Há menos de um ano, escrevi este post. Pela atualidade do tema, o repito nesta data.

“Ontem à tarde fui à Sala São Paulo, e passei diante da antiga rodoviária, agora desapropriada para a construção de mais um milionário projeto arquitetônico. Me lembrei do dia em que completei 15 anos, e do presente de aniversário que pedi a meu pai: uma viagem. Sozinha, e de ônibus. Nascida na capital de São Paulo, o meu sonho era conhecer uma certa cidade do interior. Numa manhã fria de julho, ele me acompanhou até o pequeno escritório do Juizado de Menores, e assinou, meio preocupado, uma autorização para que eu partisse para o meu destino. Uma rodoviária nunca é bonita, mas há sempre um certo charme nos rostos daqueles que por ali passam: são as chegadas e partidas, e as histórias e sonhos que cada um traz em suas malas.

Todo esse cenário seria apenas uma lembrança agradável, não fosse o horror que se tornou aquela região. Antes mesmo das 18h00 eu já estava voltando para casa, e o fluxo do tráfego me fez passar por uma rua chamada Helvetia. Curiosamente, esse nome nos remete às origens celtas da Suíça, modelo de qualidade de vida em todo o mundo.

Como estamos no outono, a noite caía e o trânsito já estava lento porque se tratava de uma sexta feira. Os carros ficaram ali enfileirados, mas se pudessem teriam alçado voo, o mais rápido possível.  Vi então o que todo mundo viu e fingiu não ver. Olhei ao redor para observar a reação dos motoristas. Em seus rostos não havia algum sentimento. Todos pareciam anestesiados diante das centenas de pessoas amontoadas. Sujas e maltrapilhas. Pareciam participar de um macabro ritual, pois a maioria estava sentada no chão ou de cócoras. Era impossível ver seus olhos e a cor de suas peles. Eles eram brancos e negros, mas a maioria tinha uma cor acizentada, borralheiros que jamais se tranformarão em príncipes. A pouca luz e a dor da miséria encobria seus rostos. Vi poucas mulheres, mas elas estavam por ali. Todos me pareceram muito jovens. Mas não dava para saber que idade tinham: seus corpos, mentes e almas não são deste mundo,  pois ali é outro mundo: a Cracolândia.

Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate [Percam a esperança, vocês que entram] – Dante me falou à mente. O inferno è aqui?, me perguntei. O que teria feito essa gente para merecer tamanha danação? Talvez essa rua seja um portal que leva ao inferno… Nos breves minutos que fiquei ali parada, blindada por uma fina parede de lata e vidros, testemunhei a vida como ela é,  e que acontecia esquisofrênica do lado de fora. Tive vontade de chorar. E rezei sinceramente.

Na Divina Comédia, Dante, assombrado pela inscrição advertindo que é impossível escapar do inferno, foi consolado por Virgílio que lhe disse que a misericórdia divina desejou garantir aos homens que a justiça pode e deve ser feita com a efetiva punição dos maus. Nesse momento, uma nuvem de vespas, vermes e varejeiras se aproximou de Dante – eram as almas rejeitadas até pelo inferno, almas que não merecem nem punição nem recompensa.

As almas que vi nas calçadas da nossa Suíça eram o retrato desse limbo. Não existe tempo, nem esperança. Há apenas a escuridão. Vidas consumidas por vermes, varejeiras e vespas sob o céu aberto da cidade.

Quem são essas pessoas? Doentes, e não um caso de polícia. Mas suas vidas não têm valor. A vida deles não merece nem punição, nem recompensa.  Li em algum lugar que, se o Estado não tem sensibilidade suficiente para detectar as necessidades de um povo, corre o risco de ver deteriorada ou perdida sua legitimidade.

Finalizo com a reflexão do sociólogo italiano Domenico de Masi que, prevendo há mais de dez anos uma possível inversão de lideranças, afirmou que é a sociedade (jovens, mulheres, artistas, desocupados, imigrantes, aposentados e voluntários) que antecipa valores, necessidades e até instrumentos operativos que dirigentes de todo tipo se obstinam em não compreender e não adotar. (*Il futuro del lavoro, fatica, ozio nella società postindustriale).

 Quando teremos Saúde em abundância nesta cidade?”

 

Caros amigos, como sabem,  o tempo tem sido escasso para o prazer da escrita. Então, passar por aqui para refletir e compartilhar temas de saúde tem se tornado quase um sacrifício. Mas nesta manhã de domingo ensolarado, estive revendo alguns textos, páginas visitadas ao longo desses dois meses e encontrei um post escrito por Stephen Diamond, psicólogo forense americano, que possui uma série de mini artigos chamados Segredos da Psicoterapia, e que foram publicados na versão online da revista Psycology Today. Claro que o tema é bastante simpático, mas este post em especial traz alento, pois nos ajuda a meditar sobre a forma como vivemos nossas vidas. Todo dia é dia de aprendizado. A alma, como as crianças e os adolescentes, às vezes reclama da disciplina, mas é preciso continuar com o nosso imprescindível crescer. Compartilho, então, a tradução livre do artigo intitulado Mudança e Aceitação, esperando que ao menos uma faísca de esperança surja no coração de cada leitor. Para viver melhor, para aprender a ver as coisas sob as lentes da sabedoria e para começar o ano de 2012 mais leve!

“Comecemos com uma simples associação de palavras. Quando você pensa em psicoterapia, qual é a primeira palavra que lhe vem à mente para definir o que ela representa? Pense alguns segundos. Pronto? Para muitos, minha opinião é de que a única e, quem sabe, uma das primeiras palavras foi MUDANÇA. Mas e seu eu falasse a você que psicoterapia tem mais a ver com aceitação do que com mudança?

