, de acordo com o estudo, as crianças que possuíam maiores níveis de DHA – ômega-3 no sangue do cordão umbilical no momento do nascimento apresentaram uma associação positiva com um melhor desempenho nas avaliações de memória.

Mas, onde encontrar esses ácidos graxos tão essenciais para o nosso organismo? Existem duas formas de incluirmos estas “gorduras do bem” em nossa dieta alimentar, são elas: através da ingestão de alguns alimentos naturais e por meio da suplementação. No caso da alimentação, nem sempre conseguimos atingir a quantidade necessária, principalmente no que refere ao consumo de ômega -3, encontrado em alimentos como peixes, linhaça, frutos do mar e óleo de canola – normalmente, pouco consumidos nesta faixa etária.

Já, no caso da suplementação, há alguns produtos no mercado capazes de fornecerem a quantidade exata para uma criança, além de proporcionar outros benefícios. Porém, mesmo através da suplementação, são necessários alguns meses para repor os níveis ideais de ácidos graxos ômega-3 em nosso organismo. O óleo de linhaça é uma boa alternativa, a qual pode ser incorporada discretamente às refeições das crianças, a proporção é de 3:4:1 de ômega-3 para ômega-6, sendo assim, consegue reequilibrar rapidamente esses níveis.

Outro estudo, sobre Alimentação e Desempenho Escolar, endossa a importância do óleo, sob o conceito de que, a deficiência em ALA ( ácido α-linolénico) – ômega3 proveniente da linhaça, altera o curso do desenvolvimento cerebral, induzindo modificações bioquímicas e fisiológicas que resultam em perturbações neuro-sensoriais e comportamentais, efeitos que também parecem ocorrer devido a mudanças nas concentrações cerebrais de DHA.

Em média, após 72 horas de suplementação dietética com esses ácidos graxos, há alteração da composição da membrana celular e diminuição na síntese de prostaglandinas e tromboxanas – substâncias pró-inflamatórias. Estas alterações podem modular a resposta inflamatória e interferir em mecanismos patológicos. Entendo que as respostas variam de organismo para organismo e, assim, algumas crianças terão uma resposta mais rápida após o consumo de ácidos graxos essenciais no que se refere às patologias associadas – independente da forma de como incluí-los em sua alimentação – seja por suplementação ou pela dieta alimentar; já outras terão uma resposta um pouco mais lenta, e isso é caracterizado especificamente pela individualidade bioquímica de cada um.

Guest Blogger: Marina Rosalem, nutricionista da Barlean’s Óleos Orgânicos. Para saber mais:

www.carduz.com.br

Já lhes aconteceu de pensar em algo e, de repente, encontrar todas as informações necessárias para a compreensão desse pensamento, antes sem nenhum fundamento teórico? Pois é. Lá no início do ano 2000 eu estava envolvida na produção editorial de uma coleção sobre folclore. E me veio à cabeça como teria se perdido a medicina dos povos indígenas brasileiros. Negociando direitos de um livro de um famoso sociólogo e folclorista brasileiro, Alceu Maynard Araújo, encontrei na biblioteca de um de seus herdeiros um livro chamado Medicina Rústica, do mesmo autor.

Mas o que seria medicina rústica? Folheei as primeiras páginas. Segundo Araújo, trata-se do “resultado de uma série de aculturações da medicina popular de Portugal, indígena e negra”. A leitura da obra, então, trouxe toda uma explicação histórica sobre quais influências poderíamos encontrar nessas ricas culturas medicinais. Antecedentes pré ibéricos, lusos, ameríndios e africanos. Mas, claro, não se poderia esquecer que, nesta última incorporam-se as usanças da África branca: a dos mouros.

É interessante perceber que no percurso histórico da medicina, desde o homem primitivo, o sobrenatural sempre esteve presente. Aqui, nessa mescla cultural, pajés indígenas, feiticeiros negros e bruxos europeus se influenciaram reciprocamente. O folclorista explica que, em razão dessa interação, para nós, brasileiros, é difícil saber o que pertence puramente a cada um desses representantes.

O que permaneceu na cultura médica popular no Brasil foi o curandeiro, o raizeiro, o curador de cobras, os benzedeiros. Numa metrópole como São Paulo ainda é possível encontrar esses personagens. Mas é fascinante imaginar de onde vieram as indicações desses médicos naturais para uma ferida, por exemplo: chupá-la, soprá-la! Além disso, o que justificaria o uso do assopro e do fumigar para outros males? Claro, poderíamos dizer que essas são práticas que funcionam como placebo, mas estão completamente dissociadas dos conceitos da medicina clássica, baseada na observação, análise, dedução e síntese.

Mas no mundo da medicina rústica, ainda mantém-se intacta a convicção primitiva de que a morte e a doença são resultado da manifestação de forças místicas, mágicas, da punição dos deuses ou substâncias estranhas que se introduzem no corpo humano, e que podem levar à morte ou a doença.

Prossigo na leitura e observo que, à época da coleta de dados de Araújo, portanto falamos da década de 1960, a população pesquisada à margem do Rio São Francisco, adotava o toré (religião indígena) como prática religiosa e também medicina mágica. Claro, para quem não tem posses para ter um bom médico, esse tipo de medicina seria a opção.

Assim define o especialista a medicina rústica: “conjunto de técnicas, de fórmulas, de remédios, de práticas, de gestos que o morador da região estudada lança mão para o restabelecimento da saúde ou prevenção de doenças”. A medicina mágica (benzedura, simpatias, profilaxia mágica, catolicismo brasileiro); a medicina religiosa (candomblé); a medicina empírica (fitoterapia, excretoterapia, dieta, balneoterapia, sangria, pirótica e a pingaterapia), são espécies do gênero medicina rústica.

Mas onde eram os consultórios desses médicos? As casas das cidades, da roça e as feiras livres. O diagnóstico era feito geralmente por meio de perguntas que buscam saber como anda o funcionamento dos intestinos, bem como investigam a cor da língua e da urina, se a barriga está empedrada, se há apetite ou não – entre outras coisas. Já o curandeiro e o benzedor seriam os psicólogos que desejam saber tudo. “Curandeiro não cura apenas mazelas do corpo, as da alma também”, conclui o autor.

Passado meio século, parece que os avanços da medicina e da tecnologia ainda não mudaram totalmente esse tipo de prática em algumas regiões do Brasil. A pergunta que ainda me faço é – como se passariam esses conhecimentos? Provavelmente são transmitidos por via oral. Mas há algo de legítimo e apropriado nessas práticas que podem contribuir para o estado de equilíbrio físico, mental e social das pessoas? Não sei. O que se sabe é que, para um grande número de pessoas, essa é a única forma de tratar e prevenir doenças.

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