Qando Sigmund Freud fez aquela mal compreendida declaração de que o objetivo da psicanálise é transformar a miséria neurótica em infelicidade comum, ele estava falando de mudança. Mas como mesmo uma modesta mudança pode acontecer em uma terapia? Muitas das que ocorrem são consequência de um paralelo e gradual processo de aceitação; aceitação da vida como ela realmente é, em oposição àquilo que nós gostaríamos que fosse.

Aceitação de um trauma de infância e sua influência inconsciente no presente. Aceitação de nós mesmos por aquilo que somos, mais do que aquilo que não somos… E até Freud reconheceu profunda e pessoalmente a necessidade de coragem para aceitar nosso sofrimento físico e emocional, e o alto preço que pagamos tentando evitar ou negar esse trágico aspecto da vida.

O conceito de aceitação é especialmente proeminente nas filosofias orientais e também no cristianismo, e outros sistemas religiosos. Em nenhuma parte, por exemplo, na literatura religiosa, este princípio espiritual da aceitação do sofrimento é representado mais dramaticamente do que no arquétipo da imagem da Crucificação. Aceitação é a chave para a iluminação espiritual, como ilustrado repetidamente em textos tradicionais do Velho Testamento, no Bhagavad Gita, nos nobres ensinamentos de Buda e no Tao Te King.

Inspirado implicitamente nessa sabedoria do oriente, o psicólogo clínico Dr. Marsha Linehan (da Universidade de Washington), incorporou o paradoxo ou dialética da mudança versus a aceitação na sua popular Dialectial Behaviour Therapy (DBT). DBT é uma bem estruturada forma de terapia Cognitivo Comportamental, com um componente espiritual e filosófico. Especializado no tratamento de borderliners, Linehan reconhece a necessidade de trabalhar com esses pacientes desafiantes para ensiná-los o que ele chama de aceitação radical – além da necessidade de mudar sua cognição distorcida e seus comportamentos auto destrutivos. A aceitação radical é o abraço tolerante do como e quem estão aqui e agora, justaposto à consciência da necessidade de mudança e crescimento.

Para dar suporte a essa auto aceitação, Linehan integra princípios da meditação e do mindfulness em seu tratamento. Eis aqui os 5 pontos fundamentais da aceitação radical:

1. Aceitação é a consciência daquilo que é.

2. Aceitação é não julgamento, nem considerações do que é bom ou mal.

3. Livrar-se do sofrimento requer mais aceitação do que resistência à realidade.

4. Escolher suportar a dor e o estresse neste momento é aceitação.

5. Aceitar ao invés de evitar a dor emocional na verdade alivia o sofrimento.

A ênfase do especialista é a relação dialética entre a mudança e a aceitação e é um ótimo exemplo do quê precisa acontecer em uma verdadeira e efetiva psicoterapia. Para começar, existem certas coisas na vida que não podem ser mudadas, e algumas delas podem – embora muitas vezes com esforço e suporte. Esse reconhecimento reflete a prece da serenidade utilizada pelos Alcoólatras Anônimos: “Senhor, me dê serenidade para aceitar as coisas que eu não posso mudar; coragem para mudar aquelas que posso, e sabedoria para saber a diferença”. Outra coisa semelhante à abordagem dos AA é aceitar a sua impotência sobre o álcool (ou outras substâncias ou comportamentos de dependência), como pré requisito para a mudança. O problema deve ser inequivocadamente aceito antes que ele possa ser mudado.

Basicamente o que precisa ser mudado é nossa recusa em aceitar nós mesmos e aos outros como eles são agora. Esse é um verdadeiro paradoxo. Quando as pessoas vêm a primeira vez à psicoterapia, elas frequentemente esperam mudar a eles mesmos ou aos outros, e em formas que são simplesmente impossíveis. Mas, por definição, querer mudar algo ou alguma pessoa implica que há algo errado – alguma insuficiência, inadequação, falha, fraqueza, inferioridade, uma imperfeição inerente que pede mudança. Muitos pacientes têm a crença que ninguém pode amá-los, ou que não merecem amor da forma que são.

O que lhes falta é a habilidade de aceitar incondicionalmente eles mesmos, exatamente do jeito que são neste momento, apesar de suas humanas imperfeições. E ao mesmo tempo, algumas mudanças devem claramente ser feitas. Mudanças na percepção do derrotismo, atitudes, velhos mitos sobre si mesmo, estilo de vida, e outros comportamentos destrutivos. Mas o paradoxo é que isso, muitas vezes só é possível por meio da aceitação do que Jung chamou de Sombra.

A aceitação da vida e de seus próprios termos – a inevitabilidade do sofrimento, os caprichos do destino, a trágica qualidade da existência, a realidade do mal, a impermanência, as perdas, as doenças, a solidão, a insegurança, a finitude, o envelhecimento e a morte, é essencial tanto quanto qualquer técnica comportamental ou psicodinâmica, intervenção farmacológica ou reestruturação cognitiva, designada para diretamente mudar ou “consertar”o paciente e seu problema.

Aceitar nossas próprias tendências neuróticas, resistências, mecanismos de defesa, complexos, biologia, temperamentos, tipologia, sentimentos, pensamentos, impulsos, defeitos, idiossincrasias, e nossa capacidade inata para a destruição, juntamente com nossos pontos fortes, talentos e potencialidades criativas – são em si mesmos uma mudança terapêutica para o paciente desanimado, cheio de culpa, hiper moralista, narcisista, reprimido, dissociado ou perfeccionista. Por outro lado, a aceitação de si mesmo, das próprias emoções, pensamentos, comportamentos, problemas, e a responsabilidade por si mesmo, é precisamente o tipo de reorientação psicológica ou espiritual requerida na psicoterapia para que qualquer mudança real e duradoura possa ocorrer. E muito disso leva à aceitação”.

Ainda me lembro do dia em que recebi a notícia de que minha mãe tinha sido diagnosticada com um câncer de mama. Eu acabara de chegar do trabalho,  e respondi ao telefone no corredor que levava aos quartos do meu apartamento. Não recordo do teor da conversa, apenas resgistrei que senti muito medo. E tanto, que deslizei as costas na parede até encostar os glúteos no chão. Liguei imediatamente para meu marido contanto a novidade e, depois dessa cena, não lembro de mais nada. O “take” seguinte tem como cenário a antesala de um centro cirúrgico. Naquela época eu não era esse doce de pessoa que sou hoje e estava convencida de que podia fazer todas as coisas do meu jeito… Minha irmã estava ali sentada do meu lado, paralisada.

O médico, um oriental, entrou da sala dizendo que tinham retirado tecidos do seio dela, iam fazer uma biópsia e, talvez, outra cirurgia seria feita na sequência, caso constatassem algo mais grave. Eu aproveitei a notícia para desabar toda a raiva que sentia. – Porque não fizeram a biópsia na hora? Outra cirurgia em 24 horas? Vocês sabem o que estão fazendo? Ela é alérgica a medicamentos e, quem sabe o que pode acontecer com uma nova dose de anéstesicos num período tão curto de tempo? Claro, a raiva não era dele. Na verdade eu sentia muito medo. E me ver impotente diante da realidade me deixava furiosa.

Mas o médico sabia o que estava fazendo, e eu estava na tribuna, feito uma “advogada americana” querendo acusar-lhe de mala praxis diante de um tribunal lotado de mulheres. Afinal, quem estava na sua mesa de operação era minha mãe! Apesar disso, o médico não me poupou (e como poderia fazê-lo?). E foi assim que me explicou, com aquele jeito de samurai, que o que estava em jogo ali era muito mais importante do que a minha honra de causídica ou preocupações com anestésicos. Encerrei meu discurso ácido com um – A bem da verdade, data venia,  o senhor está falando (o senhor sabe com quem está falando?) nesse tom porque quem está na sala de recuperação não é a senhora sua, MAS A MINHA MÃE! Nova cena:  o dia seguinte. Resultado da biópsia. Outra cirurgia foi feita. Era um carcinoma in sito, um tipo menos grave de câncer de mama.

Há quase 20 anos, o que salvou minha mãe foram os EXAMES PREVENTIVOS. Como o câncer foi detectado precocemente, não houve necessidade de uma mastectomia total, mas parcial. E, melhor ainda, ela se livrou da quimioterapia. No seu caso, sessões repetidas de radio (não menos traumáticas) foram suficientes, além do remédio que teve que tomar por anos e os controles rigorosamente repetidos.

No pós operatório, quando ela ainda estava sob meus cuidados, eu lhe disse – eu só posso estar aqui como uma filha, dama de companhia ou uma enfermeira, mas quem precisa reagir e superar toda essa experiência é você! Depois de muitos anos ela me disse que essas palavras foram duras demais… Mas eu não entendia que assim eram. E não as entendo assim até hoje. Por mais que seja desejável e necessário o apoio de quem amamos, somos nós quem precisamos dar o primeiro passo em direção àquilo que necessitamos. E ela, de alguma maneira, conseguiu fazê-lo, apesar dos poucos recursos emocionais que lhe restaram em seu percurso de vida tão dramático. Mas pensando bem, quem é que tem culhões suficientes para superar tudo isso numa boa?  É preciso ter coragem, muita coragem para enfrentar nosso maior inimigo, que não é a doença, como tantos históricos de superação nos adverte. Nosso maior inimigo somos nós mesmos.

Ao abrir hoje o NYTimes, vi a foto de muitas pessoas que entenderam exatamente o que isso significa. E é por isso que desejei publicar aqui a foto de tantas outras pessoas que superaram o câncer. De um jeito ou de outro. O objetivo é mostrar que estamos todos no mesmo barco. Eu ainda tenho medo de fazer os testes preventivos, mas sei que preciso fazê-los. Ao olhar para essas fotos, lembrei que a vida, apesar das tantas patologias, é maravilhosa. E cada segundo dela deve mesmo ser celebrado.

Então, em nome das estimadass 12 milhões de pessoas que superaram dias de câncer, só nos Estados Unidos, convido-os a enviarem suas fotos para que eu possa publicá-las aqui. Basta enviar uma mensagem neste blog com o endereço email para que eu retorne solicitando a foto.

Começo eu, com a foto de minha amada mãe, a quem dedico este post!

E que todos tenham vida em abundância! Sempre!

Em geral, as crianças recebem quantidades adequadas de ácidos graxos ômega-6, mas se sua alimentação carecer de ácidos graxos ômega-3, isso pode ocasionar problemas de concentração, comportamento, aprendizado e até de saúde.

Considerados ácidos graxos essenciais ao corpo humano, os ácidos graxos ômega-3 e ômega-6 não podem ser sintetizados no corpo, então, precisam ser obtidos através da alimentação. Enquanto os ácidos graxos ômega-6 estão distribuídos uniformemente na maioria dos tecidos, os ácidos graxos ômega-3 concentram-se apenas em alguns tecidos especiais, incluindo o cérebro.

Uma estudo publicado em Junho deste ano (2011) pelas Universidades Laval do Canadá e Wayne State (EUA) sobre a ingestão de ácidos graxos em crianças em idade média de 11 anos, apontou um melhor desempenho a nível neurocomportamental de memória, inteligência e aprendizagem verbal, nas crianças, que receberam o nutriente enquanto feto, através do útero de sua mãe durante o período de pré-natal.

Embora nem todas as crianças que apresentem dificuldade para se concentrar tenham deficiência de ácidos graxos ômega-3, uma deficiência deste nutriente pode estar diretamente relacionada a problemas de atenção e aprendizagem. Ainda, de acordo com o estudo, as crianças que possuíam maiores níveis de DHA – ômega-3 no sangue do cordão umbilical no momento do nascimento apresentaram uma associação positiva com um melhor desempenho nas avaliações de memória.

Mas, onde encontrar esses ácidos graxos tão essenciais para o nosso organismo? Existem duas formas de incluirmos estas “gorduras do bem” em nossa dieta alimentar, são elas: através da ingestão de alguns alimentos naturais e por meio da suplementação. No caso da alimentação, nem sempre conseguimos atingir a quantidade necessária, principalmente no que refere ao consumo de ômega -3, encontrado em alimentos como peixes, linhaça, frutos do mar e óleo de canola – normalmente, pouco consumidos nesta faixa etária.

Já, no caso da suplementação, há alguns produtos no mercado capazes de fornecerem a quantidade exata para uma criança, além de proporcionar outros benefícios. Porém, mesmo através da suplementação, são necessários alguns meses para repor os níveis ideais de ácidos graxos ômega-3 em nosso organismo. O óleo de linhaça é uma boa alternativa, a qual pode ser incorporada discretamente às refeições das crianças, a proporção é de 3:4:1 de ômega-3 para ômega-6, sendo assim, consegue reequilibrar rapidamente esses níveis.

Outro estudo, sobre Alimentação e Desempenho Escolar, endossa a importância do óleo, sob o conceito de que, a deficiência em ALA ( ácido α-linolénico) – ômega3 proveniente da linhaça, altera o curso do desenvolvimento cerebral, induzindo modificações bioquímicas e fisiológicas que resultam em perturbações neuro-sensoriais e comportamentais, efeitos que também parecem ocorrer devido a mudanças nas concentrações cerebrais de DHA.

Em média, após 72 horas de suplementação dietética com esses ácidos graxos, há alteração da composição da membrana celular e diminuição na síntese de prostaglandinas e tromboxanas – substâncias pró-inflamatórias. Estas alterações podem modular a resposta inflamatória e interferir em mecanismos patológicos. Entendo que as respostas variam de organismo para organismo e, assim, algumas crianças terão uma resposta mais rápida após o consumo de ácidos graxos essenciais no que se refere às patologias associadas – independente da forma de como incluí-los em sua alimentação – seja por suplementação ou pela dieta alimentar; já outras terão uma resposta um pouco mais lenta, e isso é caracterizado especificamente pela individualidade bioquímica de cada um.

Guest Blogger: Marina Rosalem, nutricionista da Barlean’s Óleos Orgânicos. Para saber mais:

www.carduz.com.br

Já lhes aconteceu de pensar em algo e, de repente, encontrar todas as informações necessárias para a compreensão desse pensamento, antes sem nenhum fundamento teórico? Pois é. Lá no início do ano 2000 eu estava envolvida na produção editorial de uma coleção sobre folclore. E me veio à cabeça como teria se perdido a medicina dos povos indígenas brasileiros. Negociando direitos de um livro de um famoso sociólogo e folclorista brasileiro, Alceu Maynard Araújo, encontrei na biblioteca de um de seus herdeiros um livro chamado Medicina Rústica, do mesmo autor.

Mas o que seria medicina rústica? Folheei as primeiras páginas. Segundo Araújo, trata-se do “resultado de uma série de aculturações da medicina popular de Portugal, indígena e negra”. A leitura da obra, então, trouxe toda uma explicação histórica sobre quais influências poderíamos encontrar nessas ricas culturas medicinais. Antecedentes pré ibéricos, lusos, ameríndios e africanos. Mas, claro, não se poderia esquecer que, nesta última incorporam-se as usanças da África branca: a dos mouros.

É interessante perceber que no percurso histórico da medicina, desde o homem primitivo, o sobrenatural sempre esteve presente. Aqui, nessa mescla cultural, pajés indígenas, feiticeiros negros e bruxos europeus se influenciaram reciprocamente. O folclorista explica que, em razão dessa interação, para nós, brasileiros, é difícil saber o que pertence puramente a cada um desses representantes.

O que permaneceu na cultura médica popular no Brasil foi o curandeiro, o raizeiro, o curador de cobras, os benzedeiros. Numa metrópole como São Paulo ainda é possível encontrar esses personagens. Mas é fascinante imaginar de onde vieram as indicações desses médicos naturais para uma ferida, por exemplo: chupá-la, soprá-la! Além disso, o que justificaria o uso do assopro e do fumigar para outros males? Claro, poderíamos dizer que essas são práticas que funcionam como placebo, mas estão completamente dissociadas dos conceitos da medicina clássica, baseada na observação, análise, dedução e síntese.

Mas no mundo da medicina rústica, ainda mantém-se intacta a convicção primitiva de que a morte e a doença são resultado da manifestação de forças místicas, mágicas, da punição dos deuses ou substâncias estranhas que se introduzem no corpo humano, e que podem levar à morte ou a doença.

Prossigo na leitura e observo que, à época da coleta de dados de Araújo, portanto falamos da década de 1960, a população pesquisada à margem do Rio São Francisco, adotava o toré (religião indígena) como prática religiosa e também medicina mágica. Claro, para quem não tem posses para ter um bom médico, esse tipo de medicina seria a opção.

Assim define o especialista a medicina rústica: “conjunto de técnicas, de fórmulas, de remédios, de práticas, de gestos que o morador da região estudada lança mão para o restabelecimento da saúde ou prevenção de doenças”. A medicina mágica (benzedura, simpatias, profilaxia mágica, catolicismo brasileiro); a medicina religiosa (candomblé); a medicina empírica (fitoterapia, excretoterapia, dieta, balneoterapia, sangria, pirótica e a pingaterapia), são espécies do gênero medicina rústica.

Mas onde eram os consultórios desses médicos? As casas das cidades, da roça e as feiras livres. O diagnóstico era feito geralmente por meio de perguntas que buscam saber como anda o funcionamento dos intestinos, bem como investigam a cor da língua e da urina, se a barriga está empedrada, se há apetite ou não – entre outras coisas. Já o curandeiro e o benzedor seriam os psicólogos que desejam saber tudo. “Curandeiro não cura apenas mazelas do corpo, as da alma também”, conclui o autor.

Passado meio século, parece que os avanços da medicina e da tecnologia ainda não mudaram totalmente esse tipo de prática em algumas regiões do Brasil. A pergunta que ainda me faço é – como se passariam esses conhecimentos? Provavelmente são transmitidos por via oral. Mas há algo de legítimo e apropriado nessas práticas que podem contribuir para o estado de equilíbrio físico, mental e social das pessoas? Não sei. O que se sabe é que, para um grande número de pessoas, essa é a única forma de tratar e prevenir doenças.

Quais são as principais dificuldades emocionais relacionadas ao câncer de mama entre as mulheres? Responder a essa pergunta era a missão do oncologista  M. William Audeh, diretor médico do Samuel Oschin Cancer Center de Los Angeles, Califórnia (EUA), no encontro anual da American Psychiatric Association (APA), ocorrido em maio no Havaí.

Conferencista de uma sessão intitulada Avanços sobre o câncer e suas implicações, Audeh, que também dirige um programa de redução de risco para essa patologia, destacou a importância da existência de grupos de apoio para essas pacientes, para que elas possam expressar seus medos. “O único cuidado é que a integração deve acontecer entre mulheres com o mesmo tipo de prognóstico”, afirma. A boa notícia é que, “Com os avanços das pesquisas genéticas, há cada vez mais esperança para essa doença”, completa o médico. Confira a entrevista exclusiva que o oncologista concedeu ao UOL Ciência e Saúde, diretamente do hospital onde trabalha, em Los Angeles:

O que causa maior estresse entre as pacientes de câncer de mama, o medo da morte ou a perda do símbolo da maternidade,  da feminilidade e sedução?
William Audeh – É a perda do controle sobre as coisas que têm valor na vida. O câncer causa esse sentimento para muitas pessoas porque é misterioso, embora o conhecimento sobre ele seja vasto. Problemas relativos à sexualidade, fertilidade, feminilidade e aparência sempre aparecem, mas eles variam em sua importância, de acordo com cada mulher. A aparência é causa de grande estresse, porque isso afeta como ela se relaciona com as outras pessoas, independente do gênero.

Após um diagnóstico de câncer, que tipo de ajuda é ideal para lidar com os problemas emocionais e físicos consequentes à doença?
Audeh -  Acredito que um bom relacionamento com o oncologista é o mais importante, em razão das decisões que deverão ser tomadas em conjunto, sem que se perca o controle sobre a própria vida. Penso que os amigos e a família, muitas vezes, acabam sendo a causa de maior estresse, pois trazem informações erradas, ou pressionam a mulher para que ela faça coisas que não deseja fazer.

No Brasil há um mito sobre o abandono das mulheres após o diagnóstico do câncer de mama. Isso acontece nos EUA?
Audeh - Eu não vejo isso acontecer com muita frequência. E se acontece, é sinal de que se trata de um relacionamento frágil e pouco saudável. Mas todo tipo de estresse, como questões financeiras ou a saúde podem ser a gota d’água. Entretanto, não é comum que haja mudança na sexualidade, ou que a perda da mama influencie quem realmente ama sua parceira.

Como a família e os amigos podem ajudar?
Audeh – Podem ajudar apoiando e dando liberdade. Como disse,  a maioria dessas pessoas aumenta o estresse, quando deveriam apenas ser solidários e incentivar, sem trazer novas informações como, por exemplo, novidades médicas, ou experiência de outras pessoas que podem ser diversas daquela vivida pela paciente em tratamento. Amor e apoio são as melhores coisas.

Qual é a sua opinião sobre a reposição hormonal, ela é correta para todas? A relação com o câncer de mama é real?
Audeh –  É claro o aumento do risco para o câncer se a reposição hormonal é feita por mais de 2 anos. Trata-se de uma estratégia que suaviza a transição natural para a menopausa, mas não é um tratamento ou qualquer outra coisa. A menopausa não é uma doença. Algumas mulheres sentem que a reposição mantém sua juventude, mas ela não é diferente do tabagismo quando se pensa nos riscos a longo prazo. É possível que o estrógeno sozinho seja mais seguro do que estrógeno e a progesterona. Porém, para as mulheres que se submeteram a uma histerectomia somente o estrógeno deve ser utilizado.

As mulheres estão se submetendo a um excesso de exames?
Audeh - Eu não aceito esse argumento. Quando encontramos um câncer, nós não sabemos se ele será perigoso ou facilmente erradicado. Assim, a abordagem mais sábia é identificá-lo e gerenciá-lo apropriadamente. Pode até ocorrer um excesso de tratamento, mas isso desaparecerá tão logo a tecnologia genômica possa diferenciar cânceres mais graves de cânceres indolentes (de crescimento lento). Entendo que mulheres acima dos 40 anos devam ser examinadas por especialistas e devem fazer mamografias regularmente.  Mulheres com histórico familiar deveriam começar a fazê-lo aos 35 anos. E se for conveniente, devem ainda se submeter à Ressonância Magnética.

Em tempos de tratamento personalizado, como saber qual é a melhor escolha para a paciente?
Audeh – Esse é um problema básico de confiança e comunicação. A mulher precisa ser capaz de fazer as seguintes perguntas ao seu médico: por que essa terapia foi escolhida para mim? Quais são as evidências que a embasam? Quais são as outras opções existentes? Quais são os efeitos colaterais ou danos que esse tratamento pode causar? Quais são os benefícios para mim nesse tratamento, ou o que pode acontecer se eu decidir não fazê-lo? Essas são as perguntas corretas a serem feitas, e todo oncologista deveria ficar feliz em respondê-las.

O que esperar  para o futuro?
Audeh -Maiores índices de cura para cânceres no estágio inicial, maior sobrevivência para aqueles com metástase, bem como qualidade de vida, menos uso de quimioterapia e mais uso da targeted therapy, terapia que visa atuar sobre ou bloquear  as funções de moléculas específicas das células cancerosas. Essa ação visa eliminar o câncer. Trata-se de uma terapia diversa da quimioterapia ou radiação, que indiscriminadamente procura alcançar as células cancerígenas, mas pode também alcançar as outras sãs. A esperança é que ela seja mais efetiva por ser mais específica para cada câncer, e também menos tóxica, pois é direcionada apenas às células cancerosas e não às demais. Além disso, espera-se ser difuso o uso do perfil genético para o câncer para dar suporte às decisões sobre o tratamento.

Para saber mais: Breast cancer: treatment is no longer one size-fits-all

*Matéria originariamente publicada no UOL Ciência e Saúde, em 11/08/2011.

Toda celebridade conhece a dor e a delícia de ser famoso. Quando este alguém é Reynaldo Gianecchini, a coisa pode ser pior. Jovem, bonito, bem sucedido, ele foi alçado ao patamar dos pobres mortais para quem a vida acontece sem pedir licença. Ter um diagnóstico de linfoma, um câncer onde células normais se transformam em células malignas e passam a crescer desordenadamente por todo o corpo, é incurável, mas o tratamento (dependendo do tipo de linfoma) pode levar ao controle dos sintomas e, portanto, da doença por vários anos, não é fácil para ninguém.

E o que um paciente com esse diagnóstico deseja além de encontrar uma esperança de cura? Penso que se espera poder ter o apoio dos parentes, amigos, pessoas capazes de se solidarizar com o mistério que representa a doença na vida das pessoas. Considerando a questão a partir da medicina integrativa, esta seria a oportunidade de refletir o que é possível ser feito para mudar as formas de viver, já que a doença está aí – e portanto, deu-se espaço para que ela se instalasse. A busca pela espiritualidade é o pretexto para refletir sobre o sentido da vida e da morte. E ela tem sido grande aliada da medicina, apesar do ceticismo reinante.

O fato é que os cientistas já comprovaram que quanto maior o nível de religiosidade, menor a atividade do córtex cingular anterior, vinculado ao controle inconsciente do perigo e dos problemas. O achado foi batizado de Marcador Neural de Convicções Religiosas. Tendo sido aluna do médico Mario Peres, pesquisador sênior do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa do Hospital Albert Einstein, pude aprender que existem muitos estudos epidemiológicos que evidenciam os benefícios da fé, da espiritualidade ou religiosidade para doenças mentais, menor prevalência de depressão, abuso de drogas e suicídio, melhor qualidade de vida, maior capacidade de lidar com a doença, menor mortalidade e tempo de internação, e ainda melhora da função imunológica.

Chamem isso de autoengano, placebo, o que quiserem. Mas esses resultados não são diferentes dos encontrados um dia pelo psiquiatra e neurologista Viktor Frankl, e que ele relata no famoso livro – Um sentido para a vida: “a sobrevivência depende da capacidade de orientar a própria vida em direção a um ‘para que coisa’ ou um ‘para quem’. Em outros termos, a existência depende da capacidade de transcender o próprio eu… o ser humano deve sempre estar endereçado, deve sempre apontar para qualquer coisa ou qualquer um diverso dele próprio, ou seja, para um sentido a realizar ou para outro ser humano a encontrar, para uma causa à qual consagrar-se ou para uma pessoa a quem amar. Somente na medida em que consegue viver esta autotranscendência da existência humana, alguém é autenticamente homem e autenticamente si próprio…”.

Apoiar-se na espiritualidade pode, então, ser mesmo um caminho ao esquecimento de si mesmo para alcançar a cura ou, ao menos, suportar a dor da completa impotência diante da magnanimidade da natureza. O que me deixa perplexa é que, para quem é famoso, todo esse processo de autoconhecimento, autotranscendência é objeto de notícia de revista de grande circulação nacional. Isso significa que é impossível vivenciar essa experiência com a privacidade desejável. Durante muito tempo, um de nossos presidentes, foi a inspiração para a caricatura do mau humor e do desejo de distanciar-se do povo e da mídia por causa de sua declaração – Quero que me esqueçam!

Olhando com a distância do tempo, acho que essa também é a vontade de Gianecchini, ou de qualquer outra pessoa na mesma circunstância. Tudo o que ele precisa agora é de tempo, silêncio e cuidados. E que esse caminho lhe traga o bem maior – um sentido para a sua própria doença e sua vida.

A Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas (Sobrac) lança a Campanha pulsAção: sentindo o ritmo do seu coração. O objetivo é conscientizar a população sobre a importância do diagnóstico precoce e da adoção de tratamento adequado para a Fibrilação Atrial. De alcance nacional, a Campanha terá ação interativa em São Paulo, no próximo dia 4 de agosto, no vão livre do MASP.

Dentre as atividades do mini-circuito realizado na capital paulista está uma apresentação lúdica na qual um percussionista ilustrará, por meio de um instrumento musical, a diferença entre um ritmo cardíaco normal e o ritmo de um coração com fibrilação atrial.

O público presente também poderá conferir vídeos demonstrativos em notebooks, com explicações e ilustrações do funcionamento do coração com e sem a doença, podendo ainda levar para sua casa folders com todo o material descritivo sobre o tema.

“Pouco se fala da fibrilação atrial, mas a sua divulgação é importante, pois se trata de uma doença muitas vezes silenciosa, que pode gerar sérias consequências, como o AVC e a insuficiência cardíaca”, explica Dr. Guilherme Fenelon, presidente da Sobrac.

A fibrilação atrial é o tipo de arritmia cardíaca sustentada mais comum nas consultas clínicas, e já afeta 2,5% da população¹. É caracterizada pela desorganização da atividade elétrica dos átrios (câmaras superiores do coração), fazendo com que o ritmo atrial se torne rápido e irregular, além dos átrios perderem a sua capacidade de contração.

Os sintomas da doença incluem palpitações, falta de ar, tontura, dor no peito e cansaço, mas pode também ser completamente assintomática. No coração, a fibrilação atrial altera a função cardíaca, favorecendo o desenvolvimento da insuficiência cardíaca e a formação de trombos de sangue dentro do coração, podendo, dessa forma, causar um derrame, também conhecido como acidente vascular cerebral (AVC). As chances de um portador da doença sofrer um AVC são de cinco a sete vezes maiores do que a de uma pessoa que não tem a doença.

Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia, cerca de um em cada 10 mil jovens normais tem fibrilação atrial. Nesses indivíduos, a doença é geralmente intermitente, mas pode se tornar crônica em 25% dos casos. Esta condição pode ser provocada por estresse, álcool e fumo, porém na maioria das vezes não possui uma causa aparente.

O diagnóstico precoce e o controle da fibrilação atrial são de extrema importância para evitar as complicações da doença, que podem levar ao derrame (AVC).

Inicialmente, o tratamento da arritmia é feito com medicamentos antiarrítmicos. Além disso, pacientes com maior risco (idade acima de 75 anos, hipertensos, diabéticos, com insuficiência cardíaca, ou que já tiveram AVC) devem fazer a prevenção do AVC com remédios anticoagulantes.

Pacientes que não respondem ou são intolerantes ao tratamento medicamentoso podem se beneficiar da ablação por cateter, principalmente aqueles mais jovens, com muitos sintomas e sem doença cardíaca significativa. Em pacientes com essas características, a ablação por cateter é considerada um procedimento seguro e eficaz para a correção da fibrilação atrial, reduzindo em 65% o risco de recorrência da fibrilação em comparação aos medicamentos antiarrítmicos pelo período de um ano.

Essa prática consiste na introdução de cateteres pelo sistema circulatório periférico. Os cateteres são guiados até o coração, onde isolam ou eliminam as áreas de tecido atrial responsáveis por gerar uma atividade elétrica irregular. O tipo de cateter para ablação mais comum usa energia de radiofrequência para “cauterizar” o tecido do coração, criando uma cicatriz que impede novas descargas irregulares.

Já existem no Brasil procedimentos de ablação em que o médico consegue ter um mapeamento 3D do sistema elétrico do coração e visualizar os cateteres sem o uso de aparelhos de Raios-X, diminuindo a exposição do paciente e da equipe médica à radiação e aumentando a precisão do procedimento.

A campanha pulsAção: sentindo o ritmo do seu coração tem o apoio da Biosense Webster, líder no segmento de diagnóstico e tratamento das arritmias cardíacas.

Serviço

pulsAção: sentindo o ritmo do seu coração

Data: 4 de agosto

Horário: das 7 às 15 horas

Local: Vão Livre do MASP – Av. Paulista, 1578 – sentido Centro/Bairro

Para saber mais: www.ritmodocoração.com.br

[1] Estudo da SOBRAC (Sociedade Brasileira de Arritmia Cardíaca) e do DECA (Departamento de Estimulação Cardíaca Artificial da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular) de 2009, com base em dados oficiais do Ministério da Saúde, referentes a 2007.

Em dezembro de 1940, foi publicado o Decreto-Lei n.º 2.848, estabelecendo o Código Penal Brasileiro (CPB). O artigo 124 define ser crime provocar aborto em si mesma ou consentir que outrem lho provoque, sob pena de detenção de 1 a 3 anos. O artigo 126, por sua vez, diz que quem provoca aborto, mesmo com o consentimento da gestante, pode ser punido com reclusão de 1 a 4 anos. Na sequência, o artigo 128 estabelece os casos de impossibilidade de punição por aborto praticado por médico: se não houver outro meio de salvar a vida da gestante, ou se a gravidez resulta de estupro, e o aborto for consentido pela gestante ou seu representante legal.

Em 1970, trinta anos após a promulgação da lei penal, foi publicado por Garrett, Robinson e Kossoff o primeiro trabalho científico demonstrando a possibilidade de detecção de malformações fetais por ultrassom. Passados quase meio século dessa descoberta, e mais de setenta anos da publicação daquela legislação, o mundo mudou. Com a melhoria da qualidade de atendimento pré natal no Brasil, a maioria das gestantes faz um ou mais exames de ultrassom durante a gestação, e já na 11ª semana de gestação é possível detectar com precisão se o feto tem anencefalia.

É sabido que no Brasil acontecem mais de 3 milhões de gestações por ano, e estima-se a detecção de oito novos casos desse tipo por dia. A comunicação desse diagnóstico aos pais é um momento dramático, pois o sonho de convívio com um filho acabou naquele momento. Não bastasse isso, esse casal passa a ter consciência do maior risco para eles de passar pela mesma experiência dolorosa novamente, em futuras gestações.

Na década de 1940 não existia o ultrassom gestacional, e a duração do sofrimento dos casais, em casos de anencefalia, era de segundos ou minutos, raramente algumas horas, pois o médico só identificava que o feto tinha anencefalia no momento do parto. O casal era então informado que seu filho nasceu com uma má formação incompatível com a vida, e por isso foi a óbito. Iniciava-se o período de luto imediatamente, e não havia o dilema ético e legal hoje existente.

Como o diagnóstico agora é feito no início da gestação, o casal tem de aguardar de 25 a 29 semanas de gestação para enterrar o filho logo após o nascimento. Claro que muitos casais preferem esperar até o final da gestação para interromper esse período difícil em suas vidas, e a opinião deles deve ser respeitada. Porém, outros casais gostariam de optar pela antecipação imediata do parto, iniciar imediatamente o luto, se recuperar e planejar uma nova gestação.

Há setenta anos essa segunda opção é considerada um crime pelo Estado brasileiro. Fundamental ressaltar que o que está em julgamento no Superior Tribunal Federal (STF) não é qual das duas atitudes é a mais correta, mas se a segunda opção deve persistir sendo crime após tantos anos da publicação do CPB, ou se o mundo mudou a ponto da lei ter de ser atualizada.

É importante ressaltar que cerca da metade dos fetos com anencefalia morre ainda durante a gestação e praticamente todos os demais vão morrer nas primeiras horas após o parto. A condição é inexoravelmente letal. Seria uma ótima oportunidade, e de grande utilidade aos cidadãos brasileiros, que o STF aproveitasse o momento e julgasse também se já pode ser considerado crime a inoperância do Ministério da Saúde, que em outubro de 2004 instituiu um grupo de trabalho para sistematizar uma proposta de Política Nacional de Atenção à Saúde em Genética Clínica, e implementar em 180 dias sua inserção no SUS. Porém, passados quase sete anos, mantém engavetado o projeto, pronto para ser publicado desde 2009.

Entre outros benefícios educacionais de baixo custo que a implantação do atendimento de genética no SUS traria a 150 milhões de brasileiros que dependem do atendimento público, está a difusão entre as mulheres em período reprodutivo, do conceito médico de que a administração medicamentosa de ácido fólico um a dois meses antes da gestação reduz o risco de anencefalia fetal pela metade. Trata-se da prática de uma medicina profilática, que evitaria que boa parte dos casos de anencefalia chegasse a ocorrer, minimizando o sofrimento e as difíceis decisões que esses casais talvez poderão e precisarão tomar, caso a antecipação do parto em casos de anencefalia fetal seja descriminalizada pelo STF.

Guest Blogger: Dr. Salmo Raskin, diretor da Sociedade Brasileira de Genética Médica.

Do ponto de vista psicológico, clima frio é aquele nos provoca a sensação de frio ou até mesmo desconforto. Do ponto de vista fisiológico, clima frio é aquele que altera nosso sistema de regulação de temperatura. Podemos dizer que esse nosso termostato funciona em “marcha lenta” em ambientes com temperaturas de 25-27oC, não disparando reações de aumento do metabolismo no caso do frio, ou de transpiração, no caso do calor. A inteligência maior dessa regulação encontra-se em um centro profundo do cérebro, o hipotálamo, e é ele que comanda nossas reações de suor, calafrios e constrição ou vasodilatação dos vasos sanguíneos em resposta à temperatura ambiente.

Será que realmente funcionamos em outro ritmo em dias mais frios? A adaptação do nosso corpo ao frio envolve mecanismos neurológicos, que influenciam nosso sistema endocrinológico e vascular, mas é claro que também envolve mecanismos comportamentais, como tirar do armário aquele cobertor que só usamos algumas vezes no ano.

Vários fatores determinam a regulação do frio em um determinado indivíduo: idade, sexo, preparo físico, quantidade de gordura corporal. Até mesmo o tipo de personalidade do indivíduo pode influenciar: extrovertidos reagem mais ao desconforto do frio com maior aumento da pressão arterial e secreção de noradrenalina. Doenças sistêmicas e medicações também podem afetar a resposta individual ao frio.

Do ponto de vista de desempenho físico, o frio prejudica a função muscular em exercícios dinâmicos. Já em exercícios estáticos (isométricos), o frio não influencia tanto, e ao contrário, pode até aumentar a resistência muscular. Um recente estudo revelou associação entre o frio e a capacidade de equilíbrio, possivelmente por reduzir a eficiência de nossas “antenas” que regulam nosso balanço. E o nosso cérebro?

Sabemos que tanto o frio como o calor exagerados podem influenciar negativamente nossas habilidades mentais, e um balanço geral dos estudos existentes sugere que o frio tende a atrapalhar mais. Entretanto, alguns estudos também nos mostram que o frio leve/moderado pode melhorar nosso desempenho intelectual.

Duas principais teorias explicam o efeito do frio sobre nossas habilidades cognitivas. A primeira é do “efeito distração” que o desconforto associado ao frio pode causar, ao desviar nossa atenção da tarefa que estamos efetuando. A outra teoria defende a ideia de que o frio leve/moderado deixa-nos mais acordados, e o maior estado de vigília permite um melhor desempenho do nosso cérebro. Evidências neurofisiológicas apoiam essa hipótese, ao mostrar que a atividade elétrica cerebral no frio leve/moderado é mais “esperta”.

O frio pode reduzir nosso nível de vigília, nossa concentração e memória de curto prazo, entre outras funções cognitivas, especialmente em temperaturas abaixo de 10º C. No caso de hipotermia, ou seja, em situações de frio extremo em que a temperatura corporal chega a níveis inferiores a 35º C, pode-se observar sintomas de confusão mental e redução da vigília. O efeito do inverno sobre nosso comportamento também pode ter uma parcela de contribuição do fator luminosidade. Em países muito ao sul ou muito ao norte, o inverno vem acompanhado de pouca luz por conta de dias muito curtos, fenômeno que é bem reconhecido como fator que aumenta a frequência de sintomas depressivos nessa estação. E depressão é igual a cérebro menos eficiente. Há evidências também que as concentrações dos hormônios da tiroide estão reduzidas em invernos rigorosos. E hormônios da tiroide são combustíveis importantes para o cérebro.

Até o momento, a melhor dica para nosso cérebro curtir o frio com boa performance é a de nos agasalharmos bem para não ficarmos distraídos com o desconforto do frio. No ambiente de trabalho, o ar condicionado simulando uma câmara frigorífica pode ser um fator de distração. Viver o inverno sem ficarmos lembrando que está frio pode até deixar o cérebro mais ligado. Um cafezinho vai muito bem também!


*GUEST BLOGGER: Dr. Ricardo Teixeira,  neurologista e diretor do Instituto do Cérebro de Brasília (IBC), e professor da pós-graduação em Divulgação Científica e Cultural da Universidade de Campinas (UNICAMP). É também autor do premiado Blog ConsCiência no Dia a Dia.

